Falar em “gramática”, para muitas pessoas, traz à mente uma ou duas imagens imediatas. Uma delas é um livro chato, cheio de regras obscuras; a outra é um tema de disciplinas de colégio, muitas vezes associado a memórias desagradáveis.

Felizmente, como tantas coisas na linguagem, uma gramática é muito mais do que isso. Na verdade, é tanto mais que nem mesmo vou me preocupar em alcançar todas as dimensões deste conceito; a que me interessa aqui toca bem de perto no nosso tema principal.

A gramática de uma língua é o conjunto de regras para usá-la — tanto regras formais quanto regras informais. Se eu sei usar uma língua, eu conheço a sua gramática. Mesmo que eu nunca tenha aberto um livro com o nome “gramática” em sua capa, mesmo que eu nunca tenha bocejado em uma aula com este tema.

Note que eu me referi a regras formais e informais. Sim, exatamente como em um jogo. De forma geral, as regras formais de uma língua são as que vão parar nos livros de gramática, e as regras informais são as que não param, porque as usamos o tempo todo. Também como em um jogo, temos agência sobre as regras da língua (para desespero de muitos gramáticos): aprendemos, usamos, implementamos, modificamos, transgredimos todas estas regras.

Aproveito e chamo a atenção para uma distinção importante. Falei em linguagem e em língua, que são conceitos diferentes. A linguagem é uma faculdade comum a todos os humanos, e que compartilhamos com muitas outras espécies. Uma língua é uma maneira específica de exercitar a faculdade da linguagem.

Cada língua tem a sua gramática — o seu conjunto de regras, formais e informais. É possível que exista uma “gramática universal”, mas não é dela que trato aqui. Temos, então, uma gramática para a língua inglesa, uma para a língua árabe, uma para a língua portuguesa…

Epa! (Insira aqui a sua onomatopeia preferida para uma freada brusca).

De qual língua portuguesa estamos falando? A língua falada no Brasil tem um bocado de diferenças da falada em Portugal, ou em Moçambique. Aliás, as línguas inglesa e árabe conseguem ter ainda mais variantes.

Pois é. Variantes, sim — mais uma vez, exatamente como em um jogo. Cada variante tem o seu conjunto de regras — a sua gramática. Aqui, trato a questão das variantes de uma língua exatamente como trato as variantes de um jogo: eu as ignoro. Para mim, não faz diferença se o Português Brasileiro e o Português Europeu são considerados duas línguas distintas, ou variantes da mesma língua. Assim como no mundo do jogar, querer colocar limites e categorias estanques no mundo da linguagem é quase sempre um exercício de futilidade.

O que me interessa é o seguinte: dada uma língua qualquer, existe uma gramática dela, um conjunto de regras para quem a usa. Amplio um pouco o conceito: a gramática é uma maneira pela qual conseguimos sistematizar as regras de uma língua. Mas, como venho indicando, há uma grande quantidade de semelhanças entre linguagem e jogar. Então, vale a pena sistematizar as regras de um jogo, de forma semelhante ao que fazemos com as regras de uma língua.

Em geral, a gramática de uma língua distingue vários campos da experiência linguística. Alguns provavelmente não fazem sentido no mundo dos jogos, outros parecem ser bem aplicáveis.

Vamos começar pelo básico. Se jogos são uma linguagem, o que podemos dizer com eles? Vou oferecer uma resposta a esta pergunta um pouco mais adiante; antes, quero tratar de algumas limitações da linguagem.