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Sabemos que o brincar não é exclusividade da nossa espécie; as brincadeiras e jogos de nossos irmãos animais às vezes nos irritam, podem causar prejuízos; mas, com frequência, nos divertimos ao vê-los brincar, e muitas vezes participamos das brincadeiras. Cruzamos “barreiras” entre as espécies, mas são barreiras que existem apenas em nossas mentes, sempre apaixonadas por criar categorias e achar que são a própria realidade.
Verdade, parece que nossa espécie pegou estas ideias de brincadeiras, jogos, e regras, e há milênios se diverte em explorar e expandir os seus limites. Em várias das nossas instituições mais sisudas, um olhar mais crítico consegue ver facilmente ecos de brincadeiras primatas.
Coisa semelhante acontece com outra atividade que compartilhamos com outras formas de vida: a linguagem. Sabemos que muitos animais falam, e sabemos que muitas linguagens animais são visuais e não sonoras. Também parece haver linguagens químicas em algumas espécies — e, há alguns anos, li um texto profundamente instigante sobre estudos que sugerem haver uma linguagem química para comunicação entre vegetais.
Assim como fizemos com a brincadeira, também tomamos a linguagem e a transformamos na nossa ferramenta principal. Nossos antecessores mais afastados nos legaram as linguagens de sinais e as linguagens sonoras, mas muito cedo começamos a desenvolver outras formas de linguagem: ainda “lemos” as mensagens visuais, com centenas de séculos, deixadas nas paredes de cavernas e em objetos entalhados. Claro, provavelmente não estamos entendendo exatamente o que aqueles artistas queriam dizer; mas entender errado o que nos dizem é um privilégio do qual nunca abrimos mão.
Por todo o livro, vou usar palavras como “falar” e “escutar” para linguagens não-verbais, “ler” para linguagens não escritas, e assim por diante. É um uso metafórico, claro — e é por isso que é eficaz.
[//]: # Fim de texto reaproveitado em fl3-introducao
Mais recentemente, inventamos a linguagem escrita. Esta é uma ferramenta tão poderosa, que chega a gerar a ilusão de que somente ela é a “linguagem de verdade”, e que todas as demais precisam se moldar a ela — precisam seguir as suas regras.
Sim, linguagens têm regras, que vão muito além da ortografia e da sintaxe, temidas por tanta gente. É graças às regras das linguagens que conseguimos usá-las para comunicar ideias — desde que quem fale e quem escute usem as mesmas regras.
Afinal, não será muito útil se eu falar “pegue a rosa”, querendo que meu interlocutor pegue uma flor, mas ele entender que eu lhe pedi para pegar alguma coisa cor-de-rosa — e será muito ruim se ele interpretar a frase como se referindo a assediar uma jovem com este nome.
Ora essa! Parece que as regras das linguagens não são determinísticas! Mais ainda: a bela flor, que eu chamo “rosa”, será chamada “růže” por um checo, ou “gül” por um turco — mas terá o mesmo doce perfume para todos. Shakespeare usou esta metáfora, colocando-a nos lábios de Julieta, falando a Romeu, para convencer seu amado que nomes nada revelam sobre quem é nomeado. Com isso, a jovem veronesa deixou à mostra o caráter arbitrário das regras da linguagem. De fato, não importa o nome que lhe damos, a flor continua a ser a mesma.
Temos, então, um sistema que funciona à base de regras arbitrárias, que são implementadas e seguidas por seus participantes. Parece familiar…
Jogos e linguagem têm muito em comum. Podemos começar pelos vários jogos de palavras que fiz nos parágrafos anteriores; mas a proximidade vai muito além. Quando de Saussure criou a Linguística contemporânea, usou várias metáforas com o jogo de Xadrez para ilustrar os seus conceitos, e falou explicitamente que a linguagem funciona como um jogo. Muitos outros pensaram a linguagem como jogo — Greimas, Hjelmslev, Wittgenstein… mais nomes de destaque na grande série de pensadores que usaram o jogo como uma lente para ver o mundo.
Esta lente não é unidirecional: da mesma forma que podemos ver a linguagem como um jogo, podemos ver o jogo como linguagem. É sempre bom lembrar que usar uma lente, mesmo que conceitual, amplia alguns aspectos, mas obscurece outros; felizmente, aqui não procuro uma visão total, seja do jogo ou da linguagem. Vou me contentar em chamar a atenção para alguns pontos interessantes, revelados com a lente.
Mas vamos começar pelo básico. Se jogos podem ser interpretados como uma linguagem, que tipo de informação transmitem?