Herança digital

Publicado em 19/05/2021 | Category: dicas | morte, Internet,



Leio notícia sobre o que está sendo chamado de “herança digital”: familiares recorrem à Justiça para terem acesso à presença digital de uma pessoa morta. Conforme a notícia, a maior parte destes pedidos é negada.

Isto é uma questão importante, já que cada vez mais aumenta a parcela digital da nossa vida. Entendo a preocupação dos familiares, e tendo a concordar que este é um direito que lhes deveria ser concedido.

Mas vivemos no mundo do ser, e não no mundo do dever ser. Para meu grande desgosto, recorrer ao Poder Judiciário frequentemente é perda de tempo, muitas vezes é prejudicial, quase sempre a solução é tardia – e ter razão é rigorosamente, inteiramente irrelevante.

Então, eu tenho minhas providências pessoais para ajudar os meus familiares, após a minha morte.

Primeiro, há anos levo um cartão plastificado, em minha carteira, no qual constam minha identificação, meu tipo sanguíneo, os nomes e telefones de duas pessoas da minha família, e minha declaração de autorização de transplantes de órgãos. Eu atualizo o cartão quando é necessário; eu criei o arquivo no Microsoft Word, e está em meu diretório de arquivos pessoais. Basta imprimir e mandar plastificar.

Segundo, eu tenho junto a meus pertences, em minha residência, uma caderneta / livreto. Nela, escrevo as minhas principais senhas digitais, também atualizando quando necessário. Desta maneira, funciona ao mesmo tempo como uma ajuda para meus familiares, e uma memória física para o caso de eu esquecer alguma senha importante.

Terceiro, e mais importante. Eu criei várias notas, em arquivos digitais, e a pista para elas está na caderneta. Cada uma das notas traz detalhes sobre algum aspecto importante para meus sucessores: pessoas a avisar, todas as minhas contas em empresas financeiras, as empresas nas quais tenho alguma forma de presença digital, a lista de processos judiciais nos quais estou envolvido, e assim por diante.

Em seu conjunto, estas providências funcionam como um auxílio tremendo para as pessoas que cuidarão de meus assuntos após minha morte. Claro, isso também pode ser crucial em outras circunstâncias, mesmo em minha vida. Já mencionei a hipótese de eu esquecer alguma senha importante. Mas eu também posso ser vitimado por alguma doença ou acidente, e entrar em coma; mais uma vez, estes cuidados serão muito úteis para meus familiares.

Coloco tudo isso como uma sugestão. Mais do que isso, uma recomendação. Planejar a morte é tão necessário quanto planejar a vida – talvez ainda mais necessário.


Autor

Luiz Cláudio Silveira Duarte

Luiz Cláudio Silveira Duarte

Jogador inveterado, pesquisador de jogos, leitor voraz, polímata. Seus interesses de pesquisa são as regras dos jogos e as relações dos jogadores com as regras. Há muito mais, mas assim está bom para começar.