As ideias abaixo vêm de minhas anotações de trabalho dos últimos três anos. Quero organizá-las conforme as partes do Homo regulans, para facilitar o seu uso.

Homo regulans

Parte I: Histórico

Parte II: Elementos

Parte III: Regras

Parte IV: Pessoas

  • motivação
  • a ilusão da vitória
  • comunidades / torcidas
  • https://en.wikipedia.org/wiki/Proxemics minha ideia sobre espaço de risco dos jogadores, a questão da chronemics (cf. discussões em um RPG e em um jogo de tabuleiro)
  • misoginia
  • sonhos
  • cooperação

Parte V: Jogando

O que fazemos com o jogo?

  • significado do jogo
  • resultado do jogo: aumento da compreensão — que leva a…
  • jogo como linguagem relações

Ideias anotadas

Motivações

Parte final da dissertação.

Jogos com significado

“Jogos sérios”. Todo jogo tem um significado (Huizinga). E todo jogo tem um propósito… só que alguns propósitos são considerados “nobres”, outros não.

Tensão entre jogo como diversão e jogo como ensinamento moral.

Misoginia

Gamers Gate.

Linguagem

Linguagem e jogos. Jogos como linguagem.

Comunidade

Constantinopla e as torcidas. Torcidas contemporâneas. Público dos jogos. Participantes.

Vitória

A ilusão da vitória. É ótima, como um orgasmo. Mas somente faz sentido dentro do jogo.

E sabe: uma das vantagens de não haver polícia de regras é que nós podemos decidir que condições de vitória queremos. Pode ser um jogo misère: quem perde, pelas regras normais, ganha. Pode ser outra coisa.

Porque o objetivo do jogo tem que estar subordinado ao objetivo do jogador, qualquer que seja ele.

Trapaça

Há regras que definem trapaças e transgressões, e lhes cominam sanções. Isso as coloca como parte do jogo — como o custo operacional de uma jogada, exatamente como a corrupção ou as multas.

Quando se torna necessário legislar sobre a trapaça?

Quando se está em um jogo maior, em um metajogo, como um campeonato ou uma sociedade. Quando simplesmente abandonar / destruir o jogo trapaceado causa um dano maior do que a sanção à trapaça.

Sonhos

Jogos como sonhos com os olhos abertos

Trickster

O arquétipo do trickster e as regras. O trickster raramente trapaceia, mas transgride expectativas. Isso não impede que seja usado por jogadores honrados. Wotan e Loge.

Não. Corrijo-me. Ele frequentemente trapaceia, especialmente pela mentira. Mas sua marca é a do vigarista, fazer a vítima se trapacear, jogando com suas expectativas.

https://en.wikipedia.org/wiki/Trickster

O ponto principal, para meu insight, é este aqui:

For example, many European fairy tales have a king who wants to find the best groom for his daughter by ordering several trials. No brave and valiant prince or knight manages to win them, until a poor and simple peasant comes. With the help of his wits and cleverness, instead of fighting, they evade or fool monsters, villains and dangers in unorthodox ways. Against expectations, the most unlikely candidate passes the trials and receives the reward.

(Grifos meus)

Contra as expectativas: o trickster transgride as expectativas! O trickster pode ou não transgredir as normas formais, mas ele é definido como aquele que transgride as normas informais.

Legislar sobre normas informais

Insight importante!!!

Existem comportamentos que transgridem expectativas — por exemplo, nepotismo.

Justamente porque violam normas sociais e não normas legais, é estúpido querer legislar para proibi-los.

Isso ainda fica pior porque toda norma proibitiva sempre se dirige a outras pessoas! Ninguém faz uma norma “quero ser proibido de fazer o que eu faço”.

Normoletos

A Regra de Ouro é, justamente, uma regra.

Outro exemplo interessante. JT e as regras da língua portuguesa. Ele insiste no cumprimento de algumas regras formais, ao mesmo tempo que rejeita várias das informais. Essencialmente, ele tem um idioleto mais abrangente que o de outras pessoas, resiste a reduzi-lo (desde criança, segundo sua mãe), e ao contrário insiste que o seu idioleto é a perfeita encarnação da norma culta.

Mas a maneira como ele trata outros sistemas normativos me sugere que pode haver um conceito equivalente ao de idioleto — normoleto, talvez? Em decorrência, haverá os equivalentes a dialetos e línguas.

Isto também sugere outra dimensão do pensamento mágico ligado às palavras — no caso, às regras sobre as palavras. Se palavras são mágicas, suas regras também são.

O conceito de normoleto está intimamente ligado ao conceito de variantes.

Existem variantes que são deliberadamente engineered — caso de muitas do Xadrez.

Outras são derivadas de uso. Penso nas house rules, como as que a Confraria adota. Formais — a ida e volta das trocas do War — e informais — JT não pode jogar com as peças pretas.

Em um sistema normativo, os participantes podem criar normoletos, e mesmo terminar por tratá-los como se fossem as próprias regras.

Caso típico: a regra de apoio no Diplomacy.

Wittgenstein e expectativas

Uma parte importante do meu trabalho diz respeito a expectativas dos participantes de um jogo, como um elemento fundamental das regras informais.

Acabo de encontrar um trabalho que discute um paradoxo apresentado por Wittgenstein — justamente, um paradoxo que diz respeito a regras e como segui-las. Kripke, o autor deste trabalho, propõe que a solução do paradoxo é que seguir a regra atende às expectativas de outras pessoas!

https://en.wikipedia.org/wiki/Wittgenstein_on_Rules_and_Private_Language

2021-11-23

Groveland Four exonerated 70 years after false rape accusation in Florida.

https://www.theguardian.com/us-news/2021/nov/22/groveland-four-exonerated-70-years-after-false-accusation-florida

As formas foram cumpridas. Mas cumprir as formas apenas, esvaziadas de conteúdo, é uma perversão.

Nós somos encantados pelas palavras — olha aí o pensamento mágico! — e achamos que elas são o todo. Mas muito do conteúdo não está nas palavras. Mesmo na linguagem, há muito que está na prosódia. E a minha pesquisa mostra que há muito fora das regras.

Bolsonaro faz isso o tempo todo.

Mais uma semelhança entre a linguagem e os jogos. Ambos vão muito além da parte “visível”, formal — morfologia, sintaxe, semântica, no caso da linguagem; regras formais, no caso dos jogos.

Elias e Foucault

O que é uma regra?

Partindo do princípio foucaultiano que toda norma é autoimposta e autorrealizada:

Uma regra é a manifestação do autocontrole.

Aí está a ligação com Norbert Elias.

Leis para resolver problemas

Mais um exemplo de leis feitas para dizer que o problema foi resolvido.

https://www.theguardian.com/us-news/2022/mar/08/a-father-used-a-ghost-gun-to-kill-his-three-daughters-its-a-sign-of-a-growing-crisis

Shunning

A velocidade das comunicações reduziu ou eliminou o poder da sanção social máxima, o shunning, o expulsar alguém do grupo e abandoná-lo à sua própria sorte. Isso deixou de ser possível: a aldeia global oferece um monte de lugares onde o exilado pode se abrigar, pode encontrar outros que pensam como ele. A origem de todas as sanções das nossas sociedades perdeu a eficácia, perdeu a força.

Como espécie, ainda estamos aprendendo a lidar com o fenômeno da comunicação de massas. A comunicação é a ferramenta fundamental para a criação da sociedade; mas agora a ferramenta mudou radicalmente, e ainda não sabemos como usá-la de forma útil para a espécie — os usos destrutivos estão brotando cada vez mais.

O que é permitido será feito

Interessante. O que o jogo permitir será feito. O que uma pessoa permite em um relacionamento será feito. Pessoas, pessoas.

Ironia

A ironia como uma das marcas dos textos modernos. Mas a ironia é uma brincadeira com as regras… ela transgride as regras (especialmente as semânticas?) e, mais do que isso, deixa implícito que o leitor e o autor compartilham uma informação secreta. Há uma percepção implícita de superioridade compartilhada, assim como de um mundo além do significado superficial das palavras. “Entendi a referência!”

Cf. QAnon.

Swingers

Comnidades swingers têm tantas regras porque não têm um conjunto preexistente de expectativas e normas informais!

O sistema normativo — incluindo regras formais e informais — existe na República, nos jogos e nos relacionamentos. Na República, as regras formais são abundantes; nos relacionamentos, há muito poucas. Mas há conjuntos de expectativas “dos mesmos tamanhos” em todos — porque são expectativas sobre comportamento de nossos colegas de espécie, e de nós mesmos!

Para ser exato: eles têm expectativas, porque as herdam da sociedade na qual se inserem; mas é da natureza do swing que seja uma transgressão das expectativas — então eles precisam substituí-las!

Não pode

Existem dois tipos de “não pode”. Um deles é o “é impossível”, logo este nem mesmo é contemplado pelas normas. É por isso que não aparece em regras de jogos.

O outro é problemático, porque ele é incompleto. A forma completa seria “não pode porquê tal efeito nocivo aconteceria”.

O efeito nocivo pode ser de vários tipos. Não pode pôr a água antes do pó porque não se consegue café. Não pode pular a janela porque você morre.

Não pode X porque isso prejudica outro — aqui está o crux.

A origem da confusão

Algumas normas descrevem o mundo natural, outras criam um mundo não natural — uma sociedade ou um jogo.

O problema vem do pensamento mágico sobre o poder das normas, combinado com a ausência de percepção da diferença acima. Penso que é o mesmo pensamento mágico do poder das palavras: normas são expressas em palavras, e o poder mágico das palavras é exercido por palavras normas — ergasticas?

Experiência lúdica

Conversando com uma amiga, eu me dei conta de algo interessante. Um jogo, sobre qualquer tema, necessariamente oferece uma perspectiva limitada sobre ele; e o mesmo pode ser dito sobre os seus jogadores.

Mas ver muitos jogos diferentes permite ter uma perspectiva muito mais ampla sobre jogos e jogadores.

Há quinze anos, passei a registrar as partidas de jogos de tabuleiro que jogo. Os dados são incompletos, mas servem como uma visão geral: 3264 partidas, de 306 jogos, com 417 pessoas, em 96 lugares. Provavelmente há poucos pesquisadores do tema com experiência análoga. Isso é uma ferramenta de pesquisa importante.

Jogos informais

Que diabo! Existem jogos que são inteiramente informais!

https://mariliakubota.wordpress.com/2022/02/23/para-que-escrever/

A marca de identificação: “não é assim que se faz”. Republic of Rome mostra bem como são estes jogos competitivo-cooperativos.

Jogos e amor

Um jogo tem muito a ver com um relacionamento amoroso. Nos dois casos, temos um conjunto de expectativas, frequentemente não verbalizadas.

Jogando sozinho: o autocontrole

Jogar sozinho é oferecer uma resposta à pergunta “eu consigo me autocontrolar?” Neste sentido, a resposta Kobayashi Maru é um enfático não.

Marcelo, no caso do CNA, transgrediu as expectativas dos colegas e do designer.

Mediação digital

Muito interessante. Ainda ontem eu conversava sobre a mediação em jogos digitais, e a diferença de interação social que eles causam.

https://edition.cnn.com/2022/04/27/health/creativity-in-person-remote-wellness-scn/index.html

Participantes

Há participantes não previstos nas regras do jogo. O emir na partida do Kuwait, uma mãe ou pai. O caso do emir é interessante, pois ele transgrediu as regras sobre os torcedores e levou o juiz a transgredir as suas — mas sem destruir o jogo. Já o pai que interrompe a partida porque é hora de almoçar destrói o jogo sem trapacear.

Cavalheiros

https://en.m.wikipedia.org/wiki/Gentlemen%27s_agreement

Criando o jogo

Jogar um jogo também é criá-lo. Mesmo que todas as regras sejam seguidas à risca, há aí uma decisão criativa.

Isso reforça a posição do Järvinen: você precisa conhecer bem jogos, para poder criá-los — e, no meu caso, para estudá-los.

BJ

https://www.theguardian.com/politics/2022/jun/17/the-week-boris-johnson-went-to-war-with-the-law

Johnson, como outros autocratas, usa a norma como arma, para se defender, para atacar outros, e especialmente para se beneficiar. São leis ad hoc, feitas para outros (ao estilo JT).

As cortes de justiça tornaram-se o local de disputa sobre o futuro do Estado de Direito. Pelo mundo todo, estamos sendo confrontados pelo contraste entre a expectativa hobbit e o fato de que as leis precisam ser implementadas por pessoas.

Paralelo histórico: Roma nas últimas décadas da República.

https://www.theguardian.com/commentisfree/2022/jun/17/britain-has-a-decision-to-make-the-rule-of-boris-johnson-or-the-rule-of-law

Jogar o TtR sem baixar rotas é usar a regra para destruir o jogo!

