É possível que as duas palavras deste título, acima, choquem alguns leitores; podem mesmo ofender. Em nossa língua, elas e outras foram usadas por muito tempo como palavras pejorativas para pessoas negras.
Como aqui tratamos de temas da linguística, vale notar que, neste campo, crioulo significa uma língua “híbrida”, resultante do contato entre línguas de origens e estruturas distintas. Originalmente, a palavra significava simplesmente “mestiço”. Muitas das línguas crioulas hoje existentes são resultado do colonialismo e do escravismo europeus, e assim mesclam línguas europeias com línguas de outras origens (especialmente as africanas).
Não sei se você ficou chocado ou ofendido com elas. Mas provavelmente reconhece que estas reações são possíveis. Isto mostra que o esforço de mudar a língua para mudar a sociedade pode, sim, produzir algum resultado.
MAS… frequentemente não será exatamente o resultado pretendido.
Assim como o Português do Brasil, o Inglês dos EUA também foi muito afetado pelas estruturas sociais escravocratas; em ambas as línguas, há palavras pejorativas para pessoas negras.
No caso dos EUA, o período após a Segunda Guerra Mundial foi marcado pelo movimento dos civil rights (direitos públicos), que procurava garantir a pessoas negras os mesmos direitos gozados por pessoas brancas. Esta luta é bem anterior ao período, e ainda não acabou; mas o que me interessa aqui é que, nesta época, a língua inglesa passou a ser um dos seus campos de batalha.
Essencialmente, o movimento de resistência negro adotou uma das palavras pejorativas — black — como a mais apropriada para referir pessoas negras. Proud to be black (“orgulho de ser negro”), Black Power (“poder negro”), e outras expressões eram a marca de pertencimento à causa.
Sessenta anos depois, no mesmo país, chamar um ativista negro de black é no mínimo deselegante, e pode até ofender. Ao longo destas seis décadas, o impacto das palavras foi mudando. Hoje, entre pessoas mais esclarecidas, é mais comum usar African-American (“afro-americano”), ou outros termos análogos.
Há várias razões para estas transformações; mas chamo a atenção para uma em especial. Como mencionei na seção anterior, o vocabulário é apenas um dos níveis da língua que reflete as estruturas sociais. Há outros. Que tal o nível semântico, o de significado das palavras e frases? Pervertendo o eloquente exemplo que Shakespeare deu a Julieta, um racista poderia falar “um [afro-americano], por qualquer outro nome, ainda teria o mesmo cheiro”. A expressão entre colchetes poderia ser substituída por qualquer outra, e não faria qualquer diferença: a frase segue sendo perversamente racista.
Vamos ao nível da prosódia — aproximadamente, a maneira como falamos. De forma geral, é um pouco difícil refletir a prosódia da língua falada na língua escrita; mas imagine um orador racista, fazendo com que cada palavra, cada ênfase, cada olhar, cada expressão, cada gesto, reflitam o seu ódio a pessoas de pele diferente da sua. Mais uma vez, não faz diferença se ele as chama de “negras”, “crioulas”, ou “afro-descendentes”, e pode até estar dizendo uma frase aparentemente inócua como “nosso país aprendeu muito com esses [afro-descendentes]“. O racismo não está nas palavras que ele usa, mas sim em como ele as usa.
Vamos voltar à lente das regras e transgressões. Na luta contra o racismo linguístico, assim como no caso análogo contra o machismo, vemos esforços de realizar transgressões criativas — mudar as regras formais do jogo da língua, com o objetivo de assim mudar as regras informais da sociedade.
Estes esforços não são destituídos de efeitos, especialmente dentro do mundo letrado. Mas é importante reconhecer que são limitados, que são apenas uma parte (provavelmente pequena) de lutas muito mais amplas, e que por vezes serão inócuos, ou mesmo contraproducentes.
Mas o último exemplo racista que eu dei, acima, leva a uma discussão sobre outro tipo de transgressão das regras da linguagem; mas, desta vez, uma transgressão destrutiva.