Existe apenas um exemplar do jogo Train, criado por Brenda Romero. Ela o usa em palestras e atividades sobre o conteúdo ético dos jogos. Jogos baseados em ferrovias não são nada de extraordinário; quando a autora apresenta seu jogo a novos participantes, ele parece ser um jogo simples, no estilo pick up and deliver — receber uma carga e levá-la a seu destino. Trilhos, vagões, um conjunto de figurinhas amarelas, todas iguais… Os jogadores vão realizando as operações de transporte.

O momento em que acontece a revelação varia de pessoa para pessoa. Para mim, pode ter sido provocado pela percepção de que são vagões de gado; ou quando notei a máquina de escrever antiga, com teclado alemão; ou quando pensei o que seriam a carga e seu destino. Ou mesmo quando vi a reação de um outro participante.

Subitamente, sem que tenha sido necessário expressar isso de forma direta, o jogo adquire um significado que estava mascarado. Não escondido: ele estava ali o tempo todo, colocado intencionalmente pela criadora do jogo. Ainda é o mesmo jogo, com as mesmas regras. O que mudou?

Neste momento singular, criei uma relação. Associei as operações do jogo a atividades do mundo real.

O ponto interessante, aqui, é que esta foi a segunda vez em que fiz isso no jogo. A primeira foi logo no início, quando me sentei para jogar. Criei uma associação entre os trilhos e vagões sobre a mesa a trilhos e vagões do mundo real, e mais algumas, e elas me permitiram jogar.

No momento da revelação, criei uma associação adicional — um significado adicional.

Eu estava criando representações mentais da realidade, por meio de símbolos. O vagão de brinquedo sobre a mesa do jogo não é um vagão ferroviário. Tamanho e material não são os mesmos, por exemplo; e nem haverá nele o cheiro de medo e morte que não pode ser removido mesmo com mangueiras de alta pressão. Mas ele é um símbolo. Mais ainda, não é um símbolo de um vagão específico entre milhares, e sim de todos.

Com as representações mentais, transformamos estes objetos em símbolos, e passamos a realizar operações com eles que correspondem a fenômenos reais.

A linguagem funciona da mesma maneira.

Não há aroma ou cor na palavra “rosa”. Ou nas palavras “růže” ou “gül”. A palavra “beijo” não tem a delícia do toque de lábios — e, no entanto, quando me despeço da pessoa amada ao telefone, e lhe digo “Beijo!”, ela sabe que estou expressando aquela delícia.

Seja no jogo ou na linguagem, este é o poder que permite a expressão de ideias. No caso do jogo, em especial, podemos ainda expressar relações, como mencionei anteriormente. É claro que a linguagem também consegue expressá-las, mas de outra forma. Posso dizer que “o equilíbrio do ciclista depende do movimento para a frente, provocado pelo pedalar”; ou posso aprender a andar de bicicleta, e descobrir isso na prática, mesmo que não o expresse em palavras. Por assim dizer, as palavras expressam relações de forma analítica, e os jogos as expressam em forma sintética.

Cada ferramenta com suas limitações e suas capacidades…

Por falar nisso, vamos ver uma destas limitações um pouco mais de perto. Você pode ter notado que, ao falar da “revelação” no jogo Train, eu não disse qual é esta revelação. Isso não impediu que você chegasse a uma conclusão sobre ela.

Pois é, eu fiz um jogo com as palavras. E com você.

O que usei para fazer minha jogada?