O contraste entre a regra de baixar rotas no TtR e a regra da falta no Futebol. Ambas são ações previstas nas regras, logo ambas são jogadas válidas. Mas a primeira atende a uma expectativa, a segunda a transgride.

Tanto é que existem prêmios extrapartida para jogadores que não cometem faltas.

Cometer faltas e vencer é relevado — a expectativa da vitória é maior que a expectativa do fair play, ao menos para os interessados naquela equipe. Cf. o caso da partida de Cricket.

Normas e o caso Trump

https://www.theguardian.com/us-news/2022/jun/19/january-6-republican-adam-kinzinger-trump-actions-seditious-conspiracy

https://www.theguardian.com/us-news/2022/jun/21/jan-6-hearings-donald-trump-pressure-brad-raffensperger

O que estes relatos mostram é que as normas somente funcionam quando pessoas as implementam. Trump não o faz, e o seu exemplo incentiva outros a se darem conta de que podem fazer o mesmo.

O caso da jovem oficial é emblemático. Ter POTUS contra você é assustador. Cumprir normas é uma decisão pessoal. Mas o terrível segredo está exposto agora: pode-se decidir o contrário.

A nossa sociedade foi encantada, desde a Era das Revoluções, pela promessa do Rule of Law.

Mas a Lei não faz nada, e certamente não governa.

Tacitus

O segredo do império. Associar o arbítrio, a agência sobre regras, e o abuso de poder por gente como Trump e seus imitadores.

Trump

https://www.theguardian.com/commentisfree/2022/jun/25/stab-in-the-back-nasty-old-myth-brexiters-exploiting-to-explain-away-the-disaster

Trecho fundamental:

The Trumpian special pleading and Orwellian denial of reality go unremarked because too many people, including too many on the left, fear the loneliness of breaking with the tribe and the vituperation that will follow.

Eu não havia me dado conta disso. A comunicação moderna ampliou gigantescamente o alcance e o poder da única sanção social.

https://www.theguardian.com/us-news/2021/jan/05/fight-like-hell-grievance-and-denialism-rule-at-trump-georgia-rally

Democracy as a set of agreements: https://www.theguardian.com/commentisfree/2021/jan/06/trump-mob-storm-capitol-washington-coup-attempt

Mecanismos e pessoas: https://www.theguardian.com/us-news/2021/jan/07/joe-biden-doj-justice-department-donald-trump-william-barr. Esta é a tensão fundamental. Regras não funcionam sem pessoas, pessoas precisam de regras para outras pessoas.

As regras de um jogo sempre dizem respeito à relação de uma pessoa com as demais. Mesmo em uma paciência, porque o jogador solitário está em uma relação com o designer!

Um conjunto de agreements — e não se pode realizar um agreement solitário!

https://www.theatlantic.com/technology/archive/2021/01/trump-coup-qanon-twitter/617582/

Complementando o meu artigo sobre valores.

https://www.theguardian.com/us-news/2021/jan/07/capitol-mob-attack-rightwing-rallies-trump

Jogo improdutivo?

Pensando nas assertivas de Huizinga e Caillois sobre o jogo ser uma atividade não-produtiva. Isso é apenas parcialmente verdadeiro. A frase esconde dois aspectos importantes.

O primeiro: há muitas atividades econômica não-produtivas — por exemplo, a especulação financeira… o jogar na Bolsa. Mas, ao contrário do jogo, elas são “respeitáveis”.

É interessante que, no Brasil, há décadas que apostas são permitidas, desde que o dinheiro apurado tenha um fim “nobre” — de um bingo de igreja à destinação dos recursos da Mega-Sena. Como foi com a antiga Santa Casa.

O segundo: apenas bens tangíveis seriam riqueza. Felicidade e bem-estar não seriam.

O interessante é que “riqueza” não é uma característica “natural” de certos bens, mas sim uma valoração que lhes é atribuída por humanos… mas, embora arbitrárias, há valorações mais “respeitáveis” que outras.

O jogo como linguagem

O jogo é uma linguagem que exprime relações.

“O produto do jogo é a compreensão.” Sim — não a compreensão da realidade, mas a compreensão do que outra pessoa pensa sobre a realidade. Pode ser o criador ou outro jogador.

Imprevisibilidade

Estou aqui preparando minha apresentação para o congresso em Lisboa. Refletia sobre características dos jogos.

Uma das fundamentais é a presença de regras. Lembrei que a imprevisibilidade do resultado é outra característica frequentemente apontada como inerente aos jogos…

… e me peguei lembrando de como a Lilah gostava de repetir sempre as mesmas brincadeiras, sem qualquer modificação aparente.

Também lembrei do meu postulado: ninguém joga duas vezes o mesmo jogo. Mesmo que nada mais no jogo mude, eu mudei.

Fiquei imaginando como Lilah reagiria a um jogo que fosse sempre igual. Talvez gostasse dele, de sua previsibilidade.

Ou ela pode ver modificações que eu não sou capaz de perceber — quem sabe, ela pode mesmo focar nas mudanças que a repetição provoca nela própria.

Congresso de Neuropsicologia: Jogos como ferramenta

Como qualquer ferramenta, é necessário conhecer as suas capacidades. Mas é ainda mais importante conhecer as suas limitações.

O ponto mais importante: o jogo é o que fazemos dele. Não existe polícia do jogo. O caso das filhas do Marcelo.

O que o jogo traz para a Neuropsicologia?

Vamos falar um pouco de alguns aspectos do jogo que têm mais a ver com as pessoas que os jogam.

Por que se joga?

Nós sempre procuramos fazer que o jogo tenha graça.

Mas pode não ser este o motivo de estarmos jogando.

O motivo pode ser muito variado. E nem sempre o jogo será uma atividade voluntária, por mais que este seja o ideal.

Com quem se joga?

Até o advento dos jogos digitais, jogava-se com quem se conhecia. Família, amigos, colegas.

Minha experiência (o caso do rim) era sui generis.

Com os jogos digitais, joga-se com qualquer pessoa, e deixamos de ter o contato pessoal com elas.

O caso da entrada na zona de conforto.

Máscaras e o Círculo mágico

Quando entramos no Círculo Mágico, envergamos máscaras e, para isso, deixamos outras máscaras de lado.

Será que o jogo tem que ser imprevisível?

O resultado do jogo deve ser imprevisível. Mas será como o caso do jogo voluntário? Ou seja, ideal mas nem sempre acontece?

A hipótese sobre a Lilah.

Uma forma de arte e uma linguagem

O jogo é uma forma de arte. Como toda forma de arte, ele consegue inspirar e expressar emoções (claro, algumas melhor que outras). Alegria, claro. Ansiedade — Strahd e Grace Under Pressure. Competitividade.

O caso do Train.

Mas ele vai além de outras formas de arte, porque o jogo consegue expressar relações. E mais: faz isso de forma a expressar uma gestalt.

Expressa relações sobre o que outras pessoas pensam sobre o seu tema; e sobre as pessoas que o jogam.

Qual o produto de um bom jogo?

Como um método de pesquisa, o jogo é utilizado por psicólogos, educadores e sociólogos, interessados em como as pessoas aprendem e jogam, e também por pesquisadores operacionais, outros analistas e tomadores de decisões, interessados em desenvolver, explorar e testar políticas, estratégias, hipóteses e outras ideias. […] Ao contrário de outras técnicas de análise, o jogo não é um método para conseguir soluções. O produto de um jogo não é uma previsão ou predição, uma solução ou uma validação rigorosa. O produto de um bom jogo é o aumento da compreensão.

William Schwabe, An Introduction to Analytic Gaming (1994)

Regras informais

Eu vinha usando o termo “regras sociais”, mas é melhor referi-las por informais. Todas as regras são sociais…

Estas são a base de legitimidade das Regras formais. Destarte, o ataque contra elas, típico do Direito Positivo, é um ataque à própria base do Direito.

O caso do uso da calculadora

Regra informal em ação.

Rotas de investigação

  1. Entrevistar a Dolores sobre o grupo de jogo dela. Perguntar sobre as regras sociais.
  2. Nomic. Todos na sociedade jogam. As regras vão mudando. Quase sempre a mudança é gradual — por exemplo, mudam as normas eleitorais. Às vezes a mudança é uma ruptura, mesmo paradigmática.

Regras informais|regras sociais em ação

Durante a pandemia, pessoas se organizando — e buscam criar regras para isso!

https://www.technologyreview.com/2020/05/09/1001547/coronavirus-bubble-pod-quaranteam-social-distancing-negotiation/

Fatos alternativos, regras alternativas

As regras, como os signos linguísticos, são arbitrárias

Qualquer um pode criar regras, ou mudar regras existentes — DESDE QUE encontre outros dispostos a “jogar” com ele.

Trump faz isso. Lula faz isso. Gilmar faz isso. Bolsonaro faz isso.

Sportsmanship

https://en.wikipedia.org/wiki/Worcestershire_v_Somerset,_1979

Tema extremamente interessante. O time e o seu capitão foram penalizados porque ele empregou uma brecha das regras do Cricket, o que levou à derrota na partida para melhorar a posição no campeonato. Embora a sua jogada tenha sido formalmente válida, foi amplamente condenada — naquele momento, bem entendido — por ter violado o “espírito do jogo” — ou, nos termos que eu emprego, as suas Regras informais|regras sociais.

Óbvio paralelo com a vitória do Marcelo no CNA.

IMPORTANTE

O caso do Cricket e o do Marcelo no CNA revelam algo importante. Nos dois casos, a vitória foi lograda dentro das regras do jogo. Mas o jogo não é um sistema estanque, inteiramente separado do sistema social nos quais os jogadores estão inseridos. Ao contrário: é parte integrante dele, com importância atribuída a ele por diversos stakeholders — máxime no caso do Cricket, mas mesmo no caso do CNA. Aqui, por ser um grupo social pequeno, a solução adotada é “não jogo mais”; lá, com regras formais para o metajogo, houve sanções explícitas, mesmo que parte do grupo não condenasse a conduta.

Regras informais|regras sociais: processo de aquisição?

https://thelanguagenerds.com/fing-insertion-is-systematic-and-this-is-how-it-works/

Muitas das regras da gramática são aprendidas diretamente, sem que sejam objeto de um processo formal de ensino. É a aquisição da linguagem.

Hipótese: o mesmo pode acontecer com Regras informais|regras sociais.

Pergunta: QUAIS SÃO OS TIPOS DE Regras informais|regras sociais? São os mesmos tipos das regras formais?


Hipótese. Não é que a Regras informais|regra social seja mais importante que a regra do jogo. A violação da Regras informais|regra social é mais importante.

The Star Chamber

Another function of the Court of Star Chamber was to act like a court of equity, which could impose punishment for actions which were deemed to be morally reprehensible but were not in violation of the letter of the law. This gave the Star Chamber great flexibility, as it could punish defendants for any action which the court felt should be unlawful, even when in fact it was technically lawful.

https://en.wikipedia.org/wiki/Star_Chamber

Literatura

John Harington

Treason doth never prosper: what’s the reason? Why, if it prosper, none dare call it treason.

Epigrams, Book iv, Epistle 5.

L. Annaeus Seneca

Prosperum ac felix scelus/ Virtus vocatur (“Successful and fortunate crime/ is called virtue”)

Hercules Furens, linhas 251—253.

Atitude lusória

Identificada por Suits.

Elemento essencial para a existência de qualquer jogo.

Por um lado, ela é o Consenso normativo. Por outro, ela é a Sujeição voluntária de Foucault.

Ela precisa incluir as Regras formais e as Regras informais.

IMPORTANTE. A atitude lusória introduz um elemento de Cooperação em todos os Jogos. Todos dependem que os Stakeholders cooperem para a implementação das Regras de jogo.

A transgressão da atitude lusória conduz ao Paradoxo da Tolerância.

A atitude lusória é pressuposto do jogo.

Há um pressuposto equivalente para a sociedade civil.

Há pressupostos do sistema democrático que são violados corriqueiramente. Um deles é o dos checks and balances. Quando os vigiados se mancomunam com os vigilantes, o pressuposto é invalidado.

Lula, Bolsonaro e Trump violam um dos pressupostos para os mandatários. O pressuposto de que querem ser estadistas e presidir um país. Na verdade, querem usar o Estado para seu benefício, monetário ou de outra natureza.

Necessário definir um equivalente a atitude lusória.

Sistema normativo

São as regras de um jogo que permitem caracterizá-lo como um Sistemas normativos.

Entendo regras de jogo como um caso especial de Normas.

Ao contrário do que acontece com os tipos mais comuns de Normas, nas regras de jogo o caráter voluntário é explícito, assim como é explícito o Consenso normativo — ambos necessários para a validade e eficácia das regras de jogo.

