Heroísmo

Olhando para os heróis de que sempre precisamos.

Ontem, nossa capital foi assaltada por uma turba armada e perigosa. Hoje, vejo um sem-número de chamamentos e anseios: muitos querem atos extraordinários, em reação à barbárie que presenciamos na praça maior de nossa coisa pública.

Atos extraordinários. Ou melhor, atos heróicos. Mais uma vez, queremos heróis que nos protejam de um perigo que percebemos, mas que não entendemos, e do qual não vemos como nos proteger. Queremos os heróis que salvem a República dela mesma!

A República tem uma importante base nas leis da antiga Roma. Também herdamos uma das lendas romanas, a lenda de L. Quinctius Cincinnatus, o patrício que abandonou sua fazenda quando foi convocado para assumir o comando da defesa da cidade; e, após derrotar o inimigo em duas semanas, devolveu os poderes extraordinários que lhe haviam sido conferidos, e voltou a sua fazenda.

É uma bela lenda, que exemplifica um belo heroísmo cívico.

Continua a ser uma lenda.

Provavelmente teremos respostas extraordinárias a estes atos criminosos – e peço licença para lembrar que o crime sempre é um ato extraordinário, não importa a sua magnitude. Já temos algumas destas respostas, e o furor está a exigir mais delas. Estamos procurando os heróis do momento!

Filme velho, enredo batido.

Prefiro lançar os olhos para outros heróis; honrá-los e, humildemente, agradecer por seu heroísmo.

Heroísmo não é realizar atos extraordinários: é realizar atos ordinários, profundamente mundanos, mesmo em meio a circunstâncias terríveis.

Vejo o heroísmo dos lixeiros que passam por minha casa, e dos que estão limpando o que os terroristas de ontem fizeram; vejo o heroísmo dos catadores, que vão procurar no resultado do trabalho dos primeiros o sustento para si e para os seus.

São heróis os que não desesperam, ou mesmo os que desesperam, mas continuam a ir para seus locais de trabalho, e fazem seu trabalho diligentemente.

Para cada médico que se comportou de forma heroica durante a pandemia, que ainda não acabou, quantos auxiliares terão feito o mesmo? Em algum lugar, deve haver uma estatística sobre quantos médicos morreram cumprindo seu dever; mas, como sempre, os heróis mais humildes são enterrados, incontados, em valas comuns.

Para cada professor que persiste em transmitir seu conhecimento a uma sociedade cada vez mais surda, quantos alunos há que querem ouvi-lo?

Sou privilegiado, sou afortunado, sou felix – pois vejo muitos heróis à minha volta, em toda a minha vida, e sei que devo muito a eles.

Meu agradecimento: tentar seguir seu exemplo.

O Quartel-Mestre
O Quartel-Mestre
polímata
filomático
pesquisador
escritor

LUIZ CLÁUDIO, o Quartel-Mestre, the Rules Lawyer, conversa e escreve sobre jogadores e jogos de todos os tipos, sobre ludologia, narrativas, poesia, e mais.

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