A nuvem negra

Publicado em 10/11/2021



Foto de uma nuvem negra, no céu da aurora, com postes de luz à sua frente.
Luzes à frente de uma nuvem negra, no céu da aurora.

Fiz a foto acima há alguns dias, durante uma de minhas caminhadas. A imagem celeste me chamou a atenção, e saquei o telefone para a foto; depois que a fiz, fiquei pensando se conseguia criar uma interpretação para a imagem capturada.

Neste processo, notei que a nuvem negra vinha da direita, em direção a um céu mais iluminado à esquerda. Também notei os vários postes de iluminação, com as luzes brilhando contra o fundo escuro da nuvem; nenhum poste brilhava contra o céu claro.

Minha primeira interpretação foi direta: pensei na nuvem como uma metáfora para o obscurantismo que nossa própria espécie está sempre criando, e que hoje vem majoritariamente da “direita”; e pensei nas luzes como as iniciativas que criamos contra este obscurantismo.

Metáforas fáceis. Satisfatórias.

Só que minha caminhada continuou, e eu me dei conta de que aquela foto tinha capturado o conjunto céu-nuvem-luzes a partir de um ponto específico; mas que, poucos metros adiante, a relação entre os mesmos elementos já era diferente.

Para mais, os pontos de luz continuavam a brilhar, mesmo que alguns agora estivessem contra o fundo mais claro, do lado esquerdo do céu.

Eu havia criado toda uma interpretação a partir de um ponto de vista privilegiado, ignorando os demais – e portanto era uma interpretação insuficiente e parcial. Esta reflexão já seria suficiente para compensar o exercício.

Mas pensei: por que não aperfeiçoar a minha interpretação? E me dei conta de que as luzes brilhavam, qualquer que fosse o contraste que seu fundo lhes oferecia. Mais tarde, aquelas luzes se apagariam. Mas as ideias… ah, estas brilham por si, um brilho que não pode ser apagado.

Em um dos evangelhos, há uma frase que causa sérios debates teológicos: uma admoestação de que não adianta jogar pérolas a porcos. Não me envlvo no debate teológico, mas por mim penso que esta frase é correlata do ditado de que não se pode forçar o cavalo a beber, se ele não quer.

Espargimos as ideias – como pérolas… como pétalas de flores… como sementes. Mas cabe aos que vêm decidir o que fazer com estas ideias: adornarem-se com elas, fazê-las circular, talvez (ah, sim!) frutificar; ou rejeitá-las para preferir a lavagem ao seu redor.

Não importa. Como as luzes, as ideias ainda estão lá.


Autor

Luiz Cláudio Silveira Duarte

Luiz Cláudio Silveira Duarte

Jogador inveterado, pesquisador de jogos, leitor voraz, polímata. Seus interesses de pesquisa são as regras dos jogos e as relações dos jogadores com as regras. Há muito mais, mas assim está bom para começar.