Bem acompanhado

Publicado em 21/09/2021



Saio para caminhar, e recebo um presente luminar nos céus.

Foto da Lua no céu
A Lua nos céus, hoje cedo, quando iniciei minha caminhada.

Algumas nuvens a emolduravam, por vezes ocultando-a brevemente – como um véu que deixa ver apenas os olhos luminosos sobre ele, prometendo o sorriso no momento em que o tecido se afastar.

O percurso vira para minha esquerda, e sigo agora com a Lua à minha direita, pouco à minha frente. Vou mantendo os olhos nela, e lembrando do livro Por Quê?, que tanto fascinou a minha infância. Foi lá que primeiro li uma explicação sobre o efeito de vermos a Lua nos acompanhando quando caminhamos. Muito mais tarde, aprendi o que era a paralaxe, e sei que este é um efeito visual causado pela distência.

Mas, hoje, não me importo: esta é a minha Lua, me acompanhando – e a distância não faz diferença para a sua presença.

O percurso vira novamente para a esquerda, e agora dou-lhe as costas. Mas dar as costas não é abandonar; sei que ela ainda me acompanha, e sei que ela ainda vai estar lá, linda aos meus olhos, quando eu voltar.

O caminho me leva, momentaneamente, a tê-la ao meu lado novamente. Olho sobre o meu ombro direito, e a vejo, disputando com as luzes de postes.

Sigo agora em direção ao nascente, que mal começa a pintar as nuvens, ainda muito escuras. QUando me volto, lá está ela, linda, novamente bem à minha frente, orientando meus passos. Não importa que esteja distante. Ela está ali. É a minha Lua. E me acompanha.

Que lição importante nossas mães nos dão! “Veja com os olhos e não com os dedos!” Porque quando vemos com os dedos, queremos mais que o toque: queremos a apropriação, o segurar e o controlar. Vendo com os olhos, aprendemos que a distância não importa, aprendemos a sentir a beleza. Nós aprendemos o respeito. E, quando há o toque, isso aumenta o efeito da da proximidade. Mostra, ao mesmo tempo, que a distância não tem importância, e como a proximidade é importante.

Foto da Lua no céu
A Lua nos céus, hoje cedo, já na fase final de minha caminhada.

Despeço-me com um boa-noite feliz, afortunado por tê-la a guiar meus passos e iluminar meu espírito.


Autor

Luiz Cláudio Silveira Duarte

Luiz Cláudio Silveira Duarte

Jogador inveterado, pesquisador de jogos, leitor voraz, polímata. Seus interesses de pesquisa são as regras dos jogos e as relações dos jogadores com as regras. Há muito mais, mas assim está bom para começar.