As transgressões no jogo da linguagem podem ser interpretadas dentro das mesmas classes que em outros jogos.
Vamos começar pelas transgressões que negam o próprio jogo. Uma pessoa que sistematicamente age para destruir a comunicação, ou para impedi-la, está se colocando na posição de alguém que pinta o chão de uma sala, mas se prende em um canto sem saída. O uso da linguagem é tão integral a qualquer atividade social, que agir para negá-la equivale a negar o próprio laço social — e geralmente é exatamente isso o que acontece em transgressões assim.
Nos termos das transgressões de regras de jogo, o “silêncio agressivo” e outras ações semelhantes atacam as regras constitutivas da linguagem — ou seja, as regras que dizem como ela começa, e a que fim se destina. Embora o objeto da transgressão seja a linguagem, o objetivo da transgressão é atacar a pessoa que tem expectativa de comunicação.
Transgressões que negam regras operacionais da linguagem são muito mais comuns, familiares mesmo. Assim como acontece nas transgressões de regras de jogo, a reação a elas frequentemente indica a sua natureza: “isso está errado” marca uma transgressão a uma regra formal, “isso não se diz” marca uma transgressão a uma regra informal.
Claro, nestes dois casos a transgressão precisa ser percebida, para que se possa reagir a ela; mas voltarei a tratar deste tema mais adiante.
É necessário notar o impacto de transgressões percebidas. Justamente porque a linguagem é uma parte tão fundamental dos laços sociais, o seu uso e as suas transgressões também têm impactos que vão muito além da sua dimensão “jogo”.
Por exemplo, alguém que fale “menas pessoas” está transgredindo as regras formais da língua portuguesa. Mas, perversamente, isso pode representar uma realização de uma regra informal! Este tipo de erro é, frequentemente, associado aos que antigamente eram ditos “pessoas de baixa extração” — os nossos miseráveis, marginalizados, vitimizados por uma estrutura social cruel, que depende deste massacre para se perpetuar. Então, isso resulta em uma expectativa de que estas pessoas errem mesmo — e elas podem até se convencer disso. Cria-se um círculo vicioso, no qual a pessoa mostra ser “de baixa extração” pela maneira como fala, e a maneira como fala mostra que ela o é!
Mas vamos olhar um pouco mais de perto este erro em especial. É relativamente fácil encontrar alguém que fale “menas pessoas”, mas dificilmente se encontrará alguém que fale “menas homens”. Na verdade, o primeiro erro decorre de uma hipótese gramatical: a de que a palavra “menos” tenha flexão de gênero. Seja ou não de “baixa extração”, a pessoa está na verdade evidenciando domínio da estrutura gramatical da língua; por assim dizer, ela domina a regra geral, mas não a particularidade — a regra especial.
Qualquer um que acompanhe a evolução linguística de uma criança, à medida que a vê aprendendo as particularidades da linguagem, percebe este mesmo mecanismo em ação. E é claro que continua acontecendo ao longo de toda a vida, mesmo entre pessoas de “alta extração”. Por exemplo, entre falantes da língua inglesa, uma hipótese gramatical comum é que a palavra biceps é um plural, e que portanto diz respeito aos músculos dos dois braços; o músculo de um braço apenas seria um “bicep”. Na verdade, biceps é uma palavra emprestada diretamente do latim, e tem a mesma forma no singular e no plural.
Este exemplo ainda é útil para mostrar outro impacto das transgressões, ao qual já aludi no Homo regulans: transgressões das regras são necessárias para que possa haver transformações daqueles sistemas normativos. Neste caso do biceps, em inglês, já há décadas que a palavra bicep se normalizou e está dicionarizada. Etimologica e gramaticalmente, isso não faz sentido — mas e daí? As normas gramaticais, como quaisquer normas, são arbitrárias — e podemos mudá-las.
É perfeitamente possível que, no futuro, a norma formal da língua aceite que a palavra “menos” tenha flexão de gênero. Nossa língua, felizmente, não é um bloco estanque; tem uma formação tão variada quanto a nossa própria sociedade, e espelha muito do que ela é — para o bem e para o mal.
Hm, interessante. Isso me dá uma ideia: que tal… mudar a língua para mudar a sociedade?