Mundo liberal

Publicado em 01/06/2022

Há alguns dias, tive a oportunidade de ter o primeiro contato com a chamada comunidade liberal. Não se trata de liberalismo econômico ou político: refiro-me ao mundo da troca de casais, ou swing. Em especial, fui a uma casa de swing de Curitiba, em uma noite na qual aceitam a presença de solteiros.

Esta última frase pode soar estranha – “aceitarem solteiros? Não são liberais?”

Pois é. Uma das coisas mais interessantes das comunidades liberais é que eles têm uma grande quantidade de regras de conduta; os habitués do meio liberal gostam de brincar com isso. Mais abaixo, falo um pouco mais a respeito disso – e ainda examino isso à luz da minha pesquisa sobre regras!

A visita

Fui acompanhado por um amigo. É necessário fazer a reserva antecipadamente. A casa abre às onze da noite, e fecha às cinco da manhã; chegamos pelas onze e meia. Havia uma equipe de segurança do lado de fora, que nos identificou e conferiu com a lista de reservas. Estacionamento grande, muito escuro, com manobristas.

Não havia fila para entrar. Mais seguranças na entrada, bastante atenciosos. Pediram para nos revistar. Pagamos a entrada, deixamos celulares e casacos na chapelaria, e entramos.

Um dos seguranças nos ciceroneou pela casa e foi falando as regras da casa. Falo mais adiante dos ambientes.

Ainda havia poucas pessoas quando chegamos, mesmo na pista de dança. Quase todos casais; algumas mulheres solteiras (uma pulseira identifica solteiros e solteiras). Grupos animados, claramente formados por pessoas que já se conheciam. Homens com trajes arrumados, mas nada de extraordinário. Mulheres com trajes “balada sensual”; algumas um pouco mais ousadas, mas nada de chocante. Tipos físicos e aparências bem normais. Faixa etária, acho que de uns 25 a uns 40 na maioria, mas havia alguns casais de gente mais velha. Vários seguranças acompanhavam discretamente os acontecimentos.

Pela meia-noite, o DJ anunciou que a casa ia esquentar. Quatro dançarinas escassamente vestidas subiram à plataforma de pole dance. Uma delas cumprimentou, toda alegre, uma das moças que estava na pista. Mais uma indicação de que é uma turma que já se conhece. As moças ficaram dançando, segurando o poste. Depois de algum tempo, uma moça da pista subiu para acompanhá-las. Seu parceiro ficou logo atrás, aproveitando para acariciá-la discretamente. Nesta altura, começou a chegar bastante gente, e a pista ficou movimentada.

Ficamos um pouco mais. Circulamos um puco, passamos algum tempo sentados junto à pista. Não vimos nenhuma baixaria ou comportamento escandaloso. Quando saímos, perguntei à moça da chapelaria, e ela me confirmou que a casa ainda estava vazia, e que depois de uma hora da manhã é que o agito começava de verdade.

Os ambientes

Como eu disse, um dos seguranças nos mostrou os ambientes da casa, e falou das regras. Ele foi bastante direto ao falar que não se podia assediar as mulheres, passar-lhes a mão sem o seu consentimento, etc.

A casa tem dois ambientes separados da pista de dança. Um deles é exclusivo para casais, que podem convidar solteiros para acompanhá-los. O outro permite a entrada de solteiros.

O ambiente de solteiros tem o “aquário”: um quarto com uma cama, um sofá e uma parede de vidro. Quem está fora vê quem está dentro, mas não o contrário.

Há cabines privativas, com uma cama redonda em cada uma. O corredor devia ter uma oito cabines; um banheiro misto fica na ponta deste corredor.

O quarto escuro, segundo o segurança, é escuro mesmo; toda a casa é bem escura, mas ele disse que lá você não consegue ver a mão na frente dos seus olhos. Lá é a única parte da casa onde não vale a regra de “não pode passar a mão sem permissão” – ao contrário, lá só dá mesmo para usar o tato.

Uma parte da área de solteiros tem cabines com glory holes. SOlteiros de um lado, casais interessados de outro, para carícias pelos buracos nas paredes.

O ambiente de casais tem uma sala ampla, cheia de sofás. Vários avisos pedindo que se evitem risos ou conversas em voz alta, dizendo que ali é um lugar para carícias.

Há mais espaços reservados, para quem não quer ficar na sala comum.

A casa ainda tem um bar, uma área com duas mesas (perto do bar, na entrada) com mesas (o barulho da pista é menor ali), um fumódromo e uma área com espelhos e pinturas de asas na parede para fotos (a única parte onde se permitem celulares).

Antes de sairmos, demos uma olhada nas áreas fora da pista de dança, mas ainda não estava rolando nada por ali.

Impressões

Claramente, muitos dos presentes se conheciam, e conheciam o pessoal da casa. Não vi ninguém se excedendo; mesmo as pessoas que estavam bebendo não estavam enchendo a cara. Duas moças passeavam de mãos dadas, meu amigo disse que viu um casal de homens. Havia uma moça solteira sozinha, fora da pista de dança. Fiquei observando. Depois de alguns minutos, um solteiro chegou até ela e puxou conversa. A conversa fluiu normalmente; quando saímos ainda estavam conversando, com tranquilidade.

Eu mencionei a minha pesquisa. Pois é, qualquer comunidade tem suas regras. De forma geral, uma comunidade “herda” várias regras dos agrupamentos sociais maiores, nos quais está inserida. Desta forma, mesmo os membros novatos da comunidade já começam com um conjunto de expectativas sobre os comportamentos dos demais.

Mas as comunidades liberais partem, justamente, de um conjunto de transgressões a regras e expectativas da sociedade na qual estão inseridas. Isso cria um problema: se tantas regras e expectativas são conscientemente abandonadas, é preciso haver uma orientação explícita de quais regras e expectativas são válidas. Daí a abundância de normas de comportamento nas comunidades liberais.

Uma das regras fundamentais: são as mulheres que decidem. Vem daí a advertência explícita do segurança, ao dizer que seríamos convidados a sair se importunássemos alguma mulher. Por outro lado, ao abordar um casal, há a expectativa de que a abordagem se inicie pelo homem, ao invés de se abordar diretamente a mulher – isto é considerado um sinal de respeito ao casal.

No ano passado, li uma reportagem (acho que na Folha de São Paulo), na qual entrevistaram uma jovem em uma casa de swing. Ela comentou que nem mesmo estava lá procurando participar de algum encontro, mas que era uma balada na qual se sentia segura, sabendo que não seria assediada ou desrespeitada.

Em nada discordo, muito ao contrário. Mesmo não sendo apreciador de baladas, certamente voltarei lá.