Meu avô José me ensinou a andar de bicicleta, quando eu tinha seis anos de idade. Como qualquer pessoa aprendendo a andar de bicicleta, eu não aprendi separadamente os vários movimentos necessários, para depois aprender a combiná-los: à custa de alguns tombos, aprendi a pedalar e me equilibrar e orientar o percurso e frear…
O mesmo acontece com o jogo. Quando aprendi Xadrez — também com meu avô, mais ou menos na mesma época —, não aprendi primeiro a mover cada uma das peças, para depois aprender a tomar peças adversárias, e assim por diante. Foi um aprendizado simultâneo de todos estes saberes.
Em um caso e no outro, eu estava aprendendo uma gestalt — um todo, composto por partes, mas que ao mesmo tempo era mais do que a simples soma destas partes. Eu estava aprendendo a criar e usar a sinergia entre elas.
Eu estava aprendendo a criar e usar relações entre os vários componentes de um sistema
Vamos pensar em um jogo bem simples — por exemplo, o Jogo da Velha. Depois que aprendemos as suas regras, um pouco de prática nos mostra como procurar vencer, e como impedir que o adversário vença. Veja o diagrama abaixo:
| | | O |
|---|---|---|
| | X | |
|---|---|---|
| O | | X |
É a vez do jogador O. Há uma posição que garante a sua vitória na jogada seguinte, e ao mesmo tempo impede a vitória iminente do jogador X.
Como sabemos disso? Não são as regras que dizem isso. Mas o jogador percebe as relações entre as peças já colocadas e as suas posições.
Sejam simples ou complexos, os jogos funcionam com base em relações entre os seus componentes. Mais ainda: são relações dinâmicas. Em um jogo como o Xadrez, o movimento de um simples Peão pode modificar inteiramente a configuração do tabuleiro, alterando as relações entre as peças.
Incidentalmente, foi exatamente esta característica que levou de Saussure a ver os paralelos dos jogos com a linguagem.
Voltando a nossa lente, jogos são uma forma de linguagem que permite expressar gestalten. Eu posso encher várias páginas, descrevendo as regras do Jogo da Velha e todas as relações possíveis entre os XX e OO — mas nada disso será equivalente ao conhecimento integral deste jogo, que uma criança consegue, em poucos minutos, jogando.
Quando aprendemos um jogo, partimos das árvores para perceber a floresta, e assim aprendemos a lidar com ela.
Temos, então, que jogos inspiram emoções, e também são capazes de transmitir gestalten de forma muito eficaz. Ora, isso é formidável! Vamos, então, usar as emoções como isca para atrair jogadores, e meter informações goela abaixo deles — assim, eles aprendem! Ainda temos a vantagem de darmos um propósito “nobre” a estas atividades que são pura perda de tempo. Vamos criar “jogos sérios”!
Ótima ideia.
Pena que não é bem assim.