Palimpsestos e metáforas

As muitas metáforas inspiradas pelas areias da praia.

As caminhadas matinais têm sido muito ricas, em vários sentidos. Um deles é o das reflexões.

A metáfora é um elemento fundamental das línguas naturais. Eu, como tantos caminhantes das praias, vejo inúmeras metáforas nas areias.

Sob a luz do Sol nascente, às minhas costas, sigo minha sombra, que desliza sobre as areias.

Vejo inúmeros esquelotos de caranguejos, grandes e pequenos; desvio o meu passo deles, em pudor ou temor, e pondero por que não desvio meu passo dos minúsculos cadáveres de algas que tingem de verde as areias.

Encontro as pequenas tocas de outros caranguejos, estes vivos, usando as areias para se protegerem do Sol e dos predadores.

Em vão, procuro as marcas de um castelo feito por mãos amigas, sob os meus olhos.

Lembro de Anchieta, escrevendo nas areias de Iperoig, e tornando a escrever o que o mar apagava.

Brinco com a ideia de um computador digital – uma máquina de Turing – criado apenas com células nas areias.

Vejo as marcas dos meus passos, que seguem ou cruzam as marcas de passos de outros caminhantes.

Penso – claro! – no efêmero.

As areias são excelente matéria-prima para metáforas sobre o efêmero e a transitoriedade. Já li muitas, claro; recordo e recrio várias, com facilidade, nas caminhadas.

As marcas que hoje deixo nas areias, tudo o que hoje registro nelas, amanhã estará apagado – pelos ventos, pelas águas, pelas mãos de meus irmãos de espécie.

Foto da praia, mostrando um símbolo desenhado na areia.
Um desenho com mais de um nível simbólico.

Mas, hoje, diverti-me ao pensar que uma metáfora baseada nas areias já não faz mais sentido. Pensava nos palimpsestos.

Em tempos idos, um dos materiais sobre o qual nossos antecessores escreviam era o pergaminho. Páginas finas, macias, feitas com o couro curtido de alguns animais – pois nossa predação inventa outros usos para nossas vítimas, para além de saciar nossa fome.

Escrevia-se sobre o pergaminho com boas penas e boa tinta. A pena sulcava a pele macia, depositando tinta nos sulcos – inevitável a metáfora inspirada nos arados, e ainda hoje dizemos que nossos notários lavram atos, embora agora em papel ou em elétrons.

Mas o pergaminho era caro… e, muitas vezes, durava mais tempo que a utilidade do que nele se escrevia. Então, para reaproveitar uma boa página de pergaminho, raspava-se a superfície, removendo-lhe uma camada, o bastante para remover a tinta e para apagar os sulcos anteriores; e podia-se lançar novos sulcos e novas tintas sobre o pergaminho renovado.

Aí está o palimpsesto. Claro, as areias da praia pareciam, por séculos, perfeitos palimpsestos: se eu um dia estiver na praia de Iperoig, poderei facilmente escrever meia dúzia de palavras onde, antes, Anchieta escreveu milhares de versos.

Ah! Mas o nosso engenho ultrapassou a metáfora. Hoje, por técnicas diversas, é possível reconstituir os textos anteriores, “apagados”, dos palimpsestos; os pergaminhos anda guardam as memórias de sulcos e tintas, ainda revelam os pensamentos das mãos que os lavraram – embora não os das mãos que os prepararam, e nem os dos animais que entregaram suas vidas e suas peles para nosso uso.

As areias seguem, todos os dias, apagando as marcas sobre elas, sem guardar memória delas; cabe a nós entesourar estas memórias, e a lembrança destas memórias, enquanto ainda conseguimos. Foi-se a metáfora das areias como palimpsesto, foi-se a metáfora da transitoriedade; ela própria foi efêmera, ela própria se validou.

O Quartel-Mestre
O Quartel-Mestre
polímata
filomático
pesquisador
escritor

LUIZ CLÁUDIO, o Quartel-Mestre, the Rules Lawyer, conversa e escreve sobre jogadores e jogos de todos os tipos, sobre ludologia, narrativas, poesia, e mais.

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