Il Principe (“O Príncipe”) foi publicado em 1532, cinco anos após a morte de seu autor. Mas o texto já circulava, em manuscrito, desde anos antes da publicação — e já causava controvérsia.

As intenções e convicções de Maquiavel ainda são motivo de debate. Da sátira à amoralidade, várias leituras são possíveis. Quaisquer que tenham sido os pensamentos do autor, interesso-me aqui pela recepção de sua obra, que inexoravelmente tinge também a percepção dos leitores sobre o seu autor. Foi esta percepção — o imaginário sobre o pensador florentino — que nos legou o adjetivo “maquiavélico”.

O livro tornou-se obra essencial para a filosofia política, e por extensão também para a ciência política. Paradoxalmente, foi o impacto da obra que fez o Maquiavel real ser menos relevante que o Maquiavel imaginado. Este é um personagem, criado pela recepção de inumeráveis leitores em quase cinco séculos.

O “maquiavélico” é especialmente associado à ideia de que os fins justificam os meios: que é meritório realizar ações más, se delas resultarem bons resultados. Também é associado à realpolitik — deixar de lado considerações éticas e agir em conformidade com o mundo como é, ao invés de como gostaríamos que fosse.

Um quase contemporâneo de Maquiavel sempre foi um personagem de ficção. Refiro-me a Mefistófeles, um dos dois personagens principais da lenda de Fausto. Seu papel por vezes é ambíguo, mas quase sempre ele é visto como um antagonista.

A forma mais conhecida da lenda de Fausto parece ter se consolidado nas regiões germânicas pelo século XVI. Pelo fim do século, Christopher Marlowe criou uma versão influente da lenda (The Tragical History of Doctor Faustus); mas ela terminou grandemente eclipsada pela visão de von Goethe (Faust).

Em linhas gerais, Fausto é um grande pesquisador, que abandona os ensinamentos cristãos em busca de conhecimento e de poder. Para isso, ele celebra uma barganha com o Inferno, conseguindo seus desejos em troca de sua alma. Quem representa as potências infernais neste pacto é um demônio chamado Mefistófeles, que passa a acompanhar Fausto na Terra — para servi-lo e para tentá-lo.

A maior parte das versões da lenda de Fausto encerra a moralidade cristã tradicional: os conhecimentos e poderes de Fausto se revelam vazios, e ele descobre que entregou sua alma e sua salvação em troca de nada, antes de ser condenado à perdição eterna.

Já a versão de von Goethe contesta o final tradicional; no momento em que morre, Fausto é salvo pela intervenção divina, apesar de todos os pecados; Deus considera que Fausto merece a salvação porque buscava o conhecimento — e, de mais a mais, assim atendia a um pedido da personificação do espírito feminino eterno. Sem qualquer dúvida, um Deus ex machina.

A lenda de Fausto trouxe dois adjetivos à nossa língua: “faustiano”, quase sempre usado para qualificar um pacto, barganha, ou contrato; e “mefistofélico”. Este último tem uns poucos pontos de contato com “maquiavélico”, mas não é tão usado quanto este.

Mas Mefistófeles continua presente, como personagem, em várias formas — até mesmo as de Elizabeth Hurley (Bedazzled, 2000). É por este antagonista que me interesso aqui.

Mefistófeles usa seus poderes a serviço de Fausto. Ele atende a desejos de seu “mestre” — e, especialmente, inspira-lhe novos desejos, que apenas ele pode atender. Nunca satisfazer.

Fausto, por sua vez, fica encantado com os poderes que Mefistófeles põe a seu serviço, e de bom grado os usa. Mas — que coisa! — nunca é o bastante. E, quanto mais usa as enormes capacidades que Mefistófeles põe a seu serviço, mais entrega a sua alma ao verdadeiro mestre de seu servo.

Esta é a essência da barganha faustiana. O maior problema com ela é que não tem solução benéfica para Fausto — daí a necessidade de von Goethe recorrer a um deus ex machina escancarado.

Retorno ao não-personagem florentino. Mencionei, acima, a associação de Maquiavel à chamada realpolitik — uma escola de pensamento extremamente influente nas relações políticas nacionais e internacionais. Charles de Gaulle a sumarizou: Les hommes peuvent avoir des amis, pas les hommes d’Etat (“um homem pode ter amigos, mas um estadista não”).

A realpolitik sempre esteve presente nas relações humanas. Maquiavel não a inventou; mas de certa forma a codificou, como fundamento filosófico de Il Principe.

Ah! Ver o mundo como é. Este não é um ponto de vista popular. Afinal, o mundo é muitas vezes triste, mesmo desesperador; frequentemente, não conseguimos perceber nele o brilho que gostaríamos de ver. Para piorar, muitos dos problemas do mundo são wicked problems — problemas complexos, mutáveis, com soluções difíceis ou impossíveis.

Tudo bem. Não podemos resolver muitos problemas, mas podemos mudar o modo como os encaramos. Entra em jogo a propaganda.

Seja comercial, política, ou ideológica, propaganda não é nada de novo. Mais do que isso, sua influência pode ser profunda e duradoura: uma das grandes obras da literatura latina, Commentarii de Bello Gallico (“Comentários sobre a Guerra nas Gálias”), foi escrita por C. Julius Caesar como propaganda de si mesmo, para ajudar sua carreira política.

Sob qualquer forma, e qualquer que seja o seu objetivo, toda propaganda depende intrinsecamente da comunicação. Para ser exato, depende do alcance da comunicação: quanto maior a audiência da forma de comunicação usada, tanto maior pode ser a eficácia da propaganda. Por isso, não surpreende que a propaganda tenha se tornado gigantesca na época dos meios de comunicação de massa, desde o século XIX.

Imprensa, vapor, trem, telégrafo, fotografia, eletricidade, telefone, combustão interna, rádio, vôo, cinema, televisão, computadores, Internet. Todas as tecnologias nesta lista, muitas delas desenvolvidas nos últimos dois séculos, aumentaram a capacidade de comunicação — seja diretamente, seja por facilitarem o transporte entre diferentes lugares.

Mas estas tecnologias têm ainda algo mais em comum — algo sumarizado por algumas linhas do roteiro do filme The Right Stuff (“Os Eleitos”, 1983):

You know what really makes your rocket ships go up? Funding. No bucks, no Buck Rogers.

(em tradução livre: “Você sabe o que é que faz os seus foguetes subirem? Financiamento. Sem dinheiro, nada feito.”).

Em outras palavras: mesmo as tecnologias mais promissoras precisam que alguém pague por elas — pelo seu desenvolvimento e pela sua implementação. E aí está, novamente, a propaganda.

Não quero escrever, aqui, uma história da propaganda; mas quero examinar o seu impacto sobre a tecnologia mais recente da comunicação em massa.

A Internet começou a funcionar em fins da década de 1960. Durante anos, a infraestrutura técnica e física da Internet foi financiada por governos e instituições de pesquisa. O objetivo inicial deste processo era desenvolver uma rede de comunicação, descentralizada e distribuída — uma rede de comunicação que não pudesse ser destruída por um ataque nuclear.

Nos anos 1990, a Internet ultrapassou as fronteiras das instituições militares e de pesquisa, e tornou-se comercial.