Paradoxo da Tolerância

Identificado por Popper.

O Paradoxo da Tolerância não é um paradoxo.

Ele é uma consequência — paradoxal, sim — de um paradoxo anterior: o intolerante que quer usar tolerância para destruí-la. A origem do dilema não está no comportamento de defesa da sociedade, mas no comportamento do transgressor.

O intolerante é um transgressor das Regras informais daquela sociedade! Ele ostensivamente aceita as Regras formais — mas as utiliza de forma a destruir o Sistemas normativos da sociedade. Este é o paradoxo.

No caso do transgressor, está ausente a Atitude lusória, e em decorrência estão ausentes o Consenso normativo e a Sujeição voluntária.

Suber oferece a resposta ao Paradoxo da Tolerância, de Popper.

Aplicação prática

https://www.theguardian.com/technology/2021/jan/20/far-right-extremists-take-over-uk-land-sales-facebook-page

Aplicação prática do Paradoxo da Tolerância, de Popper. O detalhe que o revela está perdido no meio da notícia, mas é crucial: o grupo que foi sequestrado em nome de proteger a liberdade de expressão proíbe e bloqueia qualquer discussão sobre como montar um grupo alternativo:

Shortly after they were asked about their decision to rebrand the page, it was switched to a “private” group, and users who tried to co-ordinate a transfer to a new Land for Sale group were banned from posting.

O Direito não é lógico.

Não há problema em uma sociedade com liberdade de expressão coibir o discurso que condena a liberdade de expressão.

Na verdade — insight meu — o paradoxo é outro. Pretender liberdade de expressão para um discurso que prega o fim da liberdade de expressão é paradoxal ipso facto. Ao coibir este discurso, a sociedade livre está, na verdade, evitando o paradoxo.

Mas o principal é que não pode haver paradoxo onde não governam as leis da lógica.

Regras e consenso

Vi, há pouco, o título de uma obra sobre relações internacionais: State Strategies in International Bargaining: Play by the Rules or Change Them?, de Heather Elko McKibben.

A natureza das regras do sistema internacional é a mesma das regras no pátio do recreio. Ela ilustra, de forma escancarada, a mutabilidade das regras e a necessidade de Consenso normativo — voluntário ou forçado.

O menino que diz “eu sou o dono da bola, o jogo é o que eu disser” é o equivalente direto da potência, regional ou mundial, que impõe seus desejos.

Penso no Diálogo de Melos, em Tucídides.

Mediadores

Como cultura, nós nos acostumamos a jogos “igualitários”. Lendo o capítulo do Fred para o Visões do Jogo, no ponto em que ele fala de jogos educacionais, dei-me conta de como o papel dos Mediadores do jogo é importante.

Os GMs dos RPGs desempenham este papel, claro, mas de forma geral esta é uma atividade endógena, voltada para aquela aventura ou campanha.

Em Serious games, o papel do mediador sobressai. E noto que isso não é novidade nenhuma! No período contemporâneo, os primeiros Serious games eram os wargames de treinamento do exército prussiano, a partir do Kriegspiel. E eles já usavam Mediadores!

Isso faz todo o sentido quando consideramos jogos como Sistemas Adaptativos Complexos. O papel dos Mediadores é proporcionar a adaptação — mas, ao invés de apenas os Jogadores se adaptarem uns aos outros e ao jogo, o mediador proporciona a adaptação do própro jogo aos jogadores!

O caso do SCM, do Thiago, é bem análogo, e eu lembro de ter dito isso a ele mais de uma vez.

Importante: o Mediadores pode mesmo permitir que os jogadores alterem as Regras de jogo, ao invés de deixar isso apenas a seu cargo.

Citando o Fred:

“Ao invés de focar na assimilação de conteúdos, o jogo educacional foca na problematização da situação imaginária, colocando em evidência os conflitos de motivo existentes na atividade jogada. O professor utiliza o jogo educacional como recurso para problematizar uma realidade que não está pronta, que depende de interpretação, que pode ser modificada pela ação subsequente baseada nesta interpretação. O jogo educacional é, portanto, um meio para a construção do conhecimento e transformação da realidade e não um conteúdo isolado.”

Isso pode ser tranquilamente reescrito como a descrição de um wargame.

Transgressões de expectativas

Atualmente, a minha pesquisa trata das relações entre os jogadores e as regras dos jogos. Uma parte importante desta abordagem envolve as Transgressões. Um caso típico de transgressão é o da Trapaça, claro, mas há vários outros.

Hoje cedo, eu estava refletindo sobre um caso específico de Transgressões, que decidi chamar de Transgressões de expectativas. São comportamentos de jogadores, em conformidade com as Regras formais, mas que de algum modo transgridem as expectativas sobre o que deveria ser o seu comportamento.

A questão-chave é: expectativas de quem? Nesta reflexão, ainda preliminar, distingui quatro fontes de expectativas, que indico abaixo, com exemplos das transgressões correspondentes.

  1. Expectativa individual de um jogador

O exemplo aconteceu ontem comigo, e foi o que motivou a reflexão. Jogando uma partida online de Through the Ages, fiquei decepcionado porque a partida se transformou em um festival de guerras e agressões. Este tipo de situação era muito comum com a primeira edição deste jogo; com a nova edição, tornou-se mais raro, mas não impossível.

  1. Expectativa do grupo

Esta também é chamada de group thinking, especialmente no campo dos RPGs. É uma espécie de extensão, para o grupo, da transgressão de expectativas individuais a que me referi no caso anterior. Lá, um dos jogadores tem uma expectativa sobre a partida, mas não é compartilhada pelos demais jogadores; aqui, o comportamento de um dos jogadores viola uma expectativa compartilhada pelos demais. Um exemplo que testemunhei, diversas vezes, acontecia em partidas de Diplomacy, quando dois jogadores celebravam uma aliança permanente, inquebrável sob quaisquer circunstâncias.

  1. Expectativas dos Designers

DAK-II é um jogo sobre as operações militares na Líbia e no Egito, entre 1940 e 1942. Dean Essig, o criador do jogo, escreveu nas regras de vitória: ” Se vocês ainda estão olhando um para o outro sobre a fronteira entre a Líbia e o Egito, no fim de 1942, esperando que o adversário faça alguma coisa primeiro, tentem novamente.” Não conheço caso em que isso tenha acontecido, mas a situação é hipoteticamente possível.

  1. Expectativas de outros Stakeholders

Eu uso o termo Stakeholders para me referir a pessoas que têm interesse em uma partida, embora não participem diretamente dela. Um exemplo típico são os torcedores. Com respeito a um exemplo de transgressão de expectativas de Stakeholders, menciono a reação agressiva da torcida de Lima, recebendo a seleção de futebol do Peru, após a partida de 21 de junho de 1978 contra a Argentina.

Em nenhum dos casos, referidos acima, houve transgressões das regras do jogo. Mas todos eles resultaram no que decidi chamar de Partidas degeneradas — ou seja, partidas nas quais o jogo ficou muito distante do esperado. Não faço, com isso, um juízo moral: uso a expressão “degenerada” no mesmo sentido que um físico fala em “matéria degenerada”. Mas ainda terei que refinar este conceito.

Comentários

Geraldo Xexéo. Muito boa a reflexão. Porém, no último caso, acho que foram quebradas regras (legais) e da prática do esporte. Talvez um exemplo melhor sejam times que empatam para garantir que os dois passam de fase e um terceiro sai prejudicado

LC. Obrigado, Geraldo. Como eu disse, é uma reflexão preliminar. O exemplo do Peru pode ter envolvido corrupção. Mas eu o usei porque a reação da torcida foi bem clara, e era isso que me interessava aqui. A partida Alemanha Ocidental x Áustria em 1982 é semelhante, na linha que você indica, e há vários outros casos célebres.

Ecologia dos jogos

https://lcduarte.com/post/2021/01/22/

Lembro de ter lido, há muito tempo, que a história da filosofia ocidental é muito simples: os gregos falaram de toda a filosofia, e desde então tudo que os filósofos fazem é retomar os mesmos assuntos.

Pena que não lembro quem foi o autor da brincadeira; e nunca mergulhei no estudo da filosofia. Mas tenho me espantado, durante a minha pesquisa, em perceber, nos jogos, características que retomam ideias defendidas por filósofos gregos.

Uma das mais relevantes é a ideia de dinamismo e de eterna mudança, proposta por Heráclito, e consubstanciada na frase “ninguém consegue entrar duas vezes no mesmo rio”. Eu a adaptei para minha pesquisa: ninguém consegue jogar duas vezes o mesmo jogo. O ato de jogar muda o jogador, no mínimo por aprender mais sobre aquele aquele jogo.

Outra frase, esta de Protágoras, também sempre mantenho em mente: “O homem é a medida de todas as coisas”. Para minha pesquisa, tenho uma leitura provavelmente simplista desta frase: as réguas que usamos para medir o mundo têm o tamanho apropriado a nós. É por isso, por exemplo, que temos dificuldade em entender fenómenos muito grandes ou muito pequenos, mesmo quando nossos instrumentos e teorias os alcançam. Perceber fenómenos fora da nossa escala é mais difícil.

É preciso lembrar que uma das dimensões da nossa escala é temporal — e a mesma dificuldade se materializa nela. Temos dificuldade para imaginar o futuro, e temos uma tendência a agrupar todo o passado em uma massa quase informe. Vivemos muito no agora.

Isto é importante quando pensamos em Sistemas. Um sistema estático é quase um contrassenso: de forma geral, sistemas são dinâmicos, e isso quer dizer que o seu comportamento muda ao longo do tempo. Mas, porque temos a tendência a perceber apenas o agora, temos dificuldade em perceber mudanças sistémicas que não sejam imediatas. Temos facilidade em perceber os elementos do sistema, bem como os seus limites; perceber as relações entre os elementos é mais difícil.

Um exemplo típico é o da Ecologia, a ciência das relações entre os seres vivos e o seu ambiente. Podemos identificar, com alguma facilidade, os elementos de um ecossistema — por exemplo, em um bosque, identificamos as árvores, os pássaros, os insetos, a vegetação rasteira, alguns mamíferos, a luz do sol, o solo, a água corrente, e assim por diante. Mas ver uma fotografia de um ecossistema é insuficiente. Precisamos perceber as relações entre os elementos do sistema.

Algumas destas relações são imediatas, como um pássaro que surpreende e come um inseto; estas são fáceis de perceber. Outras prolongam-se no tempo: por exemplo, um pesticida da fazenda vizinha causa esterilidade nas abelhas do bosque, o que em alguns anos leva ao desaparecimento de algumas espécies vegetais naquele bosque.

Perceber as relações não-imediatas é bem mais difícil. Este é um dos problemas da ecologia: há muitas pessoas que simplesmente se recusam a acreditar em seus resultados. “Que bobagem, dizer que usar este defensivo na minha plantação vai matar plantas na área de preservação. Ele justamente protege as plantas dos insetos!”

Vamos, agora, trazer isso para o campo dos Jogos. Jogos também podem ser abordados pela perspetiva dos sistemas: há os elementos (componentes do jogo e jogadores), há o limite (o tabuleiro, ou a área de jogo), e há as relações — especialmente as Regras do jogo. São as regras que dizem o que os jogadores podem fazer dentro do sistema, e também dizem quais são as consequências de suas ações,

Assim como acontece nos ecossistemas, há algumas relações que não são imediatamente percetíveis. Já ouvi dizer que os grandes mestres de Go conseguem ver o tabuleiro de uma partida, após algumas jogadas, e estimar com grande acerto qual dos dois jogadores vai vencer. Seja isso verdade ou não, o inverso é que, para a gigantesca maioria das pessoas, ver um tabuleiro de Go após algumas jogadas não oferece pistas para estimar o vencedor. As relações estão ali, mas não as vemos.

Uma consequência importante desta dificuldade em perceber relações e seus efeitos tem nome próprio. No estudo de sistemas, chamamos de Dinâmicas emergentes aos comportamentos que não podem ser facilmente identificados no sistema, apenas a partir do exame dos seus elementos, e do conhecimento do estado e das relações iniciais do sistema.

É importante notar que, ao tratar da Emergência, falamos de dinâmicas — de comportamentos ao longo do tempo. Assim como nos ecossistemas, parte da nossa dificuldade em identificar estes resultados decorre, justamente, da nossa dificuldade com a escala temporal, a que aludi acima.

Atualmente, o foco da minha pesquisa está nas Regras dos jogos. Como as relações entre os elementos de um jogo são definidas e mediadas por regras, esta pesquisa é, por natureza, um estudo das relações entre os elementos do sistema jogo. Pesquiso, então, a Ecologia dos jogos.

