Conversa com o Marcelo, pelo WhatsApp, em 2020-09-14.

Pensando no que conversamos ontem, e associando ao capítulo que eu pretendo escrever para o livro. Ver o jogo como linguagem.

Esta história começa lá atrás, durante o meu mestrado. Quando fiz meu exame de qualificação, uma professora na banca sentiu falta de uma definição de jogo, como o objeto de pesquisa. Muito tempo depois, eu me dei conta que ela não estava nem aí para o tema, só queria que eu cumprisse a formalidade de escrever “a definição do meu objeto é X”. Mas, naquele momento, eu achei que a pergunta era a sério, e entrei em parafuso; como eu comento no artigo que mandei outro dia, jogos são absurdamente difíceis de definir.

Passei algumas semanas me debatendo com o problema. Um dia, Adelaide e eu conversávamos à mesa sobre isso, e ela sugeriu que eu usasse a abordagem de traços distintivos, oriunda da Linguística, no lugar de uma definição. Gostei da ideia, o meu orientador gostou da ideia, e seguimos com ela. Adelaide se irrita até hoje comigo, porque eu não usei o conceito da forma como ela acha que devia ter sido usado, mas isso é outra história.

O fato é que, de lá para cá, comecei a ver cada vez mais paralelos entre jogos e linguagem. Em 2018, candidatei-me ao doutorado em Linguística, e no meu projeto eu defendia usar mais estruturas teóricas da Linguística para o estudo do jogo. O projeto não foi aprovado; a colega da Adelaide que o avaliou me contou, depois, que fui reprovado não pelo projeto, mas porque “teriam que me dar uma formação em Linguística e não haveria tempo para isso”. Adelaide ouviu a desculpa, e acha que o projeto foi rejeitado por sair demais da caixinha.

Mas agora eu pretendo aproveitar aquele projeto para o meu capítulo. Apresentar a proposta de como se podem distinguir morfologia e sintaxe nos jogos, e defender que eles podem ser entendidos como uma forma de linguagem.

E é aí que entra a conversa de ontem… Porque eu me dei conta que, para mim, os jogos sempre foram uma forma de linguagem. É a linguagem que eu uso para conversar com meus melhores amigos. Mais do que isso: conversas estimulantes.

É interessante que nós pouco conversamos, durante uma partida, sobre assuntos externos ao jogo. O jogo não é o pretexto para uma conversa, ele é a própria conversa.

Engenharia semiótica

Averiguar a aplicabilidade da Engenharia Semiótica ao caso do jogo como linguagem.