Jogos são ferramentas úteis para examinar sistemas baseados em regras, como sistemas legislativos. Nenhuma regra funciona por si, mas apenas quando aplicada por jogadores. Nomic faz isso, para estudar o microcosmo dos sistemas legislativos que se modificam.

Mas isso traz à baila, mais uma vez, o descompasso entre jogos digitais e os jogadores. Eles são afastados das regras, o jogo digital cria uma camada de isolamento.

Jogos são um subconjunto do conjunto de sistemas baseados em regras. Huizinga intuiu isso, ao tratar estes sistemas como jogos. Onde está a fronteira não faz diferença para o meu estudo: eu analiso as regras e a sua implementação.


Chamada de artigos para o Ludic Violence e Playful Control

Crítica: O problema com tecnologias de controle é que, mais uma vez, estão colocando o Big Brother para controlar e reprimir. Para ser eficaz, todo controle tem que ser um autocontrole. Verificar Piaget.

Gil Hova (@gilhova) tweeted at 0:21 PM on Wed, Sep 25, 2019:

Once I release a game, in a creative sense, I’m releasing control of it. I can’t directly control how people react to it, and if they want to house rule something, I can’t (and don’t really want to) stop them.

(https://twitter.com/gilhova/status/1176879331282497537?s=03)


A propósito de jogos digitais e terceirização das regras: Tabletop Simulator é um jogo digital sem regras


Várias explicações para os comportamentos observados:

As pessoas não gostam de ler regras porque querem mesmo que outros lhes digam o que fazer. Neste sentido, o computador recompensa esta tendência.

Mais uma, certamente importante: existe uma função social neste caso, as pessoas estão conversando ao redor de uma mesa afinal.

A proximidade entre jogos e linguística. Ler regras de jogo e ler regras de gramática, cheias de exceções, é desagradável.

Outra hipótese: aprender regras, de forma geral, é chato.

Aprendendo regras: logo após a explicação, estamos trabalhando com memória de trabalho, memória de curto prazo. As relações entre os componentes do jogo ainda não foram estabelecidas.


Brenda Brathwaite (agora Brenda Romero):

I think games are a good medium for approaching any subject, particularly difficult ones, because by their very nature, they are abstract, invite interaction and allow us to confront and question things… particularly rules that we may blindly follow.

Fonte: Brophy-Warren 2009, também citado em Toys and Communication


Da mesma maneira que acontece com motivações de jogadores, motivações de juízes e da sociedade variam sobre como vão cumprir regras


IMPORTANTE

http://healthy.uwaterloo.ca/museum/Archives/Caillois/index.html

Unity of Play, de Roger Caillois

For a long time the study of games was hardly more than a history of toys. Particular attention was paid to the tools or accessories of games rather than to the nature of the games themselves - their characteristics, their laws, the instincts they presuppose, the kind of satisfaction they procure. Generally speaking, they were considered simple and insignificant childish diversions. Therefore no cultural value whatsoever was attributed to them. Research into the origin of games or toys has only confirmed the initial impression that toys are tools, and games behavior, amusing and of no importance, relegated to children when adults have found better things to do. Thus, weapons that have fallen into disuse become toys: the bow, the shield, the peashooter, the slingshot. The cup and ball and the spinning top at first represented magical skills. Similarly, [Page 94] many games are based upon discarded beliefs, or they vacuously imitate rites denuded of significance. Roundelays or camptines seem to be ancient incantations no longer in use.

“Everything degenerates into play,” the reader of Hirm, Groos, Lady Gomme, Carrington Bolton, and many others is led to conclude. However, in I938, Huizinga, in his major work, Homo ludens, maintains a theory that is the exact opposite of this: culture emanates from play. Play is simultaneously freedom and invention, fantasy and discipline. All the important manifestations of culture are derived from it. They are indebted to the spirit of research, to the respect for rules, to the detachment that it creates and maintains. In certain respects the rules of the law, of prosody, counterpoint, and perspective, the rules for stage settings and liturgies, for military tactics and philosophical controversy, are so many rules for games. They constitute conventions that must be respected in a determined domain where they establish nothing less than civilization itself “Has everything sprung from games?” the reader wonders in closing Homo ludens.

