Legendarium

Publicado em 07/08/2021



Em 1983, a minha trajetória de leitura tinha uma forte orientação no sentido da ficção científica. Era um momento no qual havia muitos livros de FC publicados no Brasil, provavelmente empurrados pelo renascer da FC cinematográfica que explodia nas telas quase todos os anos, desde Star Wars (1977).

Foi neste ano que a Rede Globo exibiu, em um de seus horários nobres de filmes, 2001 Uma Odisseia no Espaço (1968), de Stanley Kubrick. Eu já havia visto o filme, alguns anos antes, no cinema; nesta ocasião, eu estava em São José dos Campos, e vi o filme na TV da sala comum, no alojamento do Instituto de Proteção ao Vôo. Foi uma exibição horrivelmente planejada, mal dividida em duas partes, com a segunda destruída por intervalos comerciais que ultrapassavam quinze minutos de duração.

Mas o filme tornou-se assunto de conversa por dias. Inevitavelmente, a conversa levou a discussões sobre o roteiro do filme, que fora criado por Arthur C. Clarke e por Stanley Kubrick. Ainda em 1968, Clarke publicou a sua versão em livro, com o mesmo título do filme, e depois escreveu Mundos Perdidos de 2001 (1970), no qual detalhava as várias mudanças do enredo. Eu havia lido, várias vezes, os dois livros; e também já havia lido 2010, publicado no ano anterior, no qual Clarke continuava a história de 2001.

Todos os livros entravam na conversa, claro. E, em uma delas, mencionei que havia uma passagem em 2010 que havia despertado uma curiosidade que eu ainda não havia conseguido satisfazer. No livro, o protagonista está em órbita de Io, o maior satélite de Júpiter, gravando uma mensagem de voz para um amigo na Terra.

Você se lembra que eu lhe apresentei O Senhor dos Anéis, quando éramos garotos, naquela conferência em Oxford? Bem, Io é Mordor; consulte a Parte Três. Há uma passagem que fala de “rios de rocha derretida que se entrelaçam (…) até resfriarem, prostrados em formas retorcidas de dragões, vomitadas pela terra atormentada”. É uma descrição perfeita: como é que Tolkien sabia disso um quarto de século antes que se tivesse visto uma fotografia de Io?

Arthur C. Clarke, 2010 – Odyssey Two (1982), cap. 16.

Fora a referência a este livro que despertara minha curiosidade, mas eu nada sabia sobre ele. Quando falei nisso, meu colega Wallace me disse que ele tinha este livro, em uma edição em português – com seis volumes! Claro que isso me atiçou, e ele generosamente trouxe os livros algum tempo depois, voltando de férias.

Eu já havia mencionado esta história, de forma sumária, em outro artigo aqui no blog.

Era a edição da Artenova. Li tudo, maravilhado. Foi a revelação de todo um campo literário que eu desconhecia, até então; e eu entrei nele justamente pelo livro que lhe deu forma.

Eu já escrevi a respeito da influência da vertente hard sobre o desenvolvimento da ficção científica literária. A obra de Tolkien exerceu uma influência análoga sobre o campo da fantasia. The Lord of the Rings não foi o primeiro livro de fantasia; mas o seu impacto foi gigantesco, e praticamente redefiniu as expectativas de autores e leitores.

Nada disso eu sabia naquela ocasião, claro. Li e reli o livro, fascinado ao encontrar e descobrir algo de novo em cada releitura. Não fiquei com os livros, mas adquiri uma cópia assim que pude – a ótima edição portuguesa, da Europa-América. Em 1984, eu e Wallace fomos de São José dos Campos a São Paulo, para ver a primeira tentativa de levar o livro às telas; o cinema do SESC na rua Augusta exibiu a versão incompleta de Ralph Bakshi (The Lord of the Rings, 1978).

Nos anos seguintes, descobri que Tolkien havia escrito muito mais sobre seu mundo imaginado, a Terra Média. Comprei O Silmarillion e os Contos Inacabados de Númenor e da Terra Média, publicados pela Europa-América em 1985 e 1986. Eu estava tomando contato com uma pequena parte do que, hoje, é chamado de Legendarium.

Tolkien começou a escrever sobre a Terra Média em 1914, procurando criar uma mitologia inglesa, baseada em seus estudos linguísticos; e somente deixou de escrever em 1973, quando faleceu. O termo latino legendarium refere-se a uma coleção de lendas; no contexto da obra de Tolkien, ele passou a ser usado para se referir ao conjunto de seus escritos sobre a Terra Média – poemas, narrativas, dicionários, mapas, análises… O termo é especialmente adequado, neste caso, porque a produção de Tolkien guarda grandes semelhanças com a produção cultural de uma mitologia por toda uma sociedade.

Em 1985, mais uma vez a minha curiosidade estava atiçada por algo que eu lera, mas ainda não conseguira conhecer diretamente. Era muito difícil conseguir importar jogos, ou revistas sobre jogos; mas, em uma destas raridades, eu havia lido sobre role-playing games. Procurei descobrir algo sobre estes jogos, e os poucos pedaços de informações que consegui me levaram a criar o meu próprio jogo neste estilo. Convidei meus confrades a jogá-lo. E baseei a história justamente na narrativa de O Senhor dos Anéis. Guardei, por muitos anos, o mapa da Terra Média que eu havia desenhado, com cuidado, sobre uma grande cartolina, e que usei como base para o jogo.

Meu primeiro RPG foi um absoluto desastre. Eu não dei decisões significativas aos jogadores; jogamos apenas uma partida. Mas um dos participantes da sessão malfadada viajou à França no ano seguinte… Adriano trouxe de volta, em sua bagagem, dois RPGs para ele – o Rêve de Dragon e a edição francesa do Pendragon –, e um RPG de presente para mim: a edição britânica do Middle-Earth Roleplaying.

Há uma expressão, em inglês, que muito aprecio. The gift that keeps on giving. Foi certamente o caso com este presente: assim como o empréstimo dos livros de Tolkien me abriu as portas para a fantasia na literatura, o presente do jogo me abriu as portas para o mundo dos RPGs. E este impacto não se resume às décadas de diversão, jogando e criando RPGs: ampliar o escopo da minha experiência lúdica foi um fundamento imprescindível para a minha pesquisa.

Durante a década de 1990, li muito mais do Legendarium, especialmente a partir da publicação da série History of Middle Earth, por Christopher Tolkien. Em 1999, estas leituras me motivaram a um projeto ambicioso, que demorei quase vinte anos a conseguir concluir: uma história alternativa da Terra Média, jogada como uma campanha de RPG. Realizei várias versões dela ao longo dos anos, com diferentes grupos, e consegui finalmente levá-la até o fim em 2017, graças a um grupo excepcional de jogadores.

Nos termos do próprio Tolkien, o que eu e meus amigos fizemos foi uma “sub-criação”. De certa forma, ela demonstrou o impacto inestimável de todas estas influências – literárias, cinematográficas, lúdicas – sobre a minha formação.


Autor

Luiz Cláudio Silveira Duarte

Luiz Cláudio Silveira Duarte

Jogador inveterado, pesquisador de jogos, leitor voraz, polímata. Seus interesses de pesquisa são as regras dos jogos e as relações dos jogadores com as regras. Há muito mais, mas assim está bom para começar.