2021-02-11
Sobre a fé como pressuposto necessário para um jogo. Depois de ler a Wikipedia sobre a veracidade das declarações de Donald Trump, ocorreu-me que esta fé leva a uma consequência curiosa: quem tem fé resiste a modificá-la.
A fé de que o outro joga pelas regras também é resistente a fatos e indícios.
Logo, a transgressão sistemática de normas sociais — especialmente normas sociais que dizem respeito à motivação de outro participante — pode ser usada como arma. Trump usa isso. Ele se vale da fé que as pessoas têm nos políticos, no sistema político, da resistência em acreditarem que os líderes sejam criminosos — e, especialmente, da resistência em acreditarem que alguém possa perverter as normas sociais, já que a principal norma social é “isso não se faz”.
Publicar na Medium, em inglês. From Game to Democracy.
Começar falando sobre o jogo como sistema normativo, passar ao fato de que, nestes sistemas, a implementação das regras sempre é realizada pelas pessoas; falar que todo jogo é cooperativo, porque depende da atitude lusória; que isso implica uma questão de fé.
A partir desta fundamentação, ampliar o escopo e repetir as questões até chegar ao Paradoxo da Tolerância, propondo minha solução para ele.
Em conversa com o Adriano:
Hoje eu prossegui esta reflexão. Penso que há uma característica da fé que é relevante para entendermos o que acontece, por exemplo, com eleitores de Bolsonaro e de Trump. A fé de que estão todos jogando o mesmo jogo, pelas mesmas regras, pode ser uma fé tão forte, e tão resistente a mudança, como qualquer outra. Os mesmos mecanismos de dissonância cognitiva agem para que essas pessoas, apesar de todas as evidências em contrário, mantenham sua fé laica — por exemplo, “ele é o presidente, o presidente não mente e não comete crimes”.
Adriano Aqui sim, há um forte elemento messiânico. Já identificava isto na figura do molusco, depois nos seus “ungidos”, como se fossem apóstolos, absolutamente incólumes e intocáveis, portanto, santificados. Certamente há uma fé arcaica, mágica, típica do discurso evangélico pentecostal
Concordo inteiramente, mas vejo esta fé mesmo em pessoas culturalmente afastadas deste “messianismo raiz” — tanto à direita quanto à esquerda, note-se. O caso é que eu percebo um componente de fé como base de sistemas normativos, de qualquer natureza.
Norbert Elias escrevei que o autocontrole é o pressuposto do processo civilizatório. Concordo, e noto que “eu não vou fazer” é exatamente uma norma (uma autonorma, por assim dizer). Mas uma condição subsequente, igualmente necessária, é acreditar que meu vizinho também terá autocontrole — é ter fé em sua disposição ao autocontrole. Somente a partir daí podem vir as normas.
Esta não é uma fé religiosa ou messiânica. Mas é um comportamento social que tem como base o mesmo mecanismo de fé.
Quem tem fé, afinal, acredita ainda que não haja evidências diretas — e, depois que a fé se instala, mesmo contra elas.
Adriano Sim, de fato, há certa “fé” ou crença compartilhada. O único problema de falarmos nesta direção é uma extensão demasiada da noção de Fé. Mas o princípio é o mesmo, seja na ciência, na política, na educação, na religião, etc.
Sim. E sim, concordo que isso extrapola o que geralmente se entende por fé. Mas isso é proposital. O modo tradicional envolve, ao mesmo tempo, um conjunto de mecanismos pessoais e a natureza do objeto no qual se tem fé. Eu quero me restringir apenas aos primeiros nesta reflexão. Se houver um termo mais adequado para isso, ficarei feliz em usá-lo.
Adriano Acabei de comprar mais dois livros do Gustave Le Bon que vão nesta mesma direção. “O problema da crença, por vezes confundida com o do conhecimento, é entretanto muito distinto. Saber e crer são coisas diferentes não tendo a mesma gênese. As opiniões e as crenças derivam, com a concepção da vida, na nossa conduta e, por consequência, a maior parte dos eventos da história” (Les Opinios et les Croyances, 1921).
Ótimo! Talvez “crença” seja melhor palavra, afinal…
Adriano Pois é, o problema é mesmo a linguagem, mas crença me soou bem, ainda mais vindo de Le Bon. Acabei de receber seu livro La Psychologie Politique, de 1912.
Adendo em 2021-02-23
Nescolarde-Selva, J., Usó-Doménech, J.L. & Gash, H. Belief, Knowledge and Faith: A Logical Modal Theory. Found Sci (2020). https://doi.org/10.1007/s10699-020-09677-x
Kenny, A. (2007). Knowledge, Belief, and Faith. Philosophy, 82(321), 381-397. Retrieved February 23, 2021, from http://www.jstor.org/stable/4619737
https://plato.stanford.edu/entries/faith/
Fé e crença são um assunto complexo. Vou dar preferência a usar “crença”.
@article{doi:10.1080/01969722.2015.1038471, author = {J. L. Usó-Doménech and J. Nescolarde-Selva and H. Gash}, title = {Guest Editorial: Belief Systems and Science}, journal = {Cybernetics and Systems}, volume = {46}, number = {6-7}, pages = {379-389}, year = {2015}, publisher = {Taylor & Francis}, doi = {10.1080/01969722.2015.1038471},
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