The two theses are in almost complete contradiction. I do not believe that they have ever been compared with the purpose of arbitrating or of distinguishing between them.

O que liga estes dois campos das atividades humanas são as regras. Culturalmente, os jogos não são relevantes apenas no que toca aos seus temas ou atividades imediatas, mas também são relevantes no que toca a formular, aprender e seguir regras.

Neste sentido, a violação das regras também adquire um sentido cultural relevante. Aprender a lidar com trapaceiros prepara para lidar com regras em contextos frouxos — como a guerra!


Regras e debates. Pesquisar a disputation (O Nome da Rosa). Busca do consenso. Contrastar as Regras informais|regras sociais da disputatio com as Regras informais|regras sociais dos debates atuais. Mudou a dinâmica.


Regras da gramática.

Retondar, Faraco, João Vanderlei Geraldi

JVG não precisa ensinar normas porque as pessoas inferem isso a partir do texto. O texto basta.

Retondar as regras têm que ser aproximadas de forma crítica

Faraco a norma gramatical deve ser o default da língua real e não o registro pasteurizado de escritores portugueses do seculo XIX

Borges. A linguística toma muitas estruturas teóricas da gramática normativa. Isso pode ser útil para defender a posição na qual eu mudo a cara destas estruturas, ao usá-las nos jogos.


Os EUA tornaram-se uma república por obra dos FFs. A estabilidade de uma monarquia fundamenta-se no monarca. A estabilidade de uma república fundamenta-se na lei — e, por conseguinte, no respeito à lei.

Como Tacitus e o “secret of empire”, o novo terrível segredo é o de que as regras só têm força se nós quisermos.


Normas da Bíblia. Muitos selecionam que regras querem seguir. Contrastar isso com as regras de um jogo.

Por exemplo, o Levítico e a homossexualidade. Outras normas do Levitico já não são seguidas.

https://en.wikipedia.org/wiki/The\_Bible\_and\_homosexuality

Paulo de Tarso. Primeira epístola a Timóteo, capítulo 1: a lei é boa, se é bem usada; os destinatários da lei não são os justos, mas os injustos.


REGRAS NÃO PODEM MUDAR A REALIDADE! TODA REGRA ESTABELECE UMA RESTRIÇÃO AO QUE É POSSÍVEL, MAS NÃO PODE CRIAR UMA CAPACIDADE QUE NÃO EXISTA!

Uma regra pode proibir alguém de falar algo. Mas nenhuma regra pode dar a capacidade de fala a quem já não a tenha.

Há aqui uma questão filosófica séria. Ela vai além de dizer que regras não existem na natureza. Regras restringem a natureza.

Investigar: toda regra estabelece restrições. Retornar a Suits. Meios menos eficientes. Acho que pode se aplicar a qualquer circunstância não-lúdica.


Rule of Law.

https://talkingpointsmemo.com/news/pompeo-ukraine-trump-nature-of-politics-power

É da natureza do poder querer exercitá-lo.


O pressuposto dos checks and balances é o da competição. O mesmo pressuposto governa os campeonatos de futebol. Mas há partidas combinadas. Sempre geram revolta, porque violam os pressupostos do jogo.

A propósito disso, um olhar sobre como os checks and balances de Esparta desabaram quando houve comunhão de interesses entre reis, éforos e gerúsia: https://acoup.blog/2019/09/12/collections-this-isnt-sparta-part-v-spartan-government/


https://boardgamegeek.com/thread/405444/rule-book-writing


IMPORTANTE

O Estado ocidental pré-moderno tinha diversos sistemas normativos concomitantes — direito consuetudinário, vontade real, lei divina. Sua legitimidade era buscada em fontes diversas: força, graça divina, hereditariedade (derivada das anteriores).