Transgressões e leniência

A Leniência acontece quando Transgressões de Regras formais não recebem Sanções formais, frequentemente por circunstâncias pessoais do transgressor. Exemplo típico: transgressores das “elites”. O ápice da Leniência acontece quando existe um consenso entre vários Stakeholders de que tal ou qual pessoa não pode sofrer sanções, ou mesmo ser investigada.

De forma geral, Transgressões de Regras informais não acarretam Sanções particularmente graves, mas sim Sanções sociais — como a repulsa (implícita ou explícita). Elas podem, talvez, agravar Sanções formais — penso em circunstâncias agravantes na lei penal.

O problema acontece quando as Transgressões de Regras informais são associadas à Leniência. Neste caso, há o risco de uma combinação catastrófica.

Donald Trump usou isso à exaustão durante seu mandato, e muitos defendem que a Leniência deve continuar mesmo depois dele. O próprio Trump jactou-se de poder assassinar alguém publicamente, se quisesse, e sair ileso.

Trump usou a cultura de Leniência associada aos muito ricos por toda a sua vida, e juntou a ela a Leniência quase institucional associada ao cargo de presidente da República. Para piorar, usou esta Leniência generalizada como uma arma para Transgressões sistemáticas das Regras informais associadas ao cargo — já que as Transgressões das Regras informais não podem sequer servir como agravantes de Sanções formais, se estas não são aplicadas.

O efeito mais ostensivo foi a sedição de 6 de janeiro, mas há efeitos perniciosos que estão se alastrando por toda a sociedade americana.

Minha pesquisa sugere que as Regras informais podem ser tão importantes quanto as Regras formais. Neste caso, um ataque sistemático às Regras informais pode ser tão pernicioso quanto um “golpe de Estado” nos moldes tradicionais.

E ainda piora. Um poeta inglês disse uma vez “a traição nunca tem sucesso — porque, quando tem sucesso, deixa de ser traição”.

Mas a traição contra as Regras informais não pode ser frontalmente enfrentada e derrotada, ao contrário da traição às Regras formais. Neste sentido, ela se aproxima dos métodos da guerrilha, sem nunca dar combate aberto.

Twitter

https://twitter.com/quartelmestre/status/1357612436107505670

  1. The legitimacy of all formal rules derives from a set of informal rules. Willful transgression of informal rules is a direct attack against the formal rules, whether in board games, in government, or in other normative systems.
  2. Perhaps the most important informal rule is “this is simply not done”, closely related to “we’ve always done it this way”. Transgression of informal rules is necessary in order to change the system.
  3. The key point: changing the rules often causes unpredictable effects to emerge. When designing a board game, it is easy to undo the changes and try again. We don’t have the luxury to do this in a society.
  4. We can, however, create games and simulations, in order to test-drive changes in them. This may help weed out some egregious mistakes, and it might even result in some good ideas. And it will certainly further our understanding of the challenge.

Jogo e fé

Para minha grande surpresa, me dou conta que o jogo depende da fé.

Não a fé em uma divindade, ou outro tipo de fenômeno extra-humano. É a fé no outro! É a fé de que cada um dos outros está jogando o mesmo jogo que eu, que eles vão realizar as regras, sem transgressões.

Mas o jogo é apenas o microcosmo. Quaisquer que sejam outras crenças individuais e coletivas — esta é a fé que anima a nossa vida em sociedade.

Sobre a fé como pressuposto necessário para um jogo. Depois de ler a Wikipedia sobre a veracidade das declarações de Donald Trump, ocorreu-me que esta fé leva a uma consequência curiosa: quem tem fé resiste a modificá-la.

A fé de que o outro joga pelas regras também é resistente a fatos e indícios.

Logo, a transgressão sistemática de normas sociais — especialmente normas sociais que dizem respeito à motivação de outro participante — pode ser usada como arma. Trump usa isso. Ele se vale da fé que as pessoas têm nos políticos, no sistema político, da resistência em acreditarem que os líderes sejam criminosos — e, especialmente, da resistência em acreditarem que alguém possa perverter as normas sociais, já que a principal norma social é “isso não se faz”.


Publicar na Medium, em inglês. From Game to Democracy.

Começar falando sobre o jogo como sistema normativo, passar ao fato de que, nestes sistemas, a implementação das regras sempre é realizada pelas pessoas; falar que todo jogo é cooperativo, porque depende da atitude lusória; que isso implica uma questão de fé.

A partir desta fundamentação, ampliar o escopo e repetir as questões até chegar ao Paradoxo da Tolerância, propondo minha solução para ele.


Em conversa com o Adriano:

Hoje eu prossegui esta reflexão. Penso que há uma característica da fé que é relevante para entendermos o que acontece, por exemplo, com eleitores de Bolsonaro e de Trump. A fé de que estão todos jogando o mesmo jogo, pelas mesmas regras, pode ser uma fé tão forte, e tão resistente a mudança, como qualquer outra. Os mesmos mecanismos de dissonância cognitiva agem para que essas pessoas, apesar de todas as evidências em contrário, mantenham sua fé laica — por exemplo, “ele é o presidente, o presidente não mente e não comete crimes”.

Adriano Aqui sim, há um forte elemento messiânico. Já identificava isto na figura do molusco, depois nos seus “ungidos”, como se fossem apóstolos, absolutamente incólumes e intocáveis, portanto, santificados. Certamente há uma fé arcaica, mágica, típica do discurso evangélico pentecostal

Concordo inteiramente, mas vejo esta fé mesmo em pessoas culturalmente afastadas deste “messianismo raiz” — tanto à direita quanto à esquerda, note-se. O caso é que eu percebo um componente de fé como base de sistemas normativos, de qualquer natureza.

Norbert Elias escreveu que o autocontrole é o pressuposto do processo civilizatório. Concordo, e noto que “eu não vou fazer” é exatamente uma norma (uma autonorma, por assim dizer). Mas uma condição subsequente, igualmente necessária, é acreditar que meu vizinho também terá autocontrole — é ter fé em sua disposição ao autocontrole. Somente a partir daí podem vir as normas.

Esta não é uma fé religiosa ou messiânica. Mas é um comportamento social que tem como base o mesmo mecanismo de fé.

Quem tem fé, afinal, acredita ainda que não haja evidências diretas — e, depois que a fé se instala, mesmo contra elas.

Adriano Sim, de fato, há certa “fé” ou crença compartilhada. O único problema de falarmos nesta direção é uma extensão demasiada da noção de Fé. Mas o princípio é o mesmo, seja na ciência, na política, na educação, na religião, etc.

Sim. E sim, concordo que isso extrapola o que geralmente se entende por fé. Mas isso é proposital. O modo tradicional envolve, ao mesmo tempo, um conjunto de mecanismos pessoais e a natureza do objeto no qual se tem fé. Eu quero me restringir apenas aos primeiros nesta reflexão. Se houver um termo mais adequado para isso, ficarei feliz em usá-lo.

Adriano Acabei de comprar mais dois livros do Gustave Le Bon que vão nesta mesma direção. “O problema da crença, por vezes confundida com o do conhecimento, é entretanto muito distinto. Saber e crer são coisas diferentes não tendo a mesma gênese. As opiniões e as crenças derivam, com a concepção da vida, na nossa conduta e, por consequência, a maior parte dos eventos da história” (Les Opinios et les Croyances, 1921).

Ótimo! Talvez “crença” seja melhor palavra, afinal…

Adriano Pois é, o problema é mesmo a linguagem, mas crença me soou bem, ainda mais vindo de Le Bon. Acabei de receber seu livro La Psychologie Politique, de 1912.

Adendo em 2021-02-23

Nescolarde-Selva, J., Usó-Doménech, J.L. & Gash, H. Belief, Knowledge and Faith: A Logical Modal Theory. Found Sci (2020). https://doi.org/10.1007/s10699-020-09677-x

Kenny, A. (2007). Knowledge, Belief, and Faith. Philosophy, 82 (321), 381-397. Retrieved February 23, 2021, from http://www.jstor.org/stable/4619737

https://plato.stanford.edu/entries/faith/

Fé e crença são um assunto complexo. Vou dar preferência a usar “crença”.

Leitura muito sugerida

Ontem, conversava sobre minha pesquisa com CL e JT, especialmente sobre a questão da necessidade de consentimento para a implementação de uma norma. JT sugeriu a leitura do Discours de la servitude volontaire, de Étienne de la Boétie. Eduardo já havia recomendado este livro, e talvez o Marcelo também.

Peguei minha cópia dele. Em inglês, com uma excelente introdução / sumário.

A inquietação principal do autor é na verdade com a tirania e com o modo de derrubá-la. Ele identifica, logo de saída, o consentimento dos dominados, como um pressuposto do exercício do poder. A partir disso, prossegue explorando e defendendo a desobediência civil / insubmissão como o meio mais racional de derrubar um tirano.

De la Boétie antecipa, em duzentos anos, algumas posições iluministas: ele acha que o homem é naturalmente racional, e que a razão leva necessariamente ao bem comum.

Exceto por reconhecer a necessidade do consentimento, seu livro não se reveste de maior interesse para minha pesquisa. Não compartilho de seu otimismo quanto à razão e seu exercício, e minha pesquisa não procura descrever, ou prescrever, como derrubar tiranos.


Também na conversa de ontem, JT recomendou a leitura de Savigny. Referiu-se especialmente a seu livro System des heutigen römischen Rechts.

Trecho da Wikipedia sobre Savigny:

Savigny argued in the Beruf unserer Zeit that law is part and parcel of national life. He opposed the idea, common to French 18th century jurists and Bentham, that law can be arbitrarily imposed on a country irrespective of its state of civilization and history.

Baixei o Sistema del derecho romano actual. Acho que não vai ser muito relevante para minha pesquisa; seu foco é o direito privado romano, como recepcionado e praticado na Alemanha do início da era moderna.

Mesmo ao discutir as fontes do direito, mesmo ao falar nas pessoas como a origem, Savigny se recusa a tratar de outro direito que não o documental. Isso é uma visão por demais restrita para os meus propósitos. Por outro lado, não vou querer me meter em polêmica e usá-lo para ilustrar este ponto de vista, porque não conheço bem sua obra, e posso quebrar a cara em um debate aprofundado que é completamente secundário para minha pesquisa.

Em todo caso, dois trechos do cap. 1 têm algum interesse. Ambos estão na p. 66 do arquivo PDF.

  1. Analogia com a língua

Consignaré además, la analogía que presentan muchos elementos caracteristicosde cada pueblo, los usos de la vida comun , y, sobre todo, la lengua, cuyo origen se oculta más allá de los tiempos históricos. No es la casualidad ni la voluntad de los individuos, sino el espíritu nacional el que crea las lenguas; pero su naturaleza sensible hace que este origen aparezca más evidente y comprensible que el del derecho. Las diversas manifestaciones del espíritu general de un pueblo, son otros tantos rasgos característicos de su individualidad, entre los cuales, la lengua, como el más notable, ocupa el primer lugar.

  1. O direito como sistema lógico

El derecho que vive en la conciencia del pueblo, nó es un compuesto de reglas abstractas; es percibido en la realidad de su conjunto, y la regla, bajo su forma lógica […]

Edward T. Hall

Estou bestificado. Li um artigo que trata de conceitos desenvolvidos por este autor — https://www.theguardian.com/society/2021/feb/16/how-to-have-better-arguments-social-media-politics-conflict. Os conceitos de high context communication e low context communication me pareceram extremamente úteis para estudar jogos de interação direta (“jogos de tabuleiro”) e jogos à distância — tipicamente os digitais, mas o Eduardo lembrou bem de jogos postais.

Fui atrás de dados do autor na Wikipedia. Que riqueza conceitual!

https://en.wikipedia.org/wiki/Edward_T._Hall

Deve haver uns dez campos possíveis aí, aplicáveis à ludologia.

Wargames e redes de pessoas

https://warontherocks.com/2021/02/is-it-a-wargame-it-doesnt-matter-rigorous-wargames-versus-effective-wargaming/

The success or failure of a wargame hinges on the quality of its ecosystem. Chris Dougherty provides some excellent clues about the ecosystem surrounding wargames within the Defense Department while advocating for the narrative element of wargames. He provides glimpses into the way sponsors and consumers interact with the lessons learned from wargames: “Insights [from wargames] don’t inform policy by simply existing — humans make the connection. Wargaming can create networks to promulgate and implement insights.” That network, both of the players in the game and those across the whole of the Defense Department, forms the ecosystem in which the impacts generated from a wargame — a strong measure of wargame quality — live or die.

Estudo

Estudo , não apenas ensino. Um jogo é uma maneira de estudar e aprofundar o estudo de um sistema complexo. Por sua natureza, um sistema complexo é emergente — definição circular, quase; se não há emergência, não vemos complexidade…

Regras rígidas

Em um sistema dinâmico, mesmo as regras são mutáveis.

