Nós fazemos parte de uma sociedade, um grupamento organizado de pessoas — um sistema baseado em regras. Temos agência sobre as regras neste sistema, exatamente como a temos em um jogo do qual participamos.
A agência sobre as regras frequentemente é reduzida. É fácil perceber que grupos maiores tendem a restringir parte dela. Por exemplo, se eu e alguns amigos decidirmos jogar uma partida de Futebol em um campo aqui perto, poderemos tranquilamente exercitar a nossa agência sobre as regras para transformar as regras do jogo — retirar a regra de impedimento, por exemplo.
Mas os participantes de partidas profissionais de Futebol não têm esta agência. Eles integram um enorme grupo de pessoas, espalhadas por todos os continentes, e neste grupo a agência de transformação das regras do jogo está restrita a uns poucos.
Também é assim para os participantes do “Jogo do Estado”. Já mencionei que a maior parte da agência de criação e transformação das regras fica nas mãos do Legislativo. Mas também mencionei que sempre temos a agência de transgressão das regras.
Transgressões são assunto sério! No Homo regulans, tratei delas com alguma profundidade. Existem dois tipos básicos: as que negam o próprio jogo, e agem para destruí-lo; e as que aceitam o jogo, mas violam parte da maneira como ele funciona.
Existem transgressões a regras formais e a regras informais. As regras formais frequentemente definem penalidades para os seus transgressores — multa, demissão, restrição de direitos, prisão, e assim por diante. Já as penalidades para os transgressores de regras informais são de natureza social — desaprovação, censura, exclusão.
No mundo dos jogos digitais, a agência de transgressão frequentemente é reduzida; mas isso não acontece em outros sistemas baseados em regras. Justamente por isso, aprender a exercitar esta agência é um elemento fundamental do nosso aprendizado sobre como viver em sociedade.
Exercitar a transgressão inclui transgredir, identificar transgressões, e decidir como lidar com elas. Todos os três aspectos estão interligados e são necessários — sim, especialmente o primeiro.
Precisamos de transgressões para podermos nos transformar, e para transformar a nossa relação com a sociedade e o mundo onde vivemos.
Não faz diferença se são regras formais ou informais. O que realmente importa é: quem transgride? por que transgride? que impacto esta transgressão causa a outros?
Há regras que são consideradas perniciosas, ou iníquas. Por exemplo, na Roma imperial, os cristãos praticavam sua religião em segredo, e se recusavam a obedecer normas (formais ou não) que consideravam violar seu dever de submissão a Deus. Os cristãos de nosso tempo frequentemente admiram e elogiam aquelas transgressões; mas, para aqueles transgressores, seu comportamento oferecia graves riscos pessoais. De todo modo, conseguiram transformar a sociedade — embora muitos não tenham vivido para ver este resultado.
Isso é um exemplo histórico familiar, mas o fenômeno é uma constante em nossa existência como espécie. Agora mesmo, nossa sociedade está lidando com muitas transgressões a regras racistas e sexistas. Em seu conjunto, estas transgressões estão transformando a nossa sociedade.
Por tudo isso, este é um tema que vai voltar mais adiante, várias vezes. Mas eu queria dar este contexto para as transgressões, antes de continuar a explorar a questão que propus: como jogamos este “Jogo do Estado”?
Nossas transgressões podem ajudar esta exploração?
Será que tem um jeitinho?