Com o Estado moderno, as leis passam a ser a fonte de legitimidade do Estado — o Estado de Direito —, e, ao mesmo tempo, a sua ferramenta por excelência.


No que diz respeito a capacidades humanas, as regras são sempre negativas, quer dizer, elas restringem o uso de uma capacidade humana. Uma regra não pode atribuir uma capacidade a quem não a tem. Pode apenas restringir o seu uso, ou conceder-lhe direitos, etc.


Quando a regra passa a incluir uma penalidade a um comportamento condenável, ele paradoxalmente se torna parte integrante do jogo.

A penalidade pode ser aplicável dentro do próprio jogo — como a falta no futebol. Ou pode ser aplicável ao metajogo — como perder pontos no campeonato. Nos dois casos, os jogadores passam a poder avaliar a relação custo-benefício entre a penalidade e a vantagem lograda com o comportamento condenável.

O caso da partida de Cricket é emblemático. É equivalente a um gambito. Aceita-se um prejuízo para que ele traga um benefício que é considerado mais relevante.

Minha própria situação no OP-30. A penalidade para o comportamento condenável era desconhecida. Fosse conhecida, talvez eu não agisse da mesma maneira.


Ao falar em meios menos eficientes, Suits está vendo o jogo de fora do sistema. De dentro do sistema, não são os meios menos eficientes. A própria vitória é uma definição interna ao jogo. Fica pior no caso de jogos que não têm vitória e finais definidos.

Dentro do sistema, as capacidades humanas são redefinidas. Não são as capacidades totais do jogador. Isso fica mais claro no caso de um jogador digital.


Para qualquer sistema baseado em regras, existe a necessidade de uma metarregra: as regras serão aceitas e implementadas.

Caso de Bolsonaro no pôquer e as instituições no xadrez. This isn’t the enemy we wargamed.

O caso do Nomic.


Hobbits: as regras são obedecidas porque são as regras

Abrir a tese com uma discussão sobre isso. Introdução?


Qual é o poder das regras?

Regras não podem se autoimplementar.

O poder das regras é retórico. O legislador quer motivar as pessoas a agirem como ele deseja.

As regras são construtos sociais.

A partir da segunda metade do século XX, como em tantos outros campos, descobrimos que as regras são as regras somente se quisermos.

Cf. Bretton Woods e o dinheiro. Cf. os hobbits e as regras que são porque são. Cf. o direito de origem divina.

O rei está nu. Se a opinião de um vale tanto quanto a de outro, então a minha opinião de que fatos são irrelevantes é tão válida quanto a de quem se fundamenta em fatos. Não faz diferença que a minha leve ao desastre e a outra não, porque o desastre vai acontecer no futuro e eu não vou me dar conta dele agora, que é o único momento que existe. Quantas pessoas aparecem dizendo que “se eu soubesse, não teria fumado / deixado de usar máscara”? Mas sabiam. Só que era a verdade de outros, não a sua.

Enquanto, como sociedade, nos iludimos, pensando que as normas eram externas ao sistema, nós as obedecíamos por temor reverencial.

Quando descobrimos que nós as criamos — mais, quando descobrimos que nós as realizamos! —, perdemos a reverência.

Transformamo-nos em Aleister Crowley. “Faça o que quiser é a totalidade da lei”.

O abismo aguarda os lemingues.

Mais um efeito pernicioso da propaganda. Transformou a retórica em rebotalho. Os Cíceros e Césares de hoje são youtubers e twitters, vendendo indignação.

Criando regras

Nossa espécie cria regras o tempo todo. É uma das perspectivas cognitivas que adotamos para pôr ordem no que percebemos no ambiente — é como regramos o mundo.

Piaget tem razão, e eu vou além: criar regras faz parte do aprendizado. Mais ainda: criar regras que possam se integrar ao sistema normativo da sociedade na qual estou inserido.

