Estudiosos de Linguística distinguem diversas funções quando usamos a linguagem. Uma delas é a função fática.

— Boa tarde, meu amigo.

— Quanto tempo! Tudo bem com você?

Expressões fáticas servem para estabelecer um canal de comunicação, para mantê-lo, para encerrá-lo. Quando as usamos, conseguimos verificar se os interlocutores estão de fato “no mesmo canal”: dispostos a conversar, prestando atenção à conversa, falando a mesma língua, e assim por diante.

Aqui, estou especialmente interessado em dois aspectos da função fática. Para examiná-los, vou usar a minha lente lúdica.

A “lente lúdica” é um instrumento da mente, algo como uma lente de aumento imaginária. Eu a uso quando quero examinar algo como se fosse um jogo. Isso é algo muito comum — por exemplo, falamos no” “jogo da política” ou no “jogo de sedução”, justamente porque é possível ver parte da política (ou da sedução!) como se fosse um jogo.

Quando eu convido alguém a jogar comigo, também é necessário passar por uma fase de estabelecimento do nosso canal lúdico. Por exemplo:

— Vamos jogar Buraco?

— Vamos.

Neste exemplo, os participantes estão criando um canal lúdico entre eles: foi proposta uma partida de Buraco, ela foi aceita.

Aí está o primeiro dos aspectos que me interessa na função fática. O canal foi estabelecido, e o jogo já pode acontecer.

O segundo aspecto também está presente aqui, mas antes de discuti-lo quero ampliar um pouco o exemplo.

— Vamos jogar Buraco?

— Vamos. Vale baixar trinca?

— Não.

— Beleza.

Aqui, ainda temos o chamado ao jogo, que propõe a criação de um canal lúdico. Mas, agora, há também um acerto sobre as regras que serão usadas na partida.

Por que isso foi necessário? Porque existem muitas variantes populares nas regras do Buraco. O acordo sobre qual variante será usada também pode fazer parte da fase fática do jogo.

Esta segunda parte acontece com mais frequência em jogos sem regras “oficiais”, como é o caso do Buraco. — um jogo como o Xadrez raramente precisa deste tipo de negociação —, mas ela pode existir tranquilamente como parte do convite para uma partida de Uno, por exemplo, ou de Futebol.Mas, antes de passar ao segundo aspecto, quero chamar a atenção para uma parte da conversa neste exemplo. Quando os participantes concordaram sobre as regras que irão usar, estavam exercendo o que eu chamo de agência sobre as regras.

Agência sobre as regras é a capacidade de lidar com regras: criação, modificação, transgressão, submissão.

Neste caso, a agência sobre as regras serviu para definir qual das variantes do Buraco será jogada, e também para sinalizar a concordância dos participantes em usar estas regras, e não outras.

E aqui está o segundo aspecto que me interessa na função fática. Ele também está presente na comunicação: lá, expressões fáticas sinalizam a concordância dos participantes em conversarem, usando a mesma linguagem.

Todos os jogos, mesmo os mais competitivos, partem de um fundamento cooperativo. Todos os participantes precisam cooperar para implementar as regras, pois sem isso o jogo não tem como acontecer. O mesmo acontece na comunicação.

Eu usei a palavra “concordância” para isso, mas há outra palavra que poderia ter usado: consentimento.

De fato, o consentimento dos participantes é necessário na comunicação. Também nos jogos: é a base cooperativa fundamental que eu mencionei.

Anteriormente, eu ainda mencionei outro tipo de atividade que podemos enxergar com a lente lúdica: o jogo da sedução. Ou o jogo do amor. Aqui, sim, brilha claramente a necessidade de consentimento.

Não importa se é um jogo, uma conversa, um debate, ou um abraço amoroso: todos começam com consentimento e cooperação.