Olá, amigos. Eu sou Luiz Cláudio, e vocês estão ouvindo o podcast The Rules Lawyer.
Hoje vamos conversar sobre expectativas dos participantes em um jogo.
As expectativas dos participantes não são exatamente as regras informais, mas elas têm uma relação muito forte com as regras informais. De forma geral, elas tratam de como nós esperamos que o jogo se desenvolva ao longo da partida, e como nós esperamos que os jogadores se comportem.
Em outro episódio aqui do podcast, já mencionei uma situação de expectativa. Eu me referi ao chamado “jogo da vergonha”, entre as seleções da Áustria e da Alemanha Ocidental, na copa de 1982. Ali, a expectativa era por uma partida competitiva, disputada por dois times que procurassem a melhor vitória possível sobre o adversário.
Mas esta expectativa não era geral. O desenvolvimento da partida mostrou que ela não era partilhada pelos jogadores em campo e nem pelas equipes técnicas das duas seleções.
Mas há expectativas que têm origens diversas. Por exemplo, existem expectativas dos designers.
Existe um wargame chamado DAK-II, publicado pela empresa The Gamers. É um jogo sobre as operações militares na Líbia e no Egito, durante a Segunda Guerra. Sem entrar em muitos detalhes, existem muitos jogos sobre estas operações que incluem regras para forçar operações ofensivas. Mas o designer do DAK-II, Dean Essig, preferiu não colocar regras assim no seu jogo, e escreveu o seguinte nas regras de vitória:
“Se vocês ainda estão olhando um para o outro sobre a fronteira entre a Líbia e o Egito, no fim de 1942, esperando que o adversário faça alguma coisa primeiro, reiniciem a partida e tentem novamente.”
Claramente, a expectativa do designer é a de que os jogadores se comportem de forma agressiva contra o adversário.
Existem expectativas individuais, de cada um dos participantes, mesmo que não sejam compartilhadas por outros. O exemplo aconteceu ontem comigo, e foi o que motivou a reflexão. Jogando uma partida online de Through the Ages, fiquei decepcionado porque a partida se transformou em um festival de guerras e agressões. Este tipo de situação era muito comum com a primeira edição deste jogo; com a nova edição, tornou-se mais raro, mas não impossível.
Outra expectativa individual: eu sou um novato no jogo, então espero que os outros peguem leve comigo.
Existem expectativas que são grupais, ou comunitárias, mesmo que não sejam generalizadas. Esta também é chamada de group thinking, especialmente no campo dos RPGs. Por exemplo, uma expectativa muito comum em um grupo de RPG é que os jogadores colaborem uns com os outros. Mas eu já participei de um grupo que incluía um jogador que procurava vencer as partidas, maximizando seus resultados e tentando minimizar os dos outros jogadores.
Outro exemplo que testemunhei, diversas vezes, acontecia em partidas de Diplomacy.
Dois jogadores celebravam uma aliança permanente, inquebrável sob quaisquer circunstâncias.
Muitos destes exemplos têm, em comum, o fato de terem aparecido no contexto de transgressões das expectativas. De certa forma, foi a transgressão que revelou a existência das expectativas. E vou usar o aspecto da transgressão para falar de um outro tipo de expectativa, que é quase fundamental.
Eu já mencionei aqui, em outro episódio, que todos os jogos precisam partir de um ato cooperativo, de consenso: “nós todos vamos jogar este jogo, com estas regras”.
Este consenso anda de mãos dadas com uma expectativa: a de que os participantes vão, de fato, implementar aquelas regras, para jogar aquele jogo.
Parece tão simples, mesmo elementar. Mas, assim como nos exemplos que eu mencionei anteriormente, esta expectativa é revelada quando ela é violada.
Por exemplo: alguém que entre no jogo da democracia, participa do jogo, mas tudo o que faz vai no sentido de destruir o jogo do qual aceitou participar. Vejam que esta transgressão é muito grave no caso de um mandatário eleito, como um parlamentar ou um presidente da república; mas esta transgressão também pode ser realizada por um simples cidadão. Ou por muitos deles. E são estes que dão força aos primeiros.
Em um próximo episódio, vou ampliar a discussão sobre transgressões — sobre a trapaça. Por enquanto, mais uma vez agradeço o seu interesse. Até breve!
Este foi um episódio do podcast The Rules Lawyer. Você encontra os outros episódios, e o meu blog, na página lcduarte.com.
Hoje, quereo encerrar este episodio fazendo um apelo a que todos procurem se vacinar assim que isso seja possível. Não deixem de se vacinar: esta não é apenas uma decisão individual, é uma questão de saúde pública. O jogo social é cooperativo, vamos realizar esta expectativa.