Dogmas

Publicado em 04/09/2021



Hoje, em uma conversa, fui confrontado com uma posição dogmática, que contestei. Felizmente, era uma conversa muito agradável e respeitosa – e como é triste que tantas conversas não o sejam.

Mas ela me despertou algumas reflexões sobre dogmas, que decidi colocar aqui.

O dogma, por definição, não admite contestação. Não é à toa que a religião é o exemplo típico de conhecimento dogmático – e a minha relação com a fé e com a religião é, principalmente, uma história de embates com os dogmas.

Eu costumava ficar surpreso, quando pessoas próximas contestam minha afirmação de que eu não tenho fé. Ouvi, muitas vezes, frases como “você é uma das pessoas mais cristãs que eu conheço”. Já não me surpreendo mais, mas noto que isso revela algo muito errado com a concepção dogmática de como deve ser a fé e o comportamento religioso. De todo modo, isso é outro assunto, e não quero me desviar.

Qualquer que seja a natureza da minha fé, uma coisa eu posso afirmar: ela não tem dogmas. Tenho uma desconfiança profunda, visceral, contra dogmas. Talvez por isso eu me sinta tão à vontade dentro do paradigma científico, que é um dos sistemas de conhecimento com menos dogmas.

O dogma é, ao mesmo tempo, prescritivo e punitivo, sem nunca ser descritivo. Mas o seu ponto principal é que ele é arbitrário: substitua qualquer dogma por seu absoluto oposto, e você terá um sistema de conhecimento diferente, sim – mas que continuará a ser válido!

E alguns destes sistemas de conhecimento parecem, no mínimo, tão interessantes quanto os seus análogos, baseados em verdades-absolutas-que-são-evidentes-por-si-sós-desde-que-você-pense-como-as-pessoas-certas-pensam.

Felizmente, em minha vida eu fui responsável por poucas pessoas. Eu me esforcei por nunca lhes dar dogmas – não cabe a mim dizer se eu tive sucesso nisso. Mas eu espero, ao menos, ter-lhes dado o mesmo que Ortega y Gasset:

Además de enseñar, enseña a dudar de lo que has enseñado

Nossas ideias e nosso conhecimento sempre podem ser aperfeiçados, revistos. Fazer isso é como revolver a terra, antes de lançar nela novas sementes.


Autor

Luiz Cláudio Silveira Duarte

Luiz Cláudio Silveira Duarte

Jogador inveterado, pesquisador de jogos, leitor voraz, polímata. Seus interesses de pesquisa são as regras dos jogos e as relações dos jogadores com as regras. Há muito mais, mas assim está bom para começar.