Regras entendidas como as relações entre partes do sistema

O que é permitido, o que é proibido, o que é encorajado, o que é desincentivado (hardball)

Entender o jogo como sistema entende que a regra não muda

Neste sentido, jogos digitais são mais rígidos — mas as Regras informais|regras sociais continuam tendo relevância

Jogos de tabuleiro mais flexíveis, RPGs mais ainda, brincadeiras… e estas são um caso especial dos sistemas sociais (na verdade, todos os jogos o são, especialmente considerando o designer como participante)

Não existem sistemas sociais que não sejam baseados em regras. Procurar para ver se isso já foi afirmado.

Tema

The theme of a game is a representation of something.

Cheating

https://apublica.org/2020/03/marcos-nobre-se-nao-houver-acordo-entre-as-forcas-do-campo-democratico-bolsonaro-esta-reeleito/

A conexão entre os trapaceiros que negam o jogo (Huizinga) e as regras do jogo democrático. Se a pessoa encarregada de aplicar as regras — como jogador ou como enforcer das regras — é um trapaceiro, o jogo se destrói.

Cheating and Cheaters in Pfaffe Amis and Reinhart Fuchs

An Alsatian poet named Heinrich, writing around 1180, composed a beast epic, based on French sources, about a trickster fox named Reinhart. Some sixty years later, a poet known to us only as Der Stricker composed a work of similar length and structure, about a trickster priest named Amis, and his diligent efforts to cheat various anonymous individuals out of their money. Other works by this poet bear out the Stricker’s consistent emphasis on strategy over brute force, prudence and intelligence over unconsidered actions. These stories both illustrate that power, when not directed by intelligence, is useless or dangerous, even to the one who wields it.

Tricksters and cheating also appear in a surprising range of works contemporary to the Stricker’s Pfaffe Amis and Heinrich’s Reinhart Fuchs. Romances have their own trickster characters, conducting their cheats using methods and structures that recall those of these two Schwank-type epics. Cheaters like Amis, and Tristan’s Isolde generate twin situations. One of them is true/hidden, and can influence the characters, and one is false/apparent, to which the victim characters are forced to respond. This artificial, apparent reality persists even after the cheater has left the scene, occasionally taking on a truth of its own. Both Reinhart and Amis, whatever their motivations, work evil everywhere they go; and yet the audience is expected to treat them as sympathetic characters.

Because the trickster universe functions to turn systems upside-down, it also rejects the concepts of good and evil, forming a universe in which all that matters is who wins and who loses. The place of the villain belongs now to the fool; any character who becomes deceived deserves to be, and is treated with indignation by the narrator, just as the traditional villain might be.

Livro Cheating and Cheaters in German Romance and Epic, 1180-1225.

Parte crucial: o trapaceiro não-negacionista quer vencer. Ele não nega as regras sobre a vitória; ele nega regras sobre a condução do jogo, geralmente exigindo que os demais as cumpram.

About cheaters. Look for Latin words for the three kinds of players: those who play by the rules, those who cheat in order to win, and those who destroy the game.

As always, there is a whole spectrum of possibilities here. But it is a three-way spectrum. Even a second-type cheater may cheat just for the fun of it, and he may not be trying actively to win. On the other hand, the player who turns the tables when he’s losing is betraying the game, even if he did not cheat before.

A gossip can be tolerated as a friend. But one who intrigues — such as Iago — is betraying the game of friendship. Actually, Iago is using the game of friendship in order to play another game.

Digitais

https://www.vice.com/en_us/article/bv857z/gamerdoc-catching-banning-cheaters-hackers-overwatch-valorant

Trapaça no Xadrez

https://www.theguardian.com/sport/2020/oct/16/chesss-cheating-crisis-paranoia-has-become-the-culture

Adriano

Regras nos jogos: a questão dos trapaceiros, a relação das pessoas com as regras. Algum filósofo já se debruçou sobre a questão “regras”? Parece que poucos se ocuparam disso, exceto talvez Wittgenstein.

Huizinga fala da questão das regras do jogo, e menciona dois tipos de trapaceiro. Um deles viola as regras para ganhar o jogo. O outro nega o próprio jogo.

Lembro da aula que eu dei para o Adriano em 2016.

Pensando em uma hierarquia das regras: as regras que definem o jogo estão sobre as regras que dizem como o jogo é jogado. Violar este nível de regras não invalida o jogo, violar o primeiro nível sim.

Minha associação com a colocação de Popper: o paradoxo da intolerância. O intolerante quer usar a norma — que ele próprio nega a outros — para proteger a si. Cria-se uma assimetria.

O jogador de futebol que comete falta e nega este direito ao adversário.

QUAIS SÃO AS CARACTERÍSTICAS DAS NORMAS QUE PERMITEM ESTA ASSIMETRIA?

Existem normas que são meramente formais. Fórmulas de casamento, por exemplo. Fundo partidário: pode ou não haver uma norma assim, e o valor do fundo não é relevante.

Normas sobre o exercício do poder: crimes e penas. Isso vem desde Hamurabi.

Mas surgiram os direitos naturais. Direito à vida, direito à liberdade de expressão. Estes direitos não dependem do poder.

Usar o jogo como microcosmo para estudar algo maior. Estudar regras de jogos pode ajudar a entender as Regras informais|regras sociais.

A regra do jogo como reprodução da Regras informais|regra social.

Piaget e Huizinga falavam nisso.

O livro do Harari menciona que estamos em um processo evolutivo de qualificação dessas nossas relações sociais

Piaget começa falando no jogo de bola de gude, o que a criança aprende com seus pais no que toca às regras.

O autocontrole como elemento essencial do processo civilizador de Elias.

Referência aos temas discutidos no artigo sobre Ética e Jogos (FAEL, Crossroads).

Foge-se do autocontrole. O controle é terceirizado.

Nos jogos digitais, você fica “alienado” da realidade, e constrói uma nova realidade. Adriano entende as políticas afirmativas como um dos casos do paradoxo de Popper. Não concordo.

“Eu quero destruir a liberdade de expressão de outros, e exijo para isso a proteção da liberdade de expressão.”

Isso nega a legitimidade do escolhido como “outro”. Eu tenho direitos, e os meus pares também têm. O “outro” não tem.

Comparação com a situação dos índios e dos escravos.

Marcelo

O paradoxo de Popper: O Paradoxo da Intolerância.

A pessoa uso um direito para combater o mesmo direito, quando exercido por outra pessoa.

Quais normas são suscetíveis a este paradoxo?

Isto está dentro da ideia do abuso de direito. O direito está condicionado por outros, ainda que não explicitamente.

Me parece que os direitos sujeitos a abuso são direitos não obrigacionais. Eles não se dirigem a uma pessoa determinada. Direito da propriedade: você pode agir, e todos os outros — erga omnes — têm que suportar a sua atividade.

Parece que ninguém pesquisou normas.

Será que em Ética isso não foi discutido?

Parece que a natureza das normas, as “metanormas”, ainda não foram estudadas.

Há muitos livros de Direito que estudam as normas, pelo ponto de vista jurídico.

As normas que permitem o paradoxo parecem ser oponível e recíproco.

Pelo novo direito, todas as normas têm que ser harmonizadas com a CF, e todas as normas constitucionais têm eficácia, mesmo as chamadas normas “principiológicas”.

Normas-regras são absolutas, ou é ou não é. Normas-principio são orientações para um objetivo, na medida do possível.

A norma-regra é muitas vezes uma escolha legislativa entre as normas-princípio em conflito. Por exemplo, uma norma que defina níveis máximos de poluição procura conciliar o princípio da livre iniciativa com o princípio de proteção ao meio ambiente.

Toda regra é um construto social. Toda regra precisa ser implementada por pessoas.

Há muita discussão sobre isso no Direito. Kelsen pretendeu que o sistema jurídico fosse inteiramente autônomo, baseado em uma norma fundamental (Teoria Pura do Direito). Mais tarde, ele começa a se preocupar com a efetividade: quem implementa a regra? Quem realiza o enforcement?

Os pressupostos de Kelsen são extrajurídicos, eles provêm do plano social e de lá originam a (legitimidade?) da norma.

Procurar em Teoria do Direito. Kant deve ter discussões sobre o tema.

Crítica da Razão Prática? trata do Direito. Teoria da Norma Jurídica do Bobbio.

O abuso de direito clássico: o proprietário abusa de seu direito e perturba os vizinhos. Não é possível criar uma norma que “proíba perturbação”. Classicamente, os excessos são o problema.

Caso clássico: turbar águas.

As regras de um jogo são normas.

Mas há uma diferença: somente o que é permitido pode ser realizado.

Isso equivale ao Direito Administrativo. Interessante isso: o jogador é todo-poderoso, e a Administração também.

Existem princípios (normas-princípio) que decorrem do sistema normativo daquele jogo. Estas normas definem quais são as condutas corretas, ou incorretas, independentemente de estarem definidas como normas-regra no jogo.

Caso do 1914. Fulano age dentro das regras, mas entrega o jogo porque ficou puto. Isso viola o princípio de “cuidar da nação” e destrói o jogo.

Marcelo está falando das Regras informais|regras sociais, e eu as contraponho às regras mecânicas criadas pelo designer.

Elas decorrem do próprio jogo. O jogo não foi criado para que uma pessoa avacalhe o jogo de outro em favor de um terceiro.

Eduardo agia exatamente assim. Se sete jogadores ao estilo do Eduardo estivessem jogando, nenhum deles estranharia.

É… mas eles não estariam jogando 1914, estariam jogando outra coisa. No meu modo de ver, o 1914 tem uma ideia subjacente, que é cada jogador jogar como seria melhor para aquele país.

Eu concordo, mas o ponto chave é este: no meu modo de ver.

Mas não existe polícia de regras. Buraco: a regra do Buraco permite comprar cartas do descarte. Quase todo grupo vê com maus olhos o “lixeiro” que só compra do descarte.

Esta é de fato uma Regras informais|regra social, porque não decorre das regras mecânicas. No caso do 1914, decorre da própria ideia.

Interessante. A origem da Regras informais|regra social do Buraco parece ser mecânica — faz circular o baralho. A origem da Regras informais|regra social do 1914 é temática — não se origina na mecânica, mas na ideia representada pelo jogo.

O tema de um jogo permite a extração de princípios normativos.

Ainda no 1914: os pactos inabaláveis. Eles não violam o tema.

Talvez tenha havido excesso da nossa parte.

Mas nós recorríamos aos princípios do jogo. Neste caso, a fundamentação é mecânica.

Acho que se pode extrair algo além do que está posto.

Pensando no direito positivo, você está procurando a mens legis.

O STL decorreu de percebermos que as regras são um sistema, e que dependem de interpretação. Determinados princípios estão contidos em uma regra, outros não.

A Confraria: JT não pode escolher as peças porque escreveu números nelas.


Até o advento dos jogos digitais, os estudiosos de jogos os tratavam como atividades. Com os jogos digitais, os jogos passaram a ser chamados sistemas.

PROCURAR FONTE DESTA IDEIA: acho que a cito no trabalho apresentado em Lisboa.

O jogo como SAC vem principalmente da inclusão de humanos no sistema jogo.

Eu já mencionava isso no mestrado, mas faltava-me a estrutura teórica.

Meu foco na pesquisa será a das regras.

Quais são as restrições atinentes ao objeto sendo projetado?

Para um jogo, as restrições físicas são conhecidas. Eu pretendo determinar as restrições decorrentes do fator humano e que têm impacto sobre o design de regras.

Os jogos não são seu objeto! São apenas o meio para chegar ao objeto, as regras.

Mas as próprias regras são restrições: o que pode e o que não pode ser feito.

As regras como objeto, o objetivo é verificar como nós humanos usamos regras.

Pode ser um trabalho muito interessante. Pode ser o caso de considerar os jogadores como inseridos em um contexto além do jogo.

Claro! Os jogadores são o elemento de ligação entre o sistema-jogo e o sistema extrajogo. Eles não são isolados. Estão inseridos em vários sistemas maiores: família, sociedade, etc.

É uma tese multidisciplinar…

Sim. Eu tenho que manter o foco definido, pois é uma tese. Mas, encerrado o doutorado, isso abre caminho para discutir muita coisa.

Dolores fez uma matéria sobre o sistema internacional, que é complexo. Há dinâmicas emergentes. O sistema é resiliente.

Dolores faz parte de um grupo de jogo carteado, criado pela Ana Flávia. Regras informais|regra social deste grupo: não se discute o mundo real.

Funciona como um círculo mágico mais amplo que o círculo mágico do jogo em si.

Sim, é como ela mantém o grupo.

Perspectives

The fable of the elephant and the three blind wise men.

A perspective of Rubik’s cube. If I see more faces, I can see more colours, but the shapes are distorted.

