Os jogos e eu

    Minha relação com os jogos é antiga. Ainda jovem, aprendi a jogar Xadrez com meu avô José. Quando comecei a estudar no Colégio Marista de Brasília, o Irmão Hilário continuou a ensinar-me as possibilidades deste jogo. Joguei e estudei muito o Xadrez, mas uma decepção em um campeonato de que participei tirou-me o gosto por continuar a me dedicar a ele.

    De qualquer maneira, a esta altura outros jogos já me tinham sido apresentados. Meu annus mirabilis lúdico foi 1978: conheci o Diplomacy e comecei a colecionar a Todos os Jogos, além de conhecer dois amigos que me acompanham até hoje: Marcelo e José Theodoro.

    Diplomacy

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    Versão brasileira do Diplomacy

    Marcelo e José Theodoro eram meus colegas no Marista, embora de outras turmas. José Theodoro foi-me apresentado por um grande amigo, Jader. Theodoro falou-me de um jogo interessante, 1914 — O Jogo da Diplomacia (a versão brasileira do Diplomacy). Ele me apresentou o Marcelo, e começamos a jogar.

    Fui fisgado imediatamente. Diplomacy é um jogo excelente, e ficava ainda melhor nas raras vezes em que conseguíamos mais jogadores (o ideal é jogar com 7 jogadores, mas isso era difícil de conseguir). Até hoje é um de meus jogos preferidos.

    Alguns anos depois de ter sido apresentado ao Diplomacy, tomei contato com o que era então o mundo deste jogo por via postal. Isso foi antes do advento da Internet comercial; os jogos eram conduzidos pelo correio, e moderados por pessoas que publicavam os resultados das partidas em fanzines feitos com máquina de escrever e xerox. Eu comecei a participar deste mundo por intermédio de um fanzine chamado Rambling Way, mantido por W. Andrew York ("Andy").

    Meu primeiro jogo foi um fiasco. Eu estava jogando com a versão brasileira, e não sabia que ela era uma versão pirata com modificações. Resultado: eu dei ordens que eram inválidas e entrei pelo cano. Eu publiquei uma nota no Boardgamegeek a respeito das diferenças entre a versão brasileira e a versão original; ela pode ser encontrada em http://www.boardgamegeek.com/thread/243212/brazilian-edition.

    De qualquer maneira, eu logo adquiri um exemplar da versão americana e pude participar das partidas sem mais percalços. Ao mesmo tempo, Andy convidou-me a escrever uma coluna para o Rambling Way, e eu comecei a mandar para ele The Brazilian Times.

    Em alguma de minhas mudanças, eu perdi as minhas cópias do Rambling Way, mas recentemente descobri que várias edições foram digitalizadas e encontram-se disponíveis na Internet, em http://www.whiningkentpigs.com/DW/rway.htm. As edições com meus textos são as de número 21, 23, 24, 26, 29 e 30.

    Todos os Jogos

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    Capa da coleção Todos os Jogos

    Em 1978, a Editora Abril decidiu aceitar uma ideia doida: publicar uma coleção em bancas de jornal, com fascículos quinzenais, nos quais vinham tabuleiros em papel e peças em plástico de jogos criados por várias culturas. A ideia era de Mário Seabra (1931-2012), o primeiro criador profissional de jogos no Brasil (http://www.ludomania.com.br/wp/?p=497). Pelo que eu soube muito tempo depois, o plano era publicar 27 números (o bastante para completar a caixa dos jogos) e, se tivesse havido procura suficiente, continuar depois a publicação.

    Isso não aconteceu; o número 27 foi o último publicado. A Abril ficou devendo alguns jogos prometidos, em particular o Go. Um de meus amigos, Marcus Vinicius, escreveu para a editora reclamando disso e mandaram para ele uma grande quantidade de peças, tabuleiros e regras, que teriam sido publicados se a coleção continuasse — e entre eles estava o Go. Seguindo a dica dele, fiz a mesma coisa e também recebi o pacote.

    Muito tempo depois, eu terminei por doar a minha coleção para meu amigo Edward. Infelizmente, ele a perdeu em uma mudança... nunca mais consegui achar alguém que tivesse a coleção mais-que-completa. Mesmo Marcus Vinicius não guardou a dele.