Regras pessoais. Hábitos. Reações consistentes ou coerentes a estímulos semelhantes.

O caos incomoda. Trump é caótico. Ele não segue regras, e se recusa a permitir a criação de regras a seu respeito.

Huizinga, Piaget, Elias

Todos eles perceberam perspectivas diversas do problema das regras.

Elias coloca o autocontrole como fundamento da civilização. As regras não são autoimplementadas, mas dependem de atos de vontade. Elas são a manifestação externa do autocontrole. Regras internas existem, mas há uma diferença qualitativa significativa quando elas são externadas. Cria-se uma dupla expectativa: eu vou cumprir a regra? os demais vão cumprir a regra?

Piaget mostra que aprender a usar regras é um passo essencial no desenvolvimento infantil. Usar e não seguir, ou cumprir. Usar inclui seguir a regra, mas também inclui interpretá-la, criá-la — e transgredi-la!

Huizinga mostra como isso adquire contornos sagrados. O círculo mágico é o espaço no qual as regras existem. Criar o círculo é crias as regras que o definem e que o regem; entrar no círculo é usar estas regras. Isso é sagrado! Estar fora do círculo é sacer, é o exílio, é a exclusão. Estar dentro do círculo e violar o seu estado é tabu.

Os deuses e suas regras

Regras. Regularidades. O regular nos conforta.

Tantas cosmogonias tratam do ordenamento, do regramento do mundo.

Mas os deuses também estão sujeitos a regras.

Quando aprendemos a proclamar deuses onipotentes, isso criou paradoxos. O paradoxo do inamovível/irresistível é meramente por definição do sistema. Mas o paradoxo do mal é perene, exceto no malteísmo — e a espécie foge do malteísmo.

Foge dele, porque quer ter uma relação especial com seu deus. Os incréus podem arder, eu estou salvo!

Ironicamente, a divindade onipotente é também a divindade que leva ao fatalismo. Deus pode tudo, inclusive ser caprichoso, inclusive mostrar que as minhas regras são mera fantasia de uma espécie pretensiosa no meio do universo.

Atitude lusória

A atitude lusória é pressuposto do jogo.

Há um pressuposto equivalente para a sociedade civil.

Há pressupostos do sistema democrático que são violados corriqueiramente. Um deles é o dos checks and balances. Quando os vigiados se mancomunam com os vigilantes, o pressuposto é invalidado.

Lula, Bolsonaro e Trump violam um dos pressupostos para os mandatários. O pressuposto de que querem ser estadistas e presidir um país. Na verdade, querem usar o Estado para seu benefício, monetário ou de outra natureza.

Necessário definir um equivalente a atitude lusória.

Bentham

O Direito conhece a diferença entre regras morais — mores — e regras positivas.

O que o meu trabalho traz de novidade é mostrar a significância e a importância destas regras no campo dos jogos.

Por sua vez, mostrar isso permite inverter o sentido, e usar os jogos para iluminar alguns aspectos daquela relação entre direito positivo e mores.

Averiguar https://en.wikipedia.org/wiki/Ethical_dilemma

Paul Valéry

“Les conventions sont arbitraires, ou du moins se donnent pour telles ; or, il n’y a pas de scepticisme possible à l’égard des règles d’un jeu.

Ce mot peut scandaliser. Faire entendre que l’art classique est un art qui s’oriente vers l’idéal du jeu, tant il est conscient de soi-même, et tant il préserve à la fois la rigueur et la liberté, c’est sans doute choquer ; mais ce n’est, je l’espère, que choquer un instant, le temps même qu’il vous souvienne que la perfection chez les hommes ne consiste et ne peut consister qu’à remplir exactement une certaine attente que nous nous sommes définie.”

Paul Valéry, Discours de réception à l’Académie française.

https://www.academie-francaise.fr/discours-de-reception-de-paul-valery

Contexto: Valéry se refere às convenções da Arte.

Pós-verdade

https://en.wikipedia.org/wiki/Post-truth