Racionalidade

Pesquisar este assunto.

https://plato.stanford.edu/entries/epistemic-game/

Aparentemente, as crenças dos jogadores têm um impacto para além do racional — tanto as suas crenças sobre o jogo, quanto as suas crenças sobre o ambiente e sobre os outros jogadores — e sobre as crenças deles… de forma recíproca.

Lembro a cena do veneno em The Princess Bride.

Ou seja, a teoria dos jogos está indo além do jogo para incluir o jogador. Ainda se busca a resposta “racional”, mas pode haver aí uma incongruência: afinal, a racionalidade é apenas uma das respostas humanas aos desafios do seu ambiente.

Ethics

Acompanho Flanagan e Nissenbaum (2014): “As a medium for learning, entertainment, and communication, games are an increasingly prominent part of the current cultural landscape. […] We’re interested in the role that values play in animating personal, political, and artistic expression through any medium. We aim to provide resources for designers and design students who are interested in exploring the creative potential of what we call values-conscious design and who wish to consider, in a systematic way, the moral, social, and political resonances of digital games.”

“The project has three core premises—that societies have common (not necessarily universal) values; that technologies, including digital games, embody ethical and political values; and that those who design digital games have the power to shape players’ engagement with these values. We have coined the term conscientious designer to describe those who accept these premises and commit to considering values when they design and build systems. When our book speaks to the design community, it is less to persuade skeptics to accept these three premises than to invite those who take values seriously—the conscientious designer—to try out Values at Play.”

Toxic players

Lendo uma matéria sobre a cultura dos jogos digitais e a violência étnica. A associação de jogos digitais à violência real não é novidade, mas a matéria chama a atenção para as novas formas de associação ou correlação.

https://harvardpolitics.com/culture/alt-right-counterculture/

Eu tenho refletido bastante sobre as regras em jogos e sobre as regras no convívio social. Em um jogo de tabuleiro, nenhuma regra se impõe por si: todas as regras têm que ser implementadas pelos jogadores.

O mesmo acontece com as normas sociais.

Isso também acontece nos jogos digitais, mas com uma diferença fundamental. Neste jogos, as regras são criadas pelos designers e programadores, estão escondidas dos jogadores, e são-lhes reveladas na prática, de forma impositiva e absoluta pelo computador que controla o jogo. Não há qualquer possibilidade de escapar a estas regras, porque elas definem o próprio mundo interno àquele jogo.

Só que isso tira do jogador a responsabilidade de implementar as regras do jogo. Isso cria nele duas falsas sensações: a de que ele não precisa implementar qualquer regra, e a de que qualquer coisa que ele consiga fazer é ipso facto autorizada pela realidade.

Nos dois casos, temos o fomento de percepções que são antitéticas à vida em sociedade.

Adriano:

Volto ao início: a Geografia Humanista flerta com a Fenomenologia, com a qual trabalho, e cujo grande legado (mesmo que não único) é o reconhecimento da interrelação entre sujeito e mundo. Então, comentei com os presentes, que certamente e igualmente não conheciam muito de Fenomenologia, o quão importante seria reconhecer este legado; pois certamente mudaria (e muito) a forma de se pensar, por exemplo, “meio ambiente”. Para além da normativa cartesiana clássica, que posta o sujeito como “senhor e possuidor da natureza”; e para além das métricas místicas de movimentos “green”, nos levaria (e ainda mais a nossos descendentes, pois serão eles que porventura mudariam isto, no caso, nossos filhos) a rever nossa forma de pensar a natureza, com comportamentos simples, como não jogar lixo na rua, diminuir o uso de plástico, ou simplesmente cuidar do verde. Finalmente junto os dois assuntos: desmatamento na Amazônia e papel da intelectualidade. Falhamos todos, enquanto professores (quantos de nós se recorda das aulas de Geografia no ensino primário ou médio? Quantos de nós saberia a diferença entre uma enseada e uma baía?…), enquanto promotores de ações na sociedade. Falhamos ao nos colocarmos “fora” do circuito do pensamento, reificando as antigas e infindas hierarquias, que nos colocam no pedestal dos “intelectuais” que vomitam um “saber”, sem se reconhecer copartícipes na construção de um saber naturalizado, que insiste em encher as cidades de prédios, de cinza, de carros, de fumaça, e perde a chance de brincar nos parques e se emocionar com a plenitude do verde da mata…

Tangenciando o assunto. Eu ando refletindo e pesquisando sobre aquela relação entre jogos e regras, que mencionei aqui há alguns dias. Hoje eu estava conversando com a Adelaide e ela mencionou o trabalho de um conhecido nosso, na área de percepção de linguagens.

O trabalho dele lida diretamente com o conceito de affordances. Você conhece, ou usa, este conceito?

Ok. Este conceito é muito usado em design de jogos: os affordances de um jogo são as coisas que o jogo permite que o jogador faça dentro do seu ambiente.

Ocorre que o jogador está inserido no ambiente do jogo, mas não deixa de estar inserido no ambiente “real”, que tem seu próprio conjunto de affordances. E ninguém separa estes dois ambientes de forma estanque, já que o próprio jogador é o elemento de ligação entre eles.

Huizinga avisa que os grupos de jogadores tendem a ser permanentes. Para o bem e para o mal.

https://www.theverge.com/2019/8/21/20812153/youtube-gamergate-education-classroom-teachers-misinformation-reddit-twitter-online-harassment

https://www.polygon.com/2019/12/23/20976891/anita-sarkeesian-gamergate-review-feminist-frequency-game-industry

“We have to remember that games don’t exist in some kind of vacuum”

Roma

Lendo sobre o declínio do poderio dos EUA. Nosso modelo por excelência continua sendo Roma: Carlos Magno e os imperadores buscaram legitimidade ao reimaginar o Império, a Renascença buscou inspiração política e artística em Roma, os iluministas resgataram ideias sobre a res publica, Napoleão e os founding fathers procuraram modelos políticos em Roma.

É falacioso comparar as modernas estruturas políticas, nacionais e internacionais, à situação do Império Romano. Ambientes completamente diferentes. MAS…

Os jogadores são os mesmos. Ainda somos humanos, com o mesmo cabedal de respostas aos desafios do nosso ambiente. Há novas ferramentas no estojo da ciência, há novas ferramentas no estojo da política, etc. Mas ainda damos respostas semelhantes aos desafios.

Um Gedankenexperiment. Se nós pudéssemos ensinar um jogo de tabuleiro como o Diplomacy a um romano do tempo de M. Tullius Cicero, ele provavelmente jogaria tão bem quanto um jogador contemporâneo.

Sob este ponto de vista, as comparações com o declínio do Império Romano fazem sentido. Porque são também humanos reagindo a desafios do seu ambiente, e os humanos pouco mudaram em apenas dois mil anos.

Cf. Epistemic Game Theory

Jogadores

A pessoa tem que querer seguir as regras. Se jogar com o sistema e não com as regras for mais vantajoso, a pessoa vai violar os pressupostos da gamification.

https://www.vox.com/policy-and-politics/2019/9/25/20882621/trump-ukraine-impeachment-mcconnell

The Founders designed our form of government with demagogues in mind. That’s why the president is checked by Congress, up to and including the threat of removal. But they believed that Congress would consider itself in competition with the president, that ambition would check ambition. They did not foresee the rise of political parties and the way that would bring parts of Congress into cooperation with the president, that ambition would protect ambition.

Dune e Diplomacy quando os jogadores se combinam e não quando competem. O jogo degenera.

Os incentivos criados pelas regras são internos. Mas o incentivo para seguir as regras — o incentivo para jogar o jogo — tem que ser externo. Problema da democracia.

A MECÂNICA NÃO PROTEGE O JOGO DOS TRAPACEIROS!!

Risco-recompensa: Le Chiffre no filme Casino Royale.

Regras informais|regras sociais. Fábio e o 18xx. Uma expectativa social sobre como se comportar no jogo. Comparar Paulo noDiplomacy e o “lixeiro” no Buraco.

O blefe não é uma jogada do nível mecânico, mas do nível dinâmico e é dirigido a outros jogadores. Cf. a definição de Falkenberg para a surpresa: o blefe é algo que acontece na mente do adversário.

https://www.youtube.com/watch?v=ZRs0U0uv3-g

Tipos de jogadores. Importante aqui: como lidar com jogadores que apresentam traços sociais indesejáveis: socialmente.

Atenção meramente formal a uma regra: O uso de máscaras durante a pandemia. Usa-se a máscara, que é o símbolo visível de atenção à formalidade da regra, mas todas as demais normas são conscientemente desrespeitadas.

“As formas devem ser respeitadas”. Trump e Bolsonaro nem mesmo respeitam as formas. “Autenticidade”. (procurar outros exemplos históricos?)

O CÍRCULO MÁGICO NÃO É ESTANQUE!

O jogador tem que pagar seu aluguel amanhã. Se ele vencer, sua namorada vai lhe negar sexo.

TODO JOGO É COOPERATIVO!

Popper

O batoteiro que exige que os outros respeitem as regras de seu interesse é um caso especial do problema mais amplo identificado por Popper.

Qual é a natureza das normas que permitem este abuso? Isto pode ser muito relevante. Como elas se distinguem de outras?

Hm. Normas primordiais são a codificação da lei do mais forte. Quem pode impor a sua vontade, impõe.

Normas mais recentes (“evoluídas”), acho que desde o Iluminismo (investigar antecedentes — Magna Carta?), estabelecem direitos oponíveis independentemente de força. Na verdade, são direitos “naturais”, “universais”, e justamente dirigem-se contra quem detém a força — legalmente ou não.


O comportamento do CL é extralinguistico?

O que muda é a relação entre os individuos e não a lingua que eles falam

Adelaide acha que o comportamento não depende da norma subjacente

Se é um SAC, este comportamento tira o sistema do equilíbrio

Se fosse apenas formal, ele seria generalizado

Suspeito que é uma combinação entre a pessoa e algumas normas.

Mas é importante notar que ele parte de uma predisposição para perverter as regras

Ainda assim, quero circunscrever o problema e avaliar quais são as normas que podem ser usadas de forma a criar este paradoxo


O paradoxo resulta de uma perversão do espírito da norma. O paradoxo surge quando a norma é usada para negar a própria norma sendo usada. Então, a norma precisa conceder um poder/direito ao seu usuário, oponível e recíproco com o poder/direito de outros.

A raiz do paradoxo: a negação é unilateral. O agente nega o poder/direito de outros ao mesmo tempo que afirma o seu. Não é a norma que é contestada, mas sim quem pode usá-la. Neste sentido, sim, como a Adelaide disse, a origem é um comportamento perverso.

A norma precisa ser recíproca para poder ser atingida por este comportamento. Ela é apenas o objeto ocasional. Se o direito fosse de outra natureza, seria igualmente negado, mas isso não criaria um paradoxo. A crux é a negação, e ela é aplicável a qualquer norma.

Neste sentido, temos — mais uma vez! — um espectro de possibilidades. Um dos casos mais extremos é o apontado por Popper. Casos como o do CL são mais leves.

Cotas

Cotas raciais. Ouvindo o podcast Café da Manhã de hoje, 2020-07-15.

Discutiram as cotas raciais, a autoafirmação e a heteroafirmação. Os problemas que isso traz para a implementação desta política.

Muitas contradições da professora chamada a falar sobre as cotas.

Para fins da minha pesquisa, há uma particularmente relevante.

O racismo é um processo complexo, que tem muitos stakeholders, atuando em níveis distintos. Falo um pouco sobre estes níveis, e volto ao argumento principal.

Diretamente envolvidos, há a vítima e racistas diretos, que podem ou não fazer parte da experiência pessoal da vítima. Este é o eixo de racismo. Há, por outro lado, o eixo de resistência ao racismo, ao qual a vítima pode recorrer para apoio. Neste nível de interação direta, são familiares e amigos.

Ampliando o círculo, no eixo do racismo, temos o racismo difuso da sociedade, muitas vezes chamado de racismo estrutural. Não vou entrar no debate sobre este conceito. Vou tomar como pressuposto que há este círculo pró-racismo mais amplo.

Ainda neste mesmo nível, mas no eixo de resistência, há estruturas de apoio indireto, já com algum grau de institucionalização. Associações e grupos contra o racismo, por exemplo.

(Parêntese necessário. Existem grupos ostensivamente racistas. Mas a interação deles com as vítimas não pode ser indireta, pela simples razão que esses grupos não podem ter estrutura legal e legítima no Brasil. Assim, eu os integro no primeiro nível, de interação direta com a vítima.)

