Notas

Publicado em 23/05/2021 | Category: dicas | Series: indo-alem-do-word | pesquisa, escrita, notas, Markdown, Obsidian



Esta é uma série de artigos sobre o meu fluxo de trabalho para pesquisa e produção de textos. A primeira parte da série apresentou uma visão geral; as demais detalham ferramentas e funções do fluxo.

Usando o markdown

Na parte anterior, eu falei sobre o formato markdown, e mencionei que várias ferramentas conseguem usá-lo.

Uma destas ferramentas é o próprio git. Textos em formato markdown são apresentados corretamente formatados nos principais repositórios git, como o GitLab e o GitHub.

Outra ferramenta que usa este formato é o Obsidian, que eu utilizo para notas e para organização do pensamento. Mas, antes de falar dele, preciso falar um pouco sobre a natureza das notas.

Notas

Nem toda pesquisa tem em vista um documento final – artigo, tese, apresentação, vídeo. Algumas pesquisas são conduzidas como uma forma de ampliar o conhecimento sobre determinado assunto.

Havendo ou não um documento final como objetivo, toda pesquisa produz notas em suas várias formas – anotações, fichas, lembretes, e assim por diante.

Notas servem para registrar ideias relevantes. Por exemplo, ao ler um livro, um determinado trecho pode me chamar a atenção, para ampliar a discussão de um conceito. Ou eu posso ler uma notícia de jornal, com menção a um autor que eu ainda não conheço, e que pode ser interessante. Em reuniões com meu orientador, eu tomo uma série de notas, com as suas recomendações.

Para além da maior ou menor relevância, o que todas as notas têm em comum é a sua conectividade com a pesquisa. Não existem notas isoladas. A partir dos três exemplos que empreguei no parágrafo anterior, eu poderia ter três notas assim:

  1. Página 322. Esta discussão sobre sujeição e submissão complementa a discussão sobre regras sociais.
  2. Procurar o livro Populocracy, de Catherine Fieschi. Discussão sobre a violação dos pressupostos do sistema.
  3. Verificar se vale a pena usar a autoetnografia como uma das metodologias do trabalho.

Nenhuma destas três notas está isolada. Cada uma delas se refere a conceitos da pesquisa como um todo – por exemplo, “regras sociais” ou “metodologia”.

O problema é que, à medida que a pesquisa avança, as notas se multiplicam, e fazer sentido de todas elas se torna uma tarefa gigantesca. Notas em meios físicos – um post-it, por exemplo, ou uma ficha em um livro – são particularmente difíceis de organizar, a não ser que sejam mantidas, desde o princípio, com um sistema adequado, ou que sejam organizadas logo após a sua criação.

Notas digitais são mais fáceis de organizar. Parte desta organização pode ser realizada em pastas, ou diretórios – por exemplo, ter uma pasta “Reuniões de orientação”, com um arquivo dentro dela com as notas de cada reunião. Mas esta organização tem suas limitações: como encontrar, por exemplo, qual das reuniões tratou sobre metodologia?

Buscas de palavras ajudam muito aqui; em muitos programas de texto, existem comandos de buscas que permitem procurar palavras ou expressões – por exemplo, “metodologia”. Mas também há limitações. Por exemplo, a nota nº 3 do meu exemplo, acima, poderia ter sido escrita com pressa, durante a reunião:

  1. Verificar autoetnografia como met. trabalho.

Ou eu posso escrever, em alguma nota qualquer, “metdologia”. A limitação decorre da literalidade do computador: mesmo que um humano reconheça que “metdologia” e “metodologia” são a mesma palavra, um computador não tem esta capacidade, exceto em sistemas especializados de tratamento de linguagem.

Esta é uma situação equivalente à que mencionei na parte anterior, quando falei na separação entre formatação e conteúdo semântico do texto. Aqui, o conteúdo semântico de “metdologia” e “metodologia” é o mesmo, mas o computador não tem como reconhecer isso pela forma das palavras – que, para ele, são diferentes.

Como o computador não entende o conteúdo semântico, o autor humano não pode terceirizar esta parte de seu trabalho. O markdown inclui mecanismos semânticos genéricos – com eles, o autor consegue indicar que uma expressão é um título, ou uma citação. Mas como indicar que “metodologia” é um conceito relevante em minha pesquisa?

Entra o Obsidian.

Interligando notas no Obsidian

A interligação de conceitos e documentos é feita, no Obsidian, com uma extensão do markdown. Por exemplo, as minhas três notas de exemplo, acima, poderiam ser escritas assim:

  1. Página 322. Esta discussão sobre [[sujeição]] e [[submissão]] complementa a discussão sobre [[Regras sociais]].
  2. Procurar o livro Populocracy, de Catherine Fieschi. Discussão sobre a violação dos [[Pressupostos]] do sistema.
  3. Verificar se vale a pena usar a [[autoetnografia]] como uma das [[Metodologias]] do trabalho.

Dentro do Obsidian, escrever uma palavra, ou expressão, entre colchetes duplos, cria uma ligação para uma página com aquele título – assim, [[Metodologias]] cria uma ligação para a página de título “Metodologias”. Mesmo que a página ainda não exista.

Se esta página já existe, o Obsidian ainda ajuda a encontrá-la. Durante a reunião, enquanto eu estava escrevendo com pressa, escrevo “[[met” – e o Obsidian já mostra todas as páginas cujo título começa com estas letras, então posso simplesmente selecionar a correta e continuar as notas.

Com estas ligações, as notas formam um hipertexto, como acontece em um wiki. Os recursos do Obsidian incluem mostrar quais são as páginas que apontam para uma página, quais são as ligações que não apontam para lugar nenhum – ou porque ainda não foram criadas, ou porque o título foi escrito com um erro. Também permitem mostrar graficamente as interligações entre os conceitos, como mostra a tela abaixo.

Visão gráfica de interligação de conceitos na minha pesquisa.

Além das ligações pelos títulos, o Obsidian também usa tags – por exemplo, “#referências/recomendações” –, que funcionam de forma equivalente aos títulos. Os dois mecanismos podem ser combinados de forma a melhor organizar as notas do autor.

Os mecanismos de interligação do Obsidian não substituem a capacidade de busca de texto, mas a complementam e a ampliam. O ponto importante a ter em mente é o seguinte: cabe ao autor identificar o que é relevante em sua pesquisa, e mostrar isso à ferramenta de software. O computador ajuda a organizar informações, mas o conteúdo das informações ainda é humano.

Partes publicadas

Ficarei feliz em ouvir suas considerações e sugestões; para isso, use os meios indicados na página de contato. Para saber quando outras partes forem publicadas aqui, veja o que recomendo na página siga-me.

  1. Fundamentos
  2. Organização
  3. Acervo
  4. Escrevendo
  5. Notas

Publicação anterior sobre o git: parte 1 e parte 2.


Autor

Luiz Cláudio Silveira Duarte

Luiz Cláudio Silveira Duarte

Jogador inveterado, pesquisador de jogos, leitor voraz, polímata. Seus interesses de pesquisa são as regras dos jogos e as relações dos jogadores com as regras. Há muito mais, mas assim está bom para começar.