Jogando com AIs

Jogadores, artificiais ou não; e a busca da vitória nos jogos, sexuais ou não.

Nos últimos anos, voltei a jogar alguns jogos digitais, por força das circunstâncias – seja a pandemia, seja a simples distância de meus amigos. Quase sempre são versões digitais de jogos de tabuleiro; os meios de comunicação permitem um bom contato, ainda que não se igualem ao contato olho-no-olho que tanto aprecio.

Às vezes, jogo apenas contra AIs – Artificial Intelligences, inteligências artificiais… ou, como alguns preferem chamar, bots, robôs. E, hoje, minhas reflexões me levaram a identificar um contraste interessante nas duas experiências, com respeito à busca da vitória.

Qualquer que seja o jogo, eu me envolvo em pelo menos dois níveis distintos.

Primeiro, eu sou um participante em uma atividade social e cultural, juntamente com outros participantes; o objeto da nossa atividade é a criação de uma partida de um jogo, mas os nossos objetivos são objetivos sociais – congraçamento, diversão, amizade, estudo, treinamento, sedução, não importa.

Segundo, como resultado da atividade criadora, eu “entro no jogo” e me torno um jogador; meu objetivo é definido pelo jogo – tipicamente, será a vitória. Para além do que dizem as regras formais do jogo, o processo de sua criação ainda envolve o estabelecimento de regras informais e, especialmente, de expectativas. E a principal destas expectativas é a de que eu vou procurar conseguir a vitória.

O contraste nasce nas diferenças do primeiro nível. Realizar uma atividade com meus amigos é sempre significante, frequentemente prazeroso – e isso não depende do resultado do segundo nível. Então, mesmo que eu não atinja a vitória, isso não abala a minha apreciação pela atividade, nem a diversão que eu consigo com ela.

Mas, quando jogo apenas contra AIs, o nível social desaparece quase que inteiramente; resta apenas a minha interação, distante e mediada, com os criadores do jogo. Com isso, o segundo nível cresce em importância – e, com ele, a vitória.

Há um interessante paralelo com o sexo e o orgasmo. Equiparar sexo e jogo é uma metáfora corriqueira, e o orgasmo pode tranquilamente ser considerado como a “vitória” deste jogo.

Só que, assim como em jogos menos divertidos, é perfeitamente possível ter imensa satisfação com o jogar e com a interação entre os participantes, ainda que não se alcance a vitória… e, assim como nos jogos com AIs, no sexo solitário cresce a significância do orgasmo.

Neste sentido, nada melhor que um dos aforismas de Heinlein para encerrar esta reflexão:

O sexo precisa ser amigável. Se não é, melhor ficar com os brinquedos mecânicos; é mais sanitário.

Robert A. Heinlein, Time Enough for Love

O Quartel-Mestre
O Quartel-Mestre
polímata
filomático
pesquisador
escritor

LUIZ CLÁUDIO, o Quartel-Mestre, the Rules Lawyer, conversa e escreve sobre jogadores e jogos de todos os tipos, sobre ludologia, narrativas, poesia, e mais.

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