Brasas

Sobre brasas e as cinzas que as abafam.

Os cabelos de Fernanda eram de um ruivo vivo. Não escandaloso, mas marcante. Ela nunca os pintou. Quando os primeiros fios brancos começaram a aparecer, ela ria, dizendo que eram cinzas sobre a brasa.

Nós nos conhecemos na universidade, calouros da mesma turma de medicina. Nesta época, já brincávamos com a associação de seu cabelo a uma brasa. A analogia era fácil: Fernanda aquecia qualquer lugar com sua presença. Seu sorriso era contido, mesmo raro; mas seus olhos tinham o brilho de outras brasas, estas de um mel quase esverdeado. Detestava ser julgada por sua beleza, e ao mesmo tempo abominava quem mal a conhecia e já julgava – “nossa, você deve ser muito inteligente”.

Bom, eu mesmo não sei qual destes traços primeiro me atraiu. Não importa, eu me apaixonei pelo pacote completo. Paixão à distância, infelizmente. Nós nos entendíamos muito bem, mas nossa amizade foi se aprofundando ao mesmo tempo que o namoro dela com um imbecil, que depois se tornou seu marido. É, eu sei, mas a opinião não era apenas minha; outros amigos nossos a compartilhavam. Mas Fernanda insistiu e persistiu.

Continuamos a nos encontrar com frequência, mesmo depois que nos formamos. Após alguns anos, nos descobrimos trabalhando no mesmo hospital. Ela fez carreira na Neurologia, eu na Radiologia. Sempre tive a impressão que a alma dela não estava ali, embora fosse uma excelente médica. Ao longo da nossa amizade, fui descobrindo que sua vida tivera um forte impacto de expectativas de várias pessoas importantes para ela. Ela fazia questão de desafiar as expectativas, para depois cumpri-las por vias tortuosas. Talvez coisa parecida tenha acontecido com seu casamento; eu sempre evitei discutir este tema com ela, sabia que os meus sentimentos facilmente viriam à tona. Eu mesmo tive que lidar com diversas expectativas, e com o choque de deixar de ser um estudante para me tornar um profissional.

As brasas que Fernanda tinha deixado em minha alma continuaram a aquecer meus sonhos, delírios e fantasias, por muito tempo, o que não me impediu de também casar. De fato, minha filha tinha poucas semanas de vida quando eu soube, por um amigo, que Fernanda tinha se separado do imbecil. Hesitei em procurá-la, e somente meses depois conseguimos conversar; mas ela não levou a conversa para sua separação, e não insisti.

Meu casamento também chegou ao fim, depois de alguns anos; Fernanda estava novamente casada, a esta altura. Brinquei com ela, dizendo que nós tínhamos que aprender a sincronizar as nossas separações. Nesta fase da minha vida, eu já não me incomodava em demonstrar a ela os meus sentimentos, mas ela polidamente fingia não dar por eles. Pelo menos Sérgio, seu marido, era um homem decente, e fiquei feliz em saber que ela estava em boa companhia.

Os fios ruivos iam embranquecendo aos poucos. Fernanda brincava, dizendo que eram os seus cronômetros, e que ela morreria quando as cinzas abafassem a brasa. Nenhuma surpresa em médicos que fazem piadas com a morte, claro; mas a surpresa veio bem antes que as cinzas abafassem toda a brasa.

Muita gente foi ao funeral. Felizmente, Sérgio preferiu deixar o caixão fechado, e eu não precisei conflitar as minhas memórias queridas com a dura realidade.

Algum tempo depois, Sérgio foi ao hospital, para resolver alguma questão burocrática qualquer, e me procurou. Dei-lhe um abraço, e ficamos uns momentos nos amparando. Depois que nos separamos, ele pegou um grande envelope e me entregou.

– O que é isso?

– Fernanda escreveu para você.

– Ela pediu para você me entregar… depois…

– Não. Eu encontrei estas cartas nos papéis dela. Ela nunca me disse nada.

– Não entendo.

– Não faz mal. Ela escreveu para você, estas cartas são suas.

Deu-me outro abraço apertado e saiu.

Preferi deixar para abrir o envelope em casa.

Fiz bem; depois de ler algumas das cartas, servi-me um copo de uísque. Felizmente eu não tinha que trabalhar na manhã seguinte.

Eram várias dezenas de cartas, arrumadas em ordem cronológica. Fernanda as escrevera a mão, em sua letra rápida, mas sempre clara. A primeira fora escrita poucos meses depois de nos conhecermos. Nela, minha amiga explicava que ela gostava de escrever cartas para algumas pessoas, mesmo sabendo que nunca as entregaria. Lembrei imediatamente do filme Cartas para Julieta, e pensei que Fernanda deveria ter ficado encantada ao ver na tela algo como o que fez por anos.

