Apreciando a alvorada

Sumário: Vendo os dedos róseos e os dourados cabelos de Aurora.

Publicação: 23 Jan 2021
Tempo de leitura: 2 min

Assuntos: sem-assunto
Palavras-chave: caminhadas fotografia poente pôr do sol de trombeta alvorada Brasília rádio-relógio música Lo Schiavo Götterdämerung
Pessoas: Aurora Monteiro Lobato Emília de Rabicó Carlos Gomes Richard Wagner Edvard Grieg Peer Gynt Lidia Cristina

Sou um eterno fascinado pelas cores do nascente e do poente. Crescendo em Brasília, quase sempre via um pôr do sol de trombeta.

O pôr do sol daquele dia estava realmente lindo. Era um pôr do sol de trombeta. Por quê? Porque Emília tinha inventado que em certos dias o Sol “tocava trombeta a fim de reunir todos os vermelhos e ouros do mundo para a festa do ocaso”. Diante de um pôr do sol de trombeta ninguém tinha ânimo de falar, porque tudo quanto dissessem saía bobagem.

– Monteiro Lobato, A Chave do Tamanho.

Vou tomar tento no que Lobato disse, e não vou falar bobagens sobre o poente. Mas vou falar um pouco sobre as alvoradas. Nas últimas semanas, tenho visto com frequência as cores de Aurora, passando da paleta noturna aos rosas e dourados.

Os dedos róseos de Aurora…

… e os seus cabelos dourados.

Quando eu era adolescente, tinha em minha mesa de cabeceira um rádio-relógio. Eu o deixava sintonizado na rádio Brasília. Meu horário de acordar era às sete da manhã, mas eu programava o despertador para tocar às 06:50 h. Tocava, e eu desligava o alarme, mas deixava o rádio ligado, ainda em silêncio, enquanto em dormitava um pouquinho mais.

Pelas 06:52 h, a transmissão da rádio Brasília começava, com os tons graves que abrem a Alvorada da ópera Lo Schiavo (“O Escravo”), de Carlos Gomes. A música acabava às sete horas, e eu levantava já bem desperto.

Nos anos seguintes, conheci outras duas lindas músicas, inspiradas na alvorada: a alvorada do Götterdämerung (“O Crepúsculo dos Deuses”), de Richard Wagner; e a alvorada do Peer Gynt, de Edvard Grieg.

Esta última tornou-se, anos depois, a música do despertar de Lidia, no nosso primeiro ano de casamento. A esta altura, eu já não tinha um rádio-relógio, mas um aparelho de CDs que podia ser programado para tocar em certo horário. Eu programava o despertar, usando um CD com a alvorada do Peer Gynt. Assim como acontecia com a música de Carlos Gomes, anos antes, a música de Grieg ajudava a começar o dia com um sorriso.

Nem faço ideia de quantos artistas, de todas as artes, terão se inspirado nas auroras e nos pôres do sol para suas obras. Vemos, nos céus, uma variação quase infinita, ornamentando umas das certezas da vida: enquanto estivermos aqui, veremos alvoradas e poentes.