Celulares e senhas

Algumas dicas para enfrentar problemas cada vez mais comuns.

O problema:

Meu celular quebrou. Fiquei sem o Telegram. Esqueci a senha e não consigo entrar no meu e-mail.

Parece familiar?

Claro, pode substituir “quebrou” por “foi roubado”; pode substituir “Telegram” por “WhatsApp”; pode substituir “e-mail” por algum outro sistema que depende de uma senha esquecida. Há muitas variações sobre este tema.

O fato é que confiamos muito de nossas vidas digitais aos nossos celulares. E muito das nossas vidas digitais toca as nossas vidas reais… O resultado é que problemas corriqueiros com os celulares podem nos “trancar” fora de nossas casas virtuais.

A boa notícia: existem maneiras de reduzir os efeitos deste tipo de situação e, de quebra, aumentar a sua segurança digital.

A má notícia: isso exige que você faça algumas coisas, ao invés de confiar que o seu celular fará por você.

Aliás, desculpe! Vou reescrever este último parágrafo.

A má notícia: isso exige que você faça algumas coisas, ao invés de confiar que O SISTEMA fará por você.

Conhece “O SISTEMA”? É aquela divindade inefável, intangível, inexorável (como toda divindade que se preza). É a responsável por tudo o que acontece no mundo digital. “Foi o sistema” é o novo encantamento fatalista, herdeiro direto de “Deus quis assim”.

Mas eu sou um agnóstico convicto. Defendo esta visão heterodoxa de que são pessoas que criam programas e aplicativos, que são pessoas que os usam, e – heresia! – estas pessoas não precisam usá-los sempre da mesma maneira.

Ainda está comigo? Ótimo! Vamos então falar sobre senhas, e sobre a tarefa impossível de memorizar todas as que precisamos. Daí vamos passar aos celulares.

Em nosso mundo digital, precisamos de uma gigantesca quantidade de senhas. Por outro lado, senhas são vulneráveis: elas podem ser adivinhadas, furtadas, quebradas, copiadas – e esquecidas. Como esta última vulnerabilidade é a mais comum, muitas pessoas usam senhas simples (portanto fáceis de lembrar), e repetem o seu uso em muitas circunstâncias (para não terem que lembrar muitas senhas)… e estes cuidados para reduzir a chance de esquecer uma senha aumentam a chance de que ela poderá ser adivinhada, furtada, quebrada ou copiada.

Em outro texto aqui no blog – Herança digital –, já tratei de dois métodos que, em conjunto, reduzem a vulnerabilidade das senhas, e aumentam a sua segurança – essencialmente, um caderno (físico!) para algumas senhas mestras, e o uso de um programa gerenciador de senhas. Não vou me estender aqui sobre o assunto, apenas recomendo que você leia o que escrevi lá.

Porque agora falo dos celulares. Nós nos habituamos a instalar programas e programar os celulares para que gravem as senhas. Por exemplo, meu programa de e-mail abre automaticamente a minha conta, sem que eu precise colocar minha senha.

O preço desta comodidade é simples: por melhor que seja a minha memória, eu vou acabar esquecendo uma senha que não preciso usar.

Pior: a senha vai estar em apenas um lugar – o frágil aparelho que levo no bolso.

Triplamente pior se, ao configurar para onde enviar os lembretes de senha, eu escolher… o mesmo frágil aparelho que levo no bolso! Então, se eu fico sem o celular, perco o acesso ao aparelho que tem a senha, que é o mesmo que recebe o lembrete de senha!

A solução usa dois eixos. Primeiro, configurar os programas para não gravarem suas senhas. Assim, você tem que usá-las, e isso ajuda a mantê-las na memória. Você dificilmente esquece as senhas de seu programa bancário, ou de seu cartão de banco, em parte porque as usa o tempo todo.

Isso ainda tem a vantagem adicional de aumentar a segurança das suas contas, no caso do celular ter um acesso não autorizado.

Não é praticável memorizar esta multidão de senhas? Oras, use então um gerenciador de senhas, como o que eu recomendo no artigo que mencionei acima.

O segundo eixo: mantenha meios de acesso secundários separados. Basta você pensar: “se eu perder o celular, que outro meio eu posso usar para fazer acesso a este programa?” Por exemplo, o Telegram pode ser instalado simultaneamente em mais de um disposivo, todos com acesso igual à mesma conta. Se o meu celular for furtado, eu posso fazer acesso normalmente à minha conta por meio de um dos outros dispositivos, e ainda desautorizar o acesso do celular. Vários programas oferecem mecanismos semelhantes.

Eu disse que você tem que fazer algumas coisas, não é? Quais são elas?

Simples: abdicar de parte da comodidade fácil e preguiçosa de confiar tudo ao celular, passar a usar a sua memória, e investir cinco segundos de seu tempo ao abrir um programa. Não “gastar”, ou “perder” cinco segundos: investir – o dividendo é a segurança das suas informações.

Por outro lado, se nada disso o comove, e você acredita que O SISTEMA tem plenas condições de cuidar de sua memória e de suas informações, vá em frente.

Só tome cuidado para não mandar dinheiro para a Nigéria, ok?

O Quartel-Mestre
O Quartel-Mestre
polímata
filomático
pesquisador
escritor

LUIZ CLÁUDIO, o Quartel-Mestre, the Rules Lawyer, conversa e escreve sobre jogadores e jogos de todos os tipos, sobre ludologia, narrativas, poesia, e mais.

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