Revendo Star Trek

Publicado em 23/09/2021



Eu tinha visto Star Trek (2009, dirigido por J. J. Abrams) apenas uma vez. Resolvi vê-lo novamente. Não o achei tão mau quanto havia achado antes. Até me animei a ver os outros filmes desta série, que ainda não conheço.

Percebo, agora, que meu problema à época era duplo: um momento triste na minha vida, e a minha estupefação quando descobri que era uma história completamente diferente; eu não tinha ideia de que era uma realidade alternativa, e só fui atinar com isso lá por 3/4 do filme. Minhas expectativas foram inteiramente violadas.

Para piorar, houve um jogo de tabuleiro, supostamente inspirado no filme, publicado logo depois, que eu comprei e joguei um bocado, mas que é bem ruim, mesmo sendo de um autor consagrado.

De todo modo, apreciei o filme de 2009, e agora estou vendo Star Trek Into Darkness (2013). Ainda bem no início do filme, mas já tenho uma boa ideia do que vai acontecer – não por culpa do roteiro, mas porque foi impossível evitar spoilers, oito anos depois que o filme foi lançado.

Ainda assim, estou apreciando o filme. Não gosto de Chris Pine, o novo Kirk. Mas ele é competente no papel – até porque é um Kirk diferente. Em 1965, o personagem era relativamente sóbrio, mas Shatner sempre foi um overactor. Aqui é o contrário; o personagem é exagerado, e Pine apenas segue atrás.

Aos olhos deste velho fã da série, os pontos mais interessantes não estão nos personagens, mas nas relações entre eles. Há conflitos, há divergências, há lutas. Desapareceu aquele sentido de cooperação permanente, tanto entre os personagens principais, quanto entre eles e os demais personagens.

Ao mesmo tempo, a Frota Estelar mudou radicalmente. Ela é agora uma organização militar, com todo o aparato ligado a isso: rotinas e procedimentos militares, uniformes, sentinelas com armamento ostensivo, regulamentos.

Isto cria um contraste extremamente curioso. A Frota Estelar de Roddenberry era, propositalmente, pouquíssimo militarizada – e, ainda assim, a tripulação da Enterprise funcionava de forma eficiente, raramente violando a hierarquia e a disciplina. Havia uma sensação de unidade de propósito, de cumprimento de uma missão comum e meritória.

Agora, violações de hierarquia e de disciplina são cotidianas, corriqueiras, quase que esperadas – tanto dos subordinados para seus superiores, quanto no sentido contrário. Kirk já não comanda com base no respeito de seus subordinados, mas aparentemente com base na falta de alternativas a suas ordens.

Nada disso destrói o filme; Star Trek nunca foi realista, e continua a não ser – sequer é ficção científica, no sentido mais estrito da expressão. Mas continua a ser entretenimento, ainda que em um estilo bem diferente daquele de mais de cinquenta anos atrás.


Autor

Luiz Cláudio Silveira Duarte

Luiz Cláudio Silveira Duarte

Jogador inveterado, pesquisador de jogos, leitor voraz, polímata. Seus interesses de pesquisa são as regras dos jogos e as relações dos jogadores com as regras. Há muito mais, mas assim está bom para começar.