As primeiras cartas eram marcadas pela sua simpatia. Desde o início, ela deixava transparecer que sua reserva e sisudez, na vida acadêmica e profissional, eram uma escolha consciente; uma maneira de lidar com aquelas expectativas tão cretinas e daninhas. Menina, aluna, mulher, namorada, noiva, esposa, médica, linda, inteligente: ela sempre parecia estar a braços com ideias preconcebidas sobre ela. Senti-me um perfeito idiota lendo o que ela me confidenciava ali, porque muito daquilo eu não tinha notado, ou notara apenas superficialmente.

Mas fui percebendo que ela escrevia estas coisas porque confiava em mim, porque me respeitava – e porque me admirava. Escrevia, deixando claro que sabia que eu nunca leria aqueles textos; mas, ao mesmo tempo, tinha certeza que eu respeitaria e entenderia o que ela me contava ali.

Não havia muitas regularidades nas cartas. Às vezes eram várias escritas em intervalos curtos, às vezes passava-se muito tempo entre uma e outra. Algumas eram curtas, com uns poucos parágrafos; outras enchiam várias páginas.

Algum tempo depois do seu primeiro casamento, ela escrevia como estava decepcionada com seu marido, e de como lamentava não ter levado mais a sério os avisos sobre ele. Na mesma carta, ela dizia que gostava muito de mim, e que tinha certeza que poderíamos ter sido muito felizes juntos, mas que ela não se tinha permitido estes sentimentos, em respeito a seu compromisso com o sujeito.

Precisei interromper a leitura um pouco nesta altura. Não sabia se o que me embargava a garganta era choro ou raiva. Ou ambos. Joguei um pouco de água no rosto, servi mais um pouco de uísque, e disse a mim mesmo que não valia a pena voltar a sentimentos de tantos anos atrás. Voltei às cartas.

Fernanda foi se abrindo mais, à medida que seu casamento definhava. Lendo, entendi porque eu sempre achei que sua alma não estava em seu trabalho: ela estava ali, naquelas folhas de papel. As palavras se tornaram seu brinquedo e sua válvula de escape; ela falava a mim, mas não para me dirigir as suas palavras, e sim para libertá-las.

Nas cartas, nos tornamos amantes. Nem mesmo houve uma primeira vez para nós: Fernanda escrevia como escreveria para alguém que já tivesse explorado todo o seu corpo, que estivesse familiarizado com seus toques e seus quereres. O texto passava tranquilamente do lírico ao pornográfico, às vezes na mesma página.

Mesmo depois de seu segundo casamento, as cartas continuaram. Procurei minha agenda antiga e confirmei: uma de suas cartas foi escrita quando ela estava em lua-de-mel com Sérgio.

Usei um de meus truques mais antigos. Refugiei-me da dor em minha mente analítica. Continuei a ler, desta vez notando (ou inventando?) detalhes que me dessem pistas sobre o que eu estava vendo ali, sob aquelas palavras que expressavam amor, humor, tesão, respeito, tristeza, alegria. Retornei às cartas mais antigas, e percebi que a pessoa a quem ela escrevia era sempre eu, mas não o real e sim o que ela imaginava.

Mais adiante, uma das últimas cartas mostrava que ela sabia muito bem disso.

Amado, você é o sonho que me inspira. Não importa se é um sonho no qual você me fode até eu ficar sem fôlego, ou se é um no qual passo as mãos por seus cabelos, enquanto falamos sobre a vida, o universo, e tudo o mais. Com você eu viajo sem deixar minha vida, eu descubro sensações e prazeres que nunca vou experimentar. Sei muito bem que a nossa realidade seria muito diferente; e eu nunca quis admitir nem reconhecer os seus sentimentos, porque tenho muito medo de como seria nossa vida juntos. Passei anos construindo este sonho e não quero que ele seja destruído pela realidade. Meu amor, meu anjo, meu gato, meu macho: é egoísmo meu, eu sei, mas é assim que eu quero você.

Meu refúgio analítico me permitiu acabar de ler as cartas. Fiquei um longo tempo sentado, olhando para o nada, e nem tenho ideia do que pensei.

Quando afinal me movimentei, estava me sentindo abafado. Fui até a porta da varanda e a abri. A Lua estava alta no céu, mas as nuvens já prenunciavam a aurora. Voltando para a poltrona, notei que a garrafa de uísque estava quase vazia. Dei de ombros, mentalmente, e servi o resto no copo. Fiquei de pé, bebendo aos poucos, e vendo as nuvens mudando formas e cores.

Voltei a pensar em brasas e cinzas. As cartas de Fernanda haviam soprado a brasa que eu guardava, quase extinta mas ainda acesa. Sopraram, fortes como um fole de forja, e assim a consumiram, em um último fulgurar de glória. Agora, cinzas.

A Lua já havia baixado um pouco no céu. Sorri para ela, sentindo os olhos úmidos. Levei a palma da mão à frente da minha boca e soprei em sua direção, como quem sopra cinzas.

Como quem joga um beijo.

O Quartel-Mestre
O Quartel-Mestre
polímata
filomático
pesquisador
escritor

LUIZ CLÁUDIO, o Quartel-Mestre, the Rules Lawyer, conversa e escreve sobre jogadores e jogos de todos os tipos, sobre ludologia, narrativas, poesia, e mais.

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