Amplio mais uma vez o nível, e chegamos a estruturas políticas, tanto pró-racismo quanto contra o racismo. Este nível pode incluir agentes políticos, empresas, meios de comunicação, etc. Neste nível, o racismo está inteiramente afastado da experiência pessoal; aqui, o racismo e a resistência a ele passam a ser fatos sociais — a serem considerados, avaliados, incentivados, combatidos, discutidos, estudados, usados, vendidos.


Muito bem. Dentro deste cenário extremamente complexo, não se pode pretender que a manifestação de apenas um dos envolvidos seja decisiva. A autoafirmação claramente é relevante; para além de qualquer outra consideração, o racismo é um fato com impacto pernicioso direto sobre suas vítimas. Mas ela não é suficiente. Ainda que o dolo e a fraude sejam colocados de lado, o fato é que muitas pessoas “não se enxergam”, não sabem se autoavaliar muito bem. Isso fica ainda mais difícil em um quadro complexo como o do racismo.

Por outro lado, a heteroafirmação cria toda uma série de problemas. Em sua essência, pede-se que um grupo de pessoas avalie se outra pessoa, da qual muito pouco sabem, é vítima de racismo. Dentro do esquema de níveis que propus acima, estas pessoas estão no nível mais afastado do pessoal, mas tomando decisões que tem efeito pessoal direto.

É tautológico que um problema complexo não pode ter soluções simples — e tudo indica que o racismo seja não apenas complexo, mas mesmo um wicked problem.

Mas a busca por soluções tem uma dimensão que tem a ver com aspectos normativos — e sobre estes podemos agir com um pouco mais de propriedade.

Normas não são autoimplementáveis. De uma regra de jogo à Constituição, criar uma norma não modifica a realidade. Somente a ação humana pode dar força a uma norma.

Isso não quer dizer que normas não são úteis. Como qualquer ferramenta, uma norma pode ajudar a resolver um problema, ou a realizar uma tarefa. Como qualquer ferramenta, precisamos conhecer o seu alcance e os seus limites.

Promulgar uma norma dizendo que o racismo é proibido é inócuo. Não é a regra que vai fazer alguém deixar de ser racista. Uma norma penal pode até levar alguém a deixar de adotar alguns comportamentos racistas — mas este é o limite de sua ação, e mesmo esta norma depende de haver pessoas dispostas a fazê-la ser cumprida: vítima, testemunhas, policiais, promotores, juízes…

Da mesma forma, uma norma que afirma que a autodeclaração é suficiente para identificar vítimas de racismo sempre será insuficiente. Assim como uma norma que crie comissões de heteroafirmação. Ou qualquer outra — porque, pela sua natureza, normas são insuficientes para resolver um problema social complexo.

Este é o limite da ferramenta. Assim, não adianta aguçar o seu corte, ou aumentar a sua precisão. Precisamos de outras ferramentas, de outras abordagens — precisamos de corações e mentes.


Sobre a questão da participação coletiva e individual em wicked problems, este artigo traz boas considerações.

https://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/2020/07/13/pandemia-expos-liberalismo-da-morte-de-bolsonaro-diz-historiador/

Expressive powers

Texto publicado por Thomas Conti no Facebook em 6/7/2020 https://www.facebook.com/conti.thomas/posts/3455025004510472

Critiquei pesado os vetos do Bolsonaro à lei sobre máscaras. Recebi crítica que vetos não importam porque municípios podem fazer leis diferentes e temos que usar máscara independente disso. Sim, mas essa é uma visão bastante limitada do impacto de uma mudança jurídica. Explico.

O senso comum do impacto de leis enfatiza as restrições e a previsão de sanções caso elas não sejam cumpridas. Porém a lei não afeta o comportamento apenas dessa forma. No excelente livro “The Expressive Powers of Law” (2015), Richard McAdams explora outros mecanismos.

Um desses mecanismos é o do Ponto Focal. Muitos problemas sociais dependem da coordenação de esforços - com o covid não é diferente. Quando a coordenação é importante, direcionar os agentes para um comportamento comum é tão ou mais decisivo do que impor sanções.

Um exemplo que McAdams usa é o de áreas de fumantes. Quase nunca alguém é multado, então para que serve? Serve como ponto focal. Discussões entre partes sobre se pode ou não fumar ali passam a ter um foco claro: a lei diz que não. Mesmo sem multa, as partes focam nesse elemento.

Esse direcionamento das partes produz o efeito de diminuir conflitos e coordenar os agentes, que na ausência dele poderiam ficar argumentando ou até brigarem para tentar decidir quem tem razão.

Nesse aspecto, os vetos do Bolsonaro na lei sobre máscara já prejudicaram os esforços para que as pessoas usem. Quando o município dizer que é obrigatório usar, mesmo a lei formal o apoiando, uma parte (mal-informada) pode dizer que o presidente disse que não precisa. Conflito.

Ambos estão à sua visão “seguindo o que diz a lei”. No sentido formal, o município está correto. Mas para a população na prática existe mais de um ponto focal dizendo para eles o que esperar do comportamento do outro. E isso vira matéria de conflito e falhas de coordenação.

O outro mecanismo de ação da lei para além da sanção é o que McAdams chama de “Legislação como Informação”. O nexo causal desse mecanismos é:

Legislação Informação Crença Comportamento

A ideia é simples. Assim como uma campanha publicitária pode informar a população, uma nova lei também informa a população. Independentemente de sanções, as pessoas ficam sabendo de algo esperado, ou desejável, ou correto, recorrendo ao que a lei diz.

Nesse sentido, a aprovação ou o veto a uma lei já são, em si mesmos, uma campanha publicitária. Uma lei que obriga a usar máscara em lugares abertos ao público não cria só sanções, mas informa as pessoas que usar máscara nesses lugares é muito importante. A lei revela atitudes.

Por sua vez, o veto a uma lei dessas também já é, em si mesmo, uma campanha publicitária dizendo que usar máscara em lugares abertos ao público não é importante.

Em escala nacional, é razoável esperar que esses efeitos de ponto focal e de informação são bem maiores.

Em conclusão, mesmo com municípios e governos estaduais ainda podendo ter leis que obrigam uso de máscaras, os vetos na escala nacional ainda produzem efeitos. Aumentam o potencial de conflito e desinformam a população.

Munchkin

Mais um tipo! Sugestão do Pedro.

O munchkin quer subverter o sistema, mas não as regras. Quer aproveitar as brechas das regras, quer forçar as regras até vergarem o sistema.

Regras

Jogos são ferramentas úteis para examinar sistemas baseados em regras, como sistemas legislativos. Nenhuma regra funciona por si, mas apenas quando aplicada por jogadores. Nomic faz isso, para estudar o microcosmo dos sistemas legislativos que se modificam.

Mas isso traz à baila, mais uma vez, o descompasso entre jogos digitais e os jogadores. Eles são afastados das regras, o jogo digital cria uma camada de isolamento.

Jogos são um subconjunto do conjunto de sistemas baseados em regras. Huizinga intuiu isso, ao tratar estes sistemas como jogos. Onde está a fronteira não faz diferença para o meu estudo: eu analiso as regras e a sua implementação.


Chamada de artigos para o Ludic Violence e Playful Control

Crítica: O problema com tecnologias de controle é que, mais uma vez, estão colocando o Big Brother para controlar e reprimir. Para ser eficaz, todo controle tem que ser um autocontrole. Verificar Piaget.

Gil Hova (@gilhova) tweeted at 0:21 PM on Wed, Sep 25, 2019:

Once I release a game, in a creative sense, I’m releasing control of it. I can’t directly control how people react to it, and if they want to house rule something, I can’t (and don’t really want to) stop them.

https://twitter.com/gilhova/status/1176879331282497537


A propósito de jogos digitais e terceirização das regras: Tabletop Simulator é um jogo digital sem regras


Várias explicações para os comportamentos observados:

As pessoas não gostam de ler regras porque querem mesmo que outros lhes digam o que fazer. Neste sentido, o computador recompensa esta tendência.

Mais uma, certamente importante: existe uma função social neste caso, as pessoas estão conversando ao redor de uma mesa afinal.

A proximidade entre jogos e linguística. Ler regras de jogo e ler regras de gramática, cheias de exceções, é desagradável.

Outra hipótese: aprender regras, de forma geral, é chato.

Aprendendo regras: logo após a explicação, estamos trabalhando com memória de trabalho, memória de curto prazo. As relações entre os componentes do jogo ainda não foram estabelecidas.


Brenda Brathwaite (agora Brenda Romero):

I think games are a good medium for approaching any subject, particularly difficult ones, because by their very nature, they are abstract, invite interaction and allow us to confront and question things… particularly rules that we may blindly follow.

Fonte: Brophy-Warren 2009, também citado em Toys and Communication


Da mesma maneira que acontece com motivações de jogadores, motivações de juízes e da sociedade variam sobre como vão cumprir regras


IMPORTANTE

http://healthy.uwaterloo.ca/museum/Archives/Caillois/index.html

Unity of Play, de Roger Caillois

For a long time the study of games was hardly more than a history of toys. Particular attention was paid to the tools or accessories of games rather than to the nature of the games themselves - their characteristics, their laws, the instincts they presuppose, the kind of satisfaction they procure. Generally speaking, they were considered simple and insignificant childish diversions. Therefore no cultural value whatsoever was attributed to them. Research into the origin of games or toys has only confirmed the initial impression that toys are tools, and games behavior, amusing and of no importance, relegated to children when adults have found better things to do. Thus, weapons that have fallen into disuse become toys: the bow, the shield, the peashooter, the slingshot. The cup and ball and the spinning top at first represented magical skills. Similarly, [Page 94] many games are based upon discarded beliefs, or they vacuously imitate rites denuded of significance. Roundelays or camptines seem to be ancient incantations no longer in use.

“Everything degenerates into play,” the reader of Hirm, Groos, Lady Gomme, Carrington Bolton, and many others is led to conclude. However, in 1938, Huizinga, in his major work, Homo ludens, maintains a theory that is the exact opposite of this: culture emanates from play. Play is simultaneously freedom and invention, fantasy and discipline. All the important manifestations of culture are derived from it. They are indebted to the spirit of research, to the respect for rules, to the detachment that it creates and maintains. In certain respects the rules of the law, of prosody, counterpoint, and perspective, the rules for stage settings and liturgies, for military tactics and philosophical controversy, are so many rules for games. They constitute conventions that must be respected in a determined domain where they establish nothing less than civilization itself “Has everything sprung from games?” the reader wonders in closing Homo ludens.

The two theses are in almost complete contradiction. I do not believe that they have ever been compared with the purpose of arbitrating or of distinguishing between them.

O que liga estes dois campos das atividades humanas são as regras. Culturalmente, os jogos não são relevantes apenas no que toca aos seus temas ou atividades imediatas, mas também são relevantes no que toca a formular, aprender e seguir regras.

Neste sentido, a violação das regras também adquire um sentido cultural relevante. Aprender a lidar com trapaceiros prepara para lidar com regras em contextos frouxos — como a guerra!


Regras e debates. Pesquisar a disputation (O Nome da Rosa). Busca do consenso. Contrastar as Regras informais|regras sociais da disputatio com as Regras informais|regras sociais dos debates atuais. Mudou a dinâmica.


Os EUA tornaram-se uma república por obra dos FFs. A estabilidade de uma monarquia fundamenta-se no monarca. A estabilidade de uma república fundamenta-se na lei — e, por conseguinte, no respeito à lei.

Como Tacitus e o “secret of empire”, o novo terrível segredo é o de que as regras só têm força se nós quisermos.


Normas da Bíblia. Muitos selecionam que regras querem seguir. Contrastar isso com as regras de um jogo.

Por exemplo, o Levítico e a homossexualidade. Outras normas do Levitico já não são seguidas.

https://en.wikipedia.org/wiki/The_Bible_and_homosexuality

Paulo de Tarso. Primeira epístola a Timóteo, capítulo 1: a lei é boa, se é bem usada; os destinatários da lei não são os justos, mas os injustos.


REGRAS NÃO PODEM MUDAR A REALIDADE! TODA REGRA ESTABELECE UMA RESTRIÇÃO AO QUE É POSSÍVEL, MAS NÃO PODE CRIAR UMA CAPACIDADE QUE NÃO EXISTA!

Uma regra pode proibir alguém de falar algo. Mas nenhuma regra pode dar a capacidade de fala a quem já não a tenha.

Há aqui uma questão filosófica séria. Ela vai além de dizer que regras não existem na natureza. Regras restringem a natureza.


Rule of Law.

https://talkingpointsmemo.com/news/pompeo-ukraine-trump-nature-of-politics-power

É da natureza do poder querer exercitá-lo.


O pressuposto dos checks and balances é o da competição. O mesmo pressuposto governa os campeonatos de futebol. Mas há partidas combinadas. Sempre geram revolta, porque violam os pressupostos do jogo.

