Já sabemos que nós, individualmente e em grupos, criamos e transformamos as nossas línguas. Tanto em suas regras formais quanto nas informais, as línguas refletem aspectos das sociedades que as utilizam.
Será possível inverter este processo? Será possível mudar as regras da língua e, com isso, mudar a sociedade? Será possível fazer o rabo abanar o cachorro?
Digamos que a resposta é “sim”, “não”, “depende”…
Vamos começar pelo básico. A língua reflete alguns aspectos da sociedade. Não todos. E este reflexo se manifesta em diferentes níveis da língua. Pode ser no vocabulário; pode ser nas estruturas gramaticais formais; pode ser no uso cotidiano.
Mas línguas são tão variadas quanto jogos. (Deve ser coincidência…) Aliás, as sociedades que as originam também. Isso quer dizer que as maneiras pelas quais as línguas refletem estruturas sociais são muito variadas.
Vamos à prática, pegando como exemplo duas estruturas sociais que vêm sendo alvo de merecida atenção em tempos recentes: sexismo e racismo.
De forma geral, identificamos que o reflexo do machismo da sociedade na língua é o gênero gramatical — a distinção entre palavras “masculinas” e “femininas”, e especialmente o uso do gênero masculino para agrupamentos, mesmo quando incluem elementos femininos.
Esta identificação do gênero gramatical como reflexo do machismo apresenta vários problemas do ponto de vista da linguística. Não tenho como me aprofundar no assunto aqui, mas recomendo que os interessados procurem os textos de Luiz Carlos Schwindt a respeito do tema.
Para combater, ou reverter, este machismo estrutural na língua, há propostas de mudanças nas normas da língua — transgressões criativas, quiçá positivas, das regras deste jogo.
Estas propostas se dividem em dois ramos principais. Um deles propõe o uso ampliado de estruturas já presentes na língua — de certa forma, exacerbando a alocução “Senhoras e senhores” —, para sempre usar, simultaneamente, palavras masculinas e femininas. Assim, uma expressão como “todos os alunos” seria substituída por “todos os alunos e todas as alunas”.
O problema com esta abordagem é que o gênero gramatical tem vários impactos no uso da língua. O exemplo acima é simples; mas que tal transformar uma frase mais complexa, como “todos os alunos são convidados a participar, e incentivados a dar o seu melhor”?
O outro ramo de propostas procura criar um gênero neutro na língua. Tipicamente, isso se realiza pela transformação das desinências de gênero; ao invés de escrever “alunos”, escreve-se “alunes”, ou “alunxs”, ou outras variações. Esta abordagem também esbarra em problemas para frases mais complexas — “todes es alunes” ou “todxs xs alunxs”, e asim por diante —, e no fato de propor regras mais para a língua escrita do que para a falada.
É claro que as regras — formais e informais — da língua escrita não são as mesmas da língua falada. Também há características da língua escrita que não têm correspondência na língua falada, e vice-versa. Isso vem se acentuando com a influência da Internet — é difícil falar um texto escrito com vários emojis, por exemplo.
De certa maneira, podemos enxergar na língua escrita a manifestação de uma dimensão da nossa sociedade — a dimensão letrada, digamos. Ela é excludente — pois exclui os iletrados e os pouco letrados —, mas sua influência na sociedade, como um todo, é enorme. Então, mudar a língua escrita tem algum impacto; e, apesar dos problemas, se escrevo “todes es alunes” — ou mesmo “todes os alunes” —, estou realizando uma afirmação de posição, nesta dimensão letrada da sociedade.
Ótimo! Isso quer dizer que conseguirei abanar o cachorro?
Pois é. Mudar regras informais pela mudança das regras formais é muito difícil, seja em jogos, seja em línguas. Vamos passar ao caso do racismo na língua para ver isso mais de perto.