Selene

Ela desceu à Terra para dançar.

Não vi a hora em que ela chegou à casa. Mas eu a notei quando ela foi para a pista. Dançava como se estivesse mergulhando em águas cristalinas.

Estava sozinha, mas não demorou a ter companheiros de dança. Ela sorria para todos, um sorriso que iluminava seu rosto, parecendo fazer parte dele; mas ao mesmo tempo parecia estar sempre atrás de um véu de nuvens. Vi um camarada se inclinar para ela, tentando lhe falar em meio à batida da música, mas ela apenas sorriu e continuou a dançar. Outros pareciam felizes, como eu, em vê-la dançar, às vezes com os olhos fechados. Ninguém voltou a abordá-la.

Em certo momento, ela abriu os olhos, olhando as pessoas a seu redor, como se procurasse alguém. As nuvens se adensaram um pouco, e ela seguiu para a curta escada da pista. Eu estava ali, e sem dizer nada entreguei-lhe uma garrafinha de água. Ela sorriu em agradecimento, abriu a garrafa e bebeu metade dela, devagar, logo devolvendo a garrafa. Estendi a outra mão, e ela aceitou minha ajuda desnecessária para o último degrau. O sorriso estava de volta; ainda guardado, mas as nuvens pareciam ter se dissipado.

Levei-a para uma mesa vazia, e sentei ao seu lado na bancada. Aqui era possível conversar um pouco, mas o som alto exigia que ficâssemos bem perto um do outro para isso. Ótimo para mim.

“Obrigada pela água.” Ela pegou a garrafa para beber mais um pouco.

“Foi um prazer. Mas, agora que já nos conhecemos, posso lhe oferecer outra coisa. Que tal um Kir Royale?”

“Acho que nunca tomei.”

“Experimente, acho que vai gostar.” Ela assentiu, e chamei um garçom para pedir dois cálices. Depois que ele se afastou, ela continuou.

“Mas nós ainda não nos conhecemos. Você não sabe meu nome, e eu não sei o seu.”

“Você ainda não sabe o meu nome, mas eu sei o seu.” O sorriso se apagou.

“Como assim?”

“É fácil. Este sorriso que ilumina a escuridão, os cabelos azuis com brilhos de estrelas, vestida com a noite… você é Selene, a Lua, que desceu hoje para dançar e iluminar a minha noite.”

O sorriso voltou, agora quase radiante.

“Ah! Já vi que você é um poeta!”

“Não. Esta ousadia eu não tenho. Mas tenho outras, que posso lhe mostrar.”

Ela sorriu novamente, e deixou que eu tomasse sua mão e a beijasse, primeiro nos dedos e depois a palma.

“Então você adivinhou meu nome, mas eu ainda não sei o seu.”

“Órion.” Ela me olhou, confusa, e eu continuei. “O caçador da noite, sempre procurando alcançar a Lua.”

Outro sorriso, feliz com a brincadeira. “Hoje você conseguiu me pegar, caçador. E o que vai fazer comigo?”

“Ora, vou lhe mostrar as minhas ousadias.” Ela deu uma risada, e voltei a beijar a palma de sua mão.

As bebidas chegaram. Ela provou um pouco, sorriu com o cálice nos lábios, e tomou mais um pouco.

“É gostoso mesmo.” Pousou o câlice sobre a mesa, e pareceu falar a outra pessoa. “Mas hoje eu não preciso beber.” Voltou o olhar para mim e aproximou o rosto para um beijo. Coloquei a mão sob seus cabelos e a puxei para mim.

Não demoramos a sair, e em pouco tempo estávamos em um motel. Ela era uma amante deliciosamente entusiasmada, entregando-se ao prazer como se estivesse dançando novamente. Agora eu via o seu sorriso aberto, livre, e eu também mergulhei fundo naquelas águas acolhedoras.

Acordei com as primeiras luzes da manhã. Ela ainda dormia, o rosto sereno, os cabelos azuis desordenados sobre o travesseiro. Fiquei ali, bebendo o que via.

Ela abriu os olhos e sorriu para mim. Dei-lhe um beijo leve na testa, e comecei a cantar, baixinho:

The moment I wake up
Before I put on my make-up
I say a little prayer…

Parei. Seus olhos haviam se enchido de lágrimas. Ela fechou os olhos, afastou o lençol, e puxou minha cabeça para seus seios, soluçando um pouco.

Voltei a acarinhá-la.


Pós-escrito

Esta história nasceu do encontro de duas ideias. Uma foi conversando com minha irmã, dias antes de seu casamento, quando lembramos do filme “O Casamento do Meu Melhor Amigo”, e do grupo cantando no restaurante; a segunda foi uma foto que eu havia encontrado dias antes, no Twitter, com uma moça de cabelos azuis e rosto um tanto melancólico. Ainda juntei outras memórias ao escrevê-la: a pista de dança é a da boate Desiree, de Curitiba; pensei no Kir Royale vendo minha irmã bebendo um drinque colorido.

A história de Selene estava na minha mente quando acordei, depois de minha segunda noite em Belo Horizonte. Não aquietei enquanto não a escrevi.

O Quartel-Mestre
O Quartel-Mestre
polímata
filomático
pesquisador
escritor

LUIZ CLÁUDIO, o Quartel-Mestre, the Rules Lawyer, conversa e escreve sobre jogadores e jogos de todos os tipos, sobre ludologia, narrativas, poesia, e mais.