Comunidades de jogadores

De onde vem a permanência que Huizinga identifica nas comunidades de jogadores?

Há um trecho do Homo ludens que me fascina há tempos.

As comunidades de jogadores geralmente tendem a tornar-se permanentes, mesmo depois de acabado o jogo. É claro que nem todos os jogos de bola de gude, ou de bridge, levam à fundação de um clube. Mas a sensação de estar “separadamente juntos”, numa situação excepcional, de partilhar algo importante, afastando-se do resto do mundo e recusando as normas habituais, conserva sua magia para além da duração de cada jogo. O clube pertence ao jogo tal como o chapéu pertence à cabeça.

É claro que a minha fascinação deve muito ao meu histórico, especialmente com a minha querida Confraria Lúdica – que completa 43 anos em 2022. Mas eu tive a oportunidade de ver muitos outros grupos de jogadores em minha vida lúdica.

Minha curiosidade se acende ao indagar o que causa esta longevidade, esta permanência a que Huizinga se refere.

Penso que regras são um componente importante dela. Mas esta impressão também merece ser mais esmiuçada.

Primeiro, claro, as regras de funcionamento do próprio grupo, sejam mais ou menos informais. Vemos aqui regras como “o dono da casa escolhe o jogo”, regras para definir a entrada de novos participantes, regras de penalidades… Estas são regras procedimentais com respeito ao grupo em si, e não se confundem com as regras dos jogos que porventura sejam jogados.

Mas estes últimes também podem ser afetados pela atividade normativa do grupo. É aqui que brilham as house rules (“regras da casa”), modos idiossincráticos de alterar ou interpretar as regras do jogo. No limite, estas regras terminam por criar variantes do jogo original.

E aqui entra um elemento essencial de qualquer sistema normativo: a sujeição a ele é voluntária. Assim, os integrantes do grupo aceitam se submeter a um sistema normativo comum – e tornam-se “separadamente unidos”, para usar a expressão de Huizinga.

O sistema normativo certamente não é a única força de união para um grupo de jogadores (ou outro qualquer), e provavelmente nem mesmo é a mais importante. Há alguns meses, identifiquei o que me parece ser outra destas forças – o compartilhamento de riscos.

Mas parece que, também aqui, o processo de criação e sujeição a regras está agindo como um “cimento” social.

O Quartel-Mestre
O Quartel-Mestre
polímata
filomático
pesquisador
escritor

LUIZ CLÁUDIO, o Quartel-Mestre, the Rules Lawyer, conversa e escreve sobre jogadores e jogos de todos os tipos, sobre ludologia, narrativas, poesia, e mais.

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