No oceano da noite

Criando significados para tudo o que vejo e sinto à minha volta.

Meu dia, ontem, começou muito cedo – primeiro, preocupado, depois ocupado, com prazos e trabalho. Eu nem mesmo havia planejado qualquer coisa de especial para o réveillon, pensava em apenas ficar em casa.

Ainda pela manhã, recebi uma mensagem do meu querido Diego, dizendo “Se joga um pouco. Da uma volta pela praia e aproveita a festa.” Mas eu estava meio devagar… somente pelo início da tarde é que me dei conta de que eu estava indo no automático, e que eu poderia perfeitamente ir até a praia para participar dos festejos lá.

Assim me decidi, mas pelas oito da noite a madrugada insone cobrou seu preço e fui dormir, calculando que provavelmente acordaria para a virada. Não me enganei; os ruídos da comemoração me despertaram à meia-noite. Ainda meio zonzo, fui até a grande janela da cozinha, e descobri que ela se abre justamente na direção de onde partia uma saraivada de fogos de artifício.

Foto de fogos de artifício no céu.
Fogos iluminando o céu do réveillon.

Fiquei ali, me maravilhando com o espetáculo. Depois que ele acabou, segui para a praia. Havia muitos carros estacionados na rua, e encontrei muita gente já voltando pela trilha da restinga. Na praia, junto ao posto salva-vidas, vários grupos ainda se congregavam, mas foi fácil afastar-me um pouco, buscando a noite.

Caminhei até sentir as águas em meus pés. No horizonte, luzes brilhantes revelavam navios. Erguendo os olhos… ah!

Foto do horizonte noturno, mostrando navios e as estrelas no céu claro.
As luzes dos navios no horizonte, e o Cruzeiro do Sul sobre eles.

O Cruzeiro do Sul, nossa constelação, brilhava sobre as águas. A escuridão da praia me favorecia, e eu via claramente a Via Láctea. Algum tempo depois, quando consegui parar de contemplá-lo, olhei para trás; no alto, sobre a cidade, Órion guardava os céus. Meus olhos iluminados pelas luzes das mais belas constelações, meus pés acariciados pelas águas do mar; eu estava todo banhado pelo Oceano da Noite.

Estava sozinho, mas não solitário. Atrás de mim, alegria e música envolviam o momento, e me ajudavam a criar os significados do que eu sentia.

Não sei quanto tempo fiquei em contemplação. Retornei a casa, seguindo as marcas dos passos dos que me precederam, deixando as minhas marcas para os que me sucederem. Eu estava em romaria, perdido em pensamentos; meu espírito demorou mais que meu corpo a retornar a casa.

Acordei hoje para o céu claro, o dia ensolarado, meus vizinhos alados cantando os ramos das árvores. E escrevo, ainda criando significados, estabelecendo relações, e sentindo pela memória.

O Quartel-Mestre
O Quartel-Mestre
polímata
filomático
pesquisador
escritor

LUIZ CLÁUDIO, o Quartel-Mestre, the Rules Lawyer, conversa e escreve sobre jogadores e jogos de todos os tipos, sobre ludologia, narrativas, poesia, e mais.

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