A propósito disso, um olhar sobre como os checks and balances de Esparta desabaram quando houve comunhão de interesses entre reis, éforos e gerúsia: https://acoup.blog/2019/09/12/collections-this-isnt-sparta-part-v-spartan-government/


https://boardgamegeek.com/thread/405444/rule-book-writing


IMPORTANTE

O Estado ocidental pré-moderno tinha diversos sistemas normativos concomitantes — direito consuetudinário, vontade real, lei divina. Sua legitimidade era buscada em fontes diversas: força, graça divina, hereditariedade (derivada das anteriores).

Com o Estado moderno, as leis passam a ser a fonte de legitimidade do Estado — o Estado de Direito —, e, ao mesmo tempo, a sua ferramenta por excelência.


No que diz respeito a capacidades humanas, as regras são sempre negativas, quer dizer, elas restringem o uso de uma capacidade humana. Uma regra não pode atribuir uma capacidade a quem não a tem. Pode apenas restringir o seu uso, ou conceder-lhe direitos, etc.


Para qualquer sistema baseado em regras, existe a necessidade de uma metarregra: as regras serão aceitas e implementadas.

Caso de Bolsonaro no pôquer e as instituições no xadrez. This isn’t the enemy we wargamed.

O caso do Nomic.


Hobbits: as regras são obedecidas porque são as regras

Abrir a tese com uma discussão sobre isso. Introdução?

Qual é o poder das regras?

Regras não podem se autoimplementar.

O poder das regras é retórico. O legislador quer motivar as pessoas a agirem como ele deseja.

As regras são construtos sociais.

A partir da segunda metade do século XX, como em tantos outros campos, descobrimos que as regras são as regras somente se quisermos.

Cf. Bretton Woods e o dinheiro. Cf. os hobbits e as regras que são porque são. Cf. o direito de origem divina.

O rei está nu. Se a opinião de um vale tanto quanto a de outro, então a minha opinião de que fatos são irrelevantes é tão válida quanto a de quem se fundamenta em fatos. Não faz diferença que a minha leve ao desastre e a outra não, porque o desastre vai acontecer no futuro e eu não vou me dar conta dele agora, que é o único momento que existe. Quantas pessoas aparecem dizendo que “se eu soubesse, não teria fumado / deixado de usar máscara”? Mas sabiam. Só que era a verdade de outros, não a sua.

Enquanto, como sociedade, nos iludimos, pensando que as normas eram externas ao sistema, nós as obedecíamos por temor reverencial.

Quando descobrimos que nós as criamos — mais, quando descobrimos que nós as realizamos! —, perdemos a reverência.

Transformamo-nos em Aleister Crowley. “Faça o que quiser é a totalidade da lei”.

O abismo aguarda os lemingues.

Mais um efeito pernicioso da propaganda. Transformou a retórica em rebotalho. Os Cíceros e Césares de hoje são youtubers e twitters, vendendo indignação.

Criando regras

Nossa espécie cria regras o tempo todo. É uma das perspectivas cognitivas que adotamos para pôr ordem no que percebemos no ambiente — é como regramos o mundo.

Piaget tem razão, e eu vou além: criar regras faz parte do aprendizado. Mais ainda: criar regras que possam se integrar ao sistema normativo da sociedade na qual estou inserido.

Regras pessoais. Hábitos. Reações consistentes ou coerentes a estímulos semelhantes.

O caos incomoda. Trump é caótico. Ele não segue regras, e se recusa a permitir a criação de regras a seu respeito.

Huizinga, Piaget, Elias

Todos eles perceberam perspectivas diversas do problema das regras.

Elias coloca o autocontrole como fundamento da civilização. As regras não são autoimplementadas, mas dependem de atos de vontade. Elas são a manifestação externa do autocontrole. Regras internas existem, mas há uma diferença qualitativa significativa quando elas são externadas. Cria-se uma dupla expectativa: eu vou cumprir a regra? os demais vão cumprir a regra?

Piaget mostra que aprender a usar regras é um passo essencial no desenvolvimento infantil. Usar e não seguir, ou cumprir. Usar inclui seguir a regra, mas também inclui interpretá-la, criá-la — e transgredi-la!

Huizinga mostra como isso adquire contornos sagrados. O círculo mágico é o espaço no qual as regras existem. Criar o círculo é crias as regras que o definem e que o regem; entrar no círculo é usar estas regras. Isso é sagrado! Estar fora do círculo é sacer, é o exílio, é a exclusão. Estar dentro do círculo e violar o seu estado é tabu.

Os deuses e suas regras

Regras. Regularidades. O regular nos conforta.

Tantas cosmogonias tratam do ordenamento, do regramento do mundo.

Mas os deuses também estão sujeitos a regras.

Quando aprendemos a proclamar deuses onipotentes, isso criou paradoxos. O paradoxo do inamovível/irresistível é meramente por definição do sistema. Mas o paradoxo do mal é perene, exceto no malteísmo — e a espécie foge do malteísmo.

Foge dele, porque quer ter uma relação especial com seu deus. Os incréus podem arder, eu estou salvo!

Ironicamente, a divindade onipotente é também a divindade que leva ao fatalismo. Deus pode tudo, inclusive ser caprichoso, inclusive mostrar que as minhas regras são mera fantasia de uma espécie pretensiosa no meio do universo.

Bentham

O Direito conhece a diferença entre regras morais — mores — e regras positivas.

O que o meu trabalho traz de novidade é mostrar a significância e a importância destas regras no campo dos jogos.

Por sua vez, mostrar isso permite inverter o sentido, e usar os jogos para iluminar alguns aspectos daquela relação entre direito positivo e mores.

Averiguar https://en.wikipedia.org/wiki/Ethical_dilemma

Paul Valéry

“Les conventions sont arbitraires, ou du moins se donnent pour telles ; or, il n’y a pas de scepticisme possible à l’égard des règles d’un jeu.

Ce mot peut scandaliser. Faire entendre que l’art classique est un art qui s’oriente vers l’idéal du jeu, tant il est conscient de soi-même, et tant il préserve à la fois la rigueur et la liberté, c’est sans doute choquer ; mais ce n’est, je l’espère, que choquer un instant, le temps même qu’il vous souvienne que la perfection chez les hommes ne consiste et ne peut consister qu’à remplir exactement une certaine attente que nous nous sommes définie.”

Paul Valéry, Discours de réception à l’Académie française.

https://www.academie-francaise.fr/discours-de-reception-de-paul-valery

Contexto: Valéry se refere às convenções da Arte.

Pós-verdade

https://en.wikipedia.org/wiki/Post-truth

Direito

Kelsen

Teoria pura, quem faz o enforcement

Kant, razão prática

Bobbio

teoria das formas do governo

abuso de direito de propriedade

alguém que turba a propriedade alheia com o uso da sua

Transgressões

Transgredir as regras é assunto sério.

A audiência de Batman the animated series é juvenil. Selina Kyle tem que ser presa.

A mesma audiência, anos depois, viu Selina com Bruce em Florença e aceitou isso. Já sabem que algumas regras podem ser quebradas.

Os poetas, assim como autores à Guimarães Rosa, transgridem as regras da língua, mas isso — tradicionalmente — só é aceito depois que provam a capacidade de respeitá-las.

Primeiro se aprendem as regras. Depois se aprende a cumprir as regras. Somente então podemos aprender a transgredir de forma aceitável.

O trapaceiro salta este percurso. Isto é parte do que o torna desrespeitado.

Mas não é só isso. Qual é a motivação para a transgressão? Isso é chave. O trapaceiro que transgride por transgredir, ou para lograr lucro pessoal, é mais desprezível que o trapaceiro que transgride para realizar um bem maior.

Realizar. Especialmente no mundo de hoje, meramente proclamar o bem maior mostrou ser ainda mais desprezível do que a trapaça pessoal.

Conflitos de regras, conflitos de lealdades, não são nada de novo. As narrativas se nutrem disso. Quando Caesar decidiu atravessar o Rubicão, ele pesou Regras informais|regras sociais — suas dignitas e auctoritas — contra regras formais da República, e deu prioridade às primeiras. Catilina fizera o mesmo. Caesar venceu e é admirado, Catilina perdeu e é execrado.

Terraplanismo histórico

https://www.dw.com/pt-br/problema-n%C3%A3o-%C3%A9-revisionismo-mas-terraplanismo-hist%C3%B3rico/a-55356144

Liberdade de expressão não é liberdade de mentir. Liberdade de expressão não permite gritar “Fogo!” em uma sala lotada (procurar origem; Oliver Wendell Holmes?).

O autoritarismo procura tirar a capacidade de agência das pessoas — especialmente, claro, a agência sobre regras!

Liberdade não significa eu faço o que eu quero e danem-se os demais. Isso é Aleister Crowley e não liberalismo.

SACs

um sistema complexo não pode ser explicado por lógica booleana

ampliar a discussão sobre dfs na parte inicial, responder aos pontos levantados na tese que me cita

mda

dfs para sacs para recepção para estética ezra pound

principal-agent problem (tipping) https://en.wikipedia.org/wiki/Principal%E2%80%93agent_problem

Normatividade

https://en.wikipedia.org/wiki/Normativity

https://www.rep.routledge.com/articles/thematic/normativity/v-1

Sanções

(Xavier Devoto) Carrie Freie en “Rules in Children’s Games and Play” […] También menciona los juegos folk o “tradicionales”. Según Knap y Knap (1976) “nadie conoce exactamente cuáles son (las reglas de los juegos folk)” (p.17) “durante mi observación” cuenta Freie “si un estudiante no conoce las reglas de un juego, uno o más de los niños intenta explicárselas, pero usualmente solo el objetivo general es delimitado y las reglas específicas se van aprendiendo durante el desarrollo del juego”. El dar a conocer de estas reglas específicas se daba normalmente cuando una de estas era infringida y que un jugador se daba cuenta de esto, ahí se detenía el juego y se explicaba la regla a la persona identificada como infractora.

En el tema de infracciones, Freie cita nuevamente a Hughes preguntándose “Cuales son los limites y consecuencias aceptables de conducta en un juego?” (p.95) Romper las reglas formales de juego, tanto como las reglas de alto orden (la integración de las reglas con el comportamiento social) tiene el potencial de eliminar un jugador del juego. Pero estadísticamente romper las reglas de alto orden eran más propensas a la expulsión que las reglas de juego formales.

“Las reglas no son simplemente ‘algo para seguir’, las reglas son una parte importante de la manera en que los niños se relacionan entre si. Ellas no solo delimitan juegos específicos, sino que reflejan como los niños estructuran sus relaciones sociales”.

https://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=G2MeXowOcIUC&oi=fnd&pg=PA83&dq=%22Rules+in+Children%27s+Games+and+Play%22+carrie&ots=ZdUu1y7FTs&sig=myEDhi6nGe963eld4BylgicfEvI=onepage&q=%22Rules%20in%20Children’s%20Games%20and%20Play%22%20carrie&f=false

Fair play na corrida

https://checamos.afp.com/http%253A%252F%252Fdoc.afp.com%252F9H3764-1

Torcendo a regra

https://en.m.wikipedia.org/wiki/Sundown_town

The towns of Minden, Nevada, and Gardnerville, Nevada, had an ordinance from 1917 to 1974 that required Native Americans to leave the towns by 6:30 p.m. each day. A whistle, later a siren, was sounded at 6 p.m. daily alerting Native Americans to leave by sundown. In 2021, the state of Nevada passed a law prohibiting the appropriation of Native American imagery by the mascots of schools, and the sounding of sirens that were once associated with Sundown ordinances. Despite this law, Minden has continued to play its siren, claiming it as being a nightly tribute to first responders.

Modo follow

Leitura de regras de jogo. Betrayal. Ler um livro de matemática.

Comentário do Daniel Polli: a maior parte dos jogadores vai em modo follow, ao contrário de gente como ele, Saulo, eu, De Marchi. Modo follow: herança do MMORPG.

Alt-right

Por que a onda da alt right, misógina, xenófoba, etc., teve origem em Gamergate? Por que jogadores?

. porque já eram uma comunidade coesa, em parte por forças de mercado há décadas;

. porque é da natureza dos gamers participarem em jogos que simultaneamente permitem abusos, ao mesmo tempo que removem a rules agency

Blashki

Blashki. O círculo sagrado. As regras o delimitam. mas também o definem! pensamento mágico — regras em palavras! mas regras sem palavras também.

Vulnerabilidade compartilhada

https://www.theguardian.com/lifeandstyle/2022/sep/17/self-and-wellbeing-can-online-friends-provide-a-real-sense-of-community

Locus de controle

Dica do Eduardo. As pessoas partem de dois tipos extremos. Locus de controle interno acham que fazem seu próprio destino. As outras acham que coisas interferem além da sua capacidade.