Contam os sábios — mas Deus é muito mais sábio! — que, em uma das terras infiéis do longínquo e misterioso Ocidente, um dia um homem entrou em uma loja chamada botequim, aonde os infiéis vão para consumir bebidas proibidas pela sabedoria do nosso Profeta — mil bênçãos recaiam sobre seu nome!
O iníquo proprietário serviu-lhe um copo de cerveja, e o infeliz bebeu um pouco, mas pôs-se a girar o restante em seu copo… até que, num gesto súbito, arrojou todo o líquido ao rosto do proprietário!
Este imediatamente pôs-se a protestar em altos brados, clamando pelas hostes infernais que levassem o seu agressor. Mas este ajoelhou-se aos seus pés, implorando perdão e bradando “é mais forte do que eu, não resisto, isso me desespera, mas não consigo evitar!”
Apaziguado pelo comportamento abjeto do infiel, o vil estalajadeiro recomendou-lhe que procurasse um dos magos existentes naquela terra, chamados “psicólogos”, e que se arrogam o poder sobre corações e almas — pois ignoram que somente o Altíssimo pode dispor sobre a alma do homem.
O homem jurou que o faria, e jurou ainda que retornaria, passados um ano e um dia, para que o patrão recebesse a justa paga pela sua bondade.
Ao fim de um ano e um dia, o infiel cumpriu sua palavra: retornou ao sórdido botequim, cumprimentou o proprietário, e lhe disse que cumprira sua palavra, e havia recebido uma alta recomendação do mago que o acolhera.
Incontinenti, o patrão serve-lhe novo copo de cerveja. Mas, para sua surpresa, após sorver um pouco do líquido proibido aos crentes, o homem mais uma vez arroja-lhe ao rosto o conteúdo do copo.
Furioso com o acontecido, que lhe mostrou que os desígnios de Deus são maiores que os desígnios dos homens, o vil patrão gritou “Não fostes ao mago psicólogo, por um ano e um dia?” Ouviu em resposta “Claro que fui. E foi ótimo! Não sinto mais culpa nenhuma em fazer isso.”
E todos viveram como iníquos infiéis, até sobrevir a Ceifadora.