Criar significados é uma atividade essencial para nossas vidas. É, literalmente, dar um sentido ao que vivemos.
A palavra “rosa” representa uma flor com pétalas aveludadas e um caule espinhento. Se eu digo “me machuquei quando peguei a rosa”, você pode perfeitamente supor que eu me espetei em um dos seus espinhos. Nós compartilhamos significados que dão sentido à minha frase, e à minha experiência. Você não a viveu, mas o meu relato transmitiu para você o que aconteceu comigo.
Esta transmissão de informações é o cerne de qualquer linguagem — sempre lembrando que diferentes formas de linguagem expressam melhor diferentes tipos de informações.
Há um requisito para que este aspecto da linguagem possa funcionar: temos que “falar a mesma língua”. Ou, por outra: temos que usar as mesmas regras. Temos que “jogar o mesmo jogo”.
Como qualquer jogo, o jogo da linguagem tem regras formais e regras informais. São a sua gramática. Não me refiro, aqui, a um livro cheio de regras misteriosas, mesmo chatas, mas ao conhecimento da linguagem que temos e aplicamos. É este conhecimento que usamos para interpretar a frase “a menina comeu o chocolate”, e concluir que uma mulher jovem ingeriu um doce à base de cacau — e não precisamos sequer saber, ou lembrar, o que são sujeitos, predicados, objetos diretos, tempos verbais, e por aí afora.
De forma geral, as regras formais da linguagem são as que vão parar nos livros chamados “gramáticas”. As regras informais deste jogo são mais difíceis de categorizar, porque mudam conforme as circunstâncias: se estou em uma conversa informal com amigos, falar “servir-me-ei de cerveja” poderá ser facilmente interpretado como uma brincadeira; mas, em uma petição de um processo judicial, uma mesóclise será considerada como uma forma normal de expressão.
Tanto em um caso como em outro, os participantes da conversa estão jogando pelas mesmas regras. Há regras comuns a estes dois cenários, e há regras distintas. O importante é que todos os participantes usem um “livro de regras” comum.
Só que isso não é automático. Em qualquer conversa, precisamos confirmar que estamos falando a mesma língua — frequentemente, precisamos fazer isso mais de uma vez. Uma expressão como “não entendi” ou “o que você quis dizer com isso?” faz isso de forma explícita; ou posso perceber que não me fiz claro, observando outro tipo de expressão — como uma “cara de ponto de interrogação”…
Nenhuma surpresa nisso. Parte destes “ruídos na comunicação” podem mesmo ser “ruídos”, ou problemas com o meio de transmissão da informação. Mas também podem acontecer em razão de usos diferentes, ou inesperados, das regras informais da linguagem. Como mencionei acima, as regras informais dependem muito das circunstâncias — e, para todos nós, uma parte importante das circunstâncias é o que levamos em nossas mentes. Mentes não são experiências compartilhadas (felizmente!), então parte das circunstâncias que determinam as nossas regras informais não é conhecida pelos outros participantes da conversa.
Mais uma vez, temos um sistema adaptativo complexo: vamos ajustando o nosso uso das regras do jogo conforme as jogadas dos outros participantes — vamos ajustando as próprias regras que estamos usando, juntos.
Com um “livro de regras” comum, podemos usar as regras e nos comunicar a contento, certo?
Certo… mas, se há regras, há transgressões.