Repensando a 2a Guerra

Qual foi a justeza da mais justa das guerras?

Uma das tradicionais batatas quentes da filosofia é o conceito de “guerra justa”. Ou seja, procurar respostas para as perguntas “quando é justo, ou correto, ir à guerra? qual é a conduta justa, ou correta, dos combatentes em uma guerra?” A discussão é antiga, e frequentemente colorida pelas circunstâncias do momento de quem a discute.

De todo modo, é importante notar um aspecto menos discutido do problema. Ele pode ser um corolário – “se a guerra de A contra B é justa, segue-se que a guerra de B contra A é injusta”; ou ele pode ser um pressuposto – “A agride B injustamente, então B pode ir à guerra contra A”.

Para além da filosofia, esta discussão tem enorme importância prática. Por exemplo, as duas invasões do Iraque, conduzidas pelos EUA, foram apresentadas como “guerras justas” (1990-1991 e 2003-2011).

Corrijo-me. Não foram apresentadas: foram vendidas como guerras justas. Para mais, hoje sabemos que, nas duas guerras, o enorme esforço de marketing fez amplo uso de informações falsas e / ou enganosas, sobre atrocidades e capacidades do inimigo. Essencialmente, a propaganda procurava demonstrar que as ações de Saddam Hussein e do Estado iraquiano eram injustas, e por isso as ações contra eles seriam justas.

Estes são dois exemplos relativamente recentes. Mas, na nossa memória cultural, uma guerra em especial se agiganta, como a mais justa de todas as guerras. Refiro-me à 2ª Guerra Mundial, em especial no que toca ao nazismo. Aqui, não há discussão ou revelação que abale a convicção generalizada: a guerra contra os nazistas foi uma guerra justa, talvez a mais justa de todas as guerras.

Convenhamos, contra os nazistas nem mesmo haveria a necessidade de inventar histórias. A transformação do Estado alemão em uma indústria de atrocidades sistemáticas não tem paralelos na História.

Além disso, os nazistas sempre fizeram questão de dizer – de proclamar! – que todo o Estado alemão agia em obediência a Adolf Hitler, o Líder. Assim, não apenas os nazistas entregaram de bandeja as histórias sobre atrocidades: ainda deram de presente uma figura na qual personalizar todas elas!

Temos, então, uma pessoa – uma figura individual – que é a única responsável por uma multidão de atrocidades. Responsável por iniciar uma guerra, responsável por matar milhões, responsável por genocídio em escala industrial, responsável pela criação de uma economia fundamentada na exploração do trabalho escravo… a lista é grande.

Esta figura satânica é a única responsável por tudo isso, e ao mesmo tempo há uma multidão de demônios menores que também são, coletivamente, responsáveis por tudo isso. Convenientemente, eles são fáceis de identificar – usam uniformes! ostentam a Marca da Besta! fazem gestos arcanos!

Se parece que eu estou exagerando, errei o tom – eu não quero que apenas pareça, eu estou mesmo exagerando! Porque estes exageros são parte integrante de como percebemos o nazismo alemão da primeira metade do século XX. Em termos históricos, estes exageros integram a recepção destes fenômenos.

Estes exageros raramente são apresentados em dose concentrada, como fiz acima. Por isso, são difíceis de notar. Mas eles têm consequências perigosas.

De saída, manter o olhar exclusivamente nas atrocidades nazistas prejudica a percepção de crimes equivalentes, cometidos pelas forças que se opunham à Alemanha. Depois que a URSS e os seus antigos aliados se desentenderam, passou a ser fácil falar nas atrocidades do regime soviético.

Mas ainda é difícil ter em perspectiva os inúmeros interesses econômicos envolvidos na conduta da guerra. Ou avaliar a guerra submarina conduzida pelos EUA contra a Marinha Mercante japonesa, comparável à conduzida pela Marinha alemã contra os navios mercantes dos Aliados. Ou discutir a eficácia da campanha de bombardeios contra a Alemanha.

Por que é difícil? Ora, se o inimigo era inteiramente mau, bobo, e feio, então tudo era válido contra ele. Motivações perversas são irrelevantes, condutas criminosas são perdoáveis, tudo o que se fez foi bom – e tudo isso pode ser feito novamente, desde que por uma justa causa!

Há mais. Se pensamos que o nazismo é facilmente identificável por seus símbolos, isso impede que possamos reconhecer nazistas que não os usam – e os nazistas vêm alegremente usando esta distorção a seu favor. Que absurdo, dizer que alguém é nazista somente porque age e fala como um nazista – afinal, ele não usa uma suástica, e todos sabem que nazistas usam suásticas, não é?

A recepção da 2ª Guerra e do nazismo segue distorcida, e ficando cada vez mais distorcida. Este não é um problema “meramente” histórico: ele traz consequências importantes, todos os dias.

O Quartel-Mestre
O Quartel-Mestre
polímata
filomático
pesquisador
escritor

LUIZ CLÁUDIO, o Quartel-Mestre, the Rules Lawyer, conversa e escreve sobre jogadores e jogos de todos os tipos, sobre ludologia, narrativas, poesia, e mais.

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