    Em todo caso, foi esta publicação que me abriu os olhos para a variedade do mundo dos jogos. Eu comecei então a ler avidamente tudo o que eu podia ler sobre o assunto, e — claro — também a jogar muito. Todos os Jogos foi publicada no auge da indústria de wargames nos EUA, e foi influenciada por eles; já o primeiro número da revista trazia um wargame introdutório da SPI, o Strike Force One (criado por Jim Dunnigan e Redmond Simonsen, e aqui chamado de Batalha das Quatro Horas). Outros dois foram publicados: Yom Kippur, de Aldo Pereira, e Wurzburg, de Jim Dunnigan (também publicado pela SPI).

    Mais uma vez fui fisgado, e meus amigos comigo. Não participei, mas soube até de um campeonato de Batalha das Quatro Horas realizado no colégio. Jogamos estes jogos muitas vezes.

    Cada exemplar da coleção incluía a Revista dos Jogos, uma revista com notícias e variedades sobre o mundo dos jogos. Um dos números da revista trouxe a notícia da publicação de um novo wargame pela SPI: The Campaign for North Africa, de Richard Berg. A descrição do jogo — 1.800 peças, um mapa com 3 metros de comprimento e outros detalhes — atraiu de imediato a minha atenção. Mas na época era impossível importar por via postal. Assim, quando o pai de um amigo, Gustavo, foi aos EUA em 1979, trouxe o jogo na bagagem. Gustavo desistiu de enfrentar o monstro e o vendeu para mim. Passei boa parte de 1980 traduzindo laboriosamente as regras e, no ano seguinte, eu e meus amigos encaramos o jogo.

    A Confraria Lúdica

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    A Confraria Lúdica em 2008

    Ao longo de 1979, José Theodoro, Marcelo e eu nos reuníamos praticamente todas as tardes da semana para jogarmos — principalmente wargames, Diplomacy ou War. Um dia, pensamos em criar uma organização mais formal para nosso grupo, e assim nasceu a Confraria Lúdica.

    Com o passar dos anos, outros amigos foram sendo incorporados à Confraria. Hoje os confrades estão espalhados por várias cidades do Brasil e do mundo, mas a amizade que se formou entre nós ao redor das mesas de jogo ainda perdura. Acredito que a Confraria seja o grupo de jogadores brasileiro mais antigo ainda em atividade.

    Nos anos que se seguiram, os confrades foram os meus parceiros preferenciais de jogos. Na década de 1980, quando eu já estudava na UnB, algumas vezes espalhei cartazes pelo campus convidando interessados a conhecer jogos. Poucos respondiam, mas os que o fizeram tornaram-se bons amigos e vários entraram para a Confraria. Também na década de 1980 conseguimos finalmente importar os primeiros jogos dos EUA, quase sempre wargames publicados pela Avalon Hill.

    Em 1984, a leitura de revistas internacionais sobre jogos e de alguns catálogos de empresas de jogos revelou um novo gênero de jogos, até então desconhecido para mim: os role-playing games.

    Role-Playing Games (RPGs)

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    Middle-Earth Role-Playing

    A ideia de converter histórias em jogos foi uma revelação. Eu tinha acabado de ler O Senhor dos Anéis, na edição da Artenova, e como não havia previsão de conseguirmos um RPG tão cedo, decidi criar o meu, baseando-o na história de Tolkien.

    Foi um desastre. Em retrospecto, hoje eu sei que o que eu fiz foi um railroading da pior espécie — ou seja, não dei decisões significativas para os jogadores e simplesmente os conduzi pela história. Ninguém gostou, e abortamos a tentativa quando a Sociedade do Anel chegava a Moria.

    Mas, em 1986, meu confrade Adriano viajou à França e de lá trouxe três RPGs: Middle-Earth Roleplaying (MERP, edição inglesa), Pendragon (edição francesa) e Rêve du Dragon (original francês). Isso finalmente me deu condições de jogar. Começamos pelo MERP, e Adriano tentou heroicamente decifrar as regras do Pendragon (já que meu francês era então inexistente). O Rêve du Dragon ficou de lado, e acabou sumindo na casa do Adriano.

    Desta vez deu certo. Eu logo assumi minha vocação megalomaníaca e tornei-me o mestre das partidas. Meus confrades foram minhas cobaias, e sofreram com isso — afinal, eu não apenas era um mestre inexperiente, como ainda não tinha material de apoio que me ensinasse a mestrar. Em todo caso, estas experiências serviram para ensinar-me uma arte preciosa para um mestre de RPG: a improvisação.

    Alguns de meus confrades se desinteressaram dos RPGs, outros continuaram a jogá-los. Novos jogadores foram entrando no meu círculo, quase todos oriundos da UnB. Conheci outros sistemas: do MERP passei ao Rolemaster e dele segui para GURPS, AD&D (2ª edição), World of Darkness, Call of Cthulhu e muitos outros. Com o passar do tempo minha capacidade como mestre cresceu, e hoje considero-me um mestre bem decente.

    As pressões da vida prática a esta altura tinham reduzido consideravelmente a disponibilidade dos confrades para os jogos de tabuleiro. Passei anos jogando quase que apenas RPGs, com um ou outro wargame de vez em quando. Durante a década de 1990, joguei por alguns anos os trading card games como o famoso Magic: the Gathering, mas minha concentração era mesmo nos RPGs. Mesmo o fim da Avalon Hill, em 1998, causou pouco impacto.

    Os jogos digitais me atraíram por algum tempo, mas as limitações inerentes ao meio digital — especialmente antes da Internet comercial — terminaram por reduzir o seu apelo.

    Em 2005, eu e Theodoro decidimos nos aventurar pelo mercado de wargames e fizemos uma sociedade para republicar o Wurzburg. Compramos da Decision Games os direitos de publicação em português e fizemos uma pequena tiragem. Não tivemos sucesso, mas quando eu fui procurar maneiras de divulgar o lançamento acabei descobrindo que outra revolução no mercado de jogos estava acontecendo no exterior: a volta dos jogos de tabuleiro.

    Os Jogos de Tabuleiro Modernos

    Foto do salão de jogo durante o Primeiro Retiro Lúdico, em 2013
    Primeiro Retiro Lúdico, abril de 2013

    Comecei a tomar conhecimento dos jogos que estavam conquistando corações e mentes pelo mundo com alguns clássicos, como o Puerto Rico e o Carcassonne. Em 18 de novembro de 2006 participei da primeira jogatina aberta de Brasília, patrocinada pelo Jean Marconi Carvalho, que usou o nome da Festa do Peão de Tabuleiro (criado por um grupo de jogadores de São Paulo para os seus eventos).

    Nos anos seguintes continuei a me embrenhar por este novo mundo lúdico. Conheci jogos cooperativos, como o Shadows Over Camelot; jogos estratégicos, como o Caylus; jogos abstratos, como o Ubongo; e muitos outros.

    Em 14 de abril de 2007 abri as portas da minha casa para a 1ª Open House Lúdica, e dezesseis pessoas apareceram para jogar. As Open Houses Lúdicas continuaram, sem periodicidade regular, e cheguei a reunir mais de 40 pessoas para jogarem. Nestas reuniões tive o prazer de conhecer muitos novos amigos, e especialmente tive a oportunidade de conhecer e prestigiar os primeiros passos de dois grupos que hoje marcam a vida lúdica de Brasília: o Heavy Games Brasília (https://www.facebook.com/HeavyGamesBrasilia) e o D30 RPG (http://www.d30rpg.com.br/).

    Quando me mudei para Curitiba em dezembro de 2009, comecei a procurar jogadores na cidade. Encontrei poucos e esparsos jogadores, e assim passei a procurar fomentar o hobby aqui. Por meio da Internet e da propaganda de boca, fui aos poucos conseguindo reunir um bom grupo de jogadores. Na época eu mantinha um forum aberto nas páginas da Confraria, e este grupo passou a utilizar o forum como ponto de encontro e de conversa. Em 13 de novembro de 2010, ajudei a organizar o I Curitiba Lúdica, do qual participaram 46 jogadores; o evento tornou-se bimestral e, em edições posteriores, chegou a reunir mais de 100 participantes.

    Em fins de 2012 ingressei no curso de Mestrado em Design da UFPR, para realizar uma pesquisa acadêmica sobre jogos. Em 2013, comecei a organizar o Retiro Lúdico, um evento de jogos com alcance nacional.


    Nota: publiquei uma geeklist sobre um assunto correlato; ela pode ser encontrada em http://www.boardgamegeek.com/geeklist/26208/minha-vida-em-jogos-portuguese.

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