A máquina do tempo

Publicado em 11/04/2021 | Category: | poesia, tecnologia, alvorada, cores, Marte, astronomia, Code Bias, O cair da noite



Como de costume, em minhas caminhadas matinais, seguia fascinado pelo espetáculo dos céus. Quando comecei, fui saudado por um céu estrelado, quase sem nuvens. No percurso de volta, já via a gradação sutil de cores da aurora.

Meu caminho apontava para a noite, e vi um luminar fulgurando no céu, à minha frente. Pelo faiscar, supus que fosse Marte – Vênus estaria às minhas costas, acompanhando o Sol ainda oculto. Mantendo a vista fixa, eu mais adivinhava do que via umas poucas estrelas, escondidas pelo alvorecer.

Voltei para meu quarto, pensando na maravilha que é contemplar os céus, literalmente vendo o tempo passar. Nosso primeiro relógio, oferecendo um conhecimento absolutamente vital para nossa existência, que permitiu e moldou o nosso percurso neste planeta.

Entendo o desespero de tantos astrônomos, amadores e profissionais, vendo o seu céu cada vez mais riscado por milhares de satélites, muito em breve dezenas de milhares.

Lembrei de algo que havia lido pouco antes de sair para a caminhada. Eu recebera mensagem de meu querido amigo Marcelo, recomendando o documentário Code Bias. Fui procurar informações sobre ele; encontrei uma entrevista com Joy Buolamwini. Um trecho me voltou à memória naquele momento de contemplação:

Joy, por que você combina tecnologia e arte em seu trabalho?

Buolamwini: Então… eu sou uma poeta do código – P.O.C. Nós precisamos de mais poetas na tecnologia, e nós precisamos de mais pessoas de cor na tecnologia. A razão pela qual eu me considero uma poeta é porque poetas iluminam o desconfortável, e eles nos fazem sentir aquilo que muitas vezes não vemos.

Lembrei de duas obras famosas de Isaac Asimov – Fundação e o planeta Trantor, inteiramente transformado em uma cidade, recoberto por uma carapaça que impede seus habitantes de ver os céus; e O cair da noite – mas, em especial, o trecho que a inspirou.

A beleza sobre a natureza

Para estar em solidão, o homem precisa se afastar tanto de seu quarto quanto da sociedade. Não estou solitário quando leio e escrevo, embora ninguém esteja comigo. Mas, se um homem precisa estar só, que ele veja as estrelas. Os raios que vêm destes mundos celestiais vão se colocar entre ele e o que ele toca. Poder-se-ia pensar que a atmosfera foi feita transparente com este propósito, para dar ao homem, nos corpos celestiais, a presença perpétua do sublime. Vistas nas ruas das cidades, como são grandiosas! Se as estrelas aparecessem apenas uma noite em mil anos, como os homens poderiam acreditar e adorar, e preservar por muitas gerações a lembrança da cidade de Deus que lhes fora mostrada! Mas, a cada noite, surgem estas mensageiras da beleza, e iluminam o universo, admoestando com seu sorriso.

– Ralph Waldo Emerson, Nature; addresses, and lectures (1849).

Emerson falou nos raios celestiais que se colocam entre nós e o que tocamos; mas as nossas ferramentas também se interpõem entre nós e o mundo. Ao mesmo tempo, aumentam o alcance de nossos olhos, e restringem a amplidão de nossas vistas; aumentam nossa força e restringem nosso tato. Este é o paradoxo que nos define como espécie, este é o desafio que estamos tentando responder por uns poucos milhões de anos – e as nossas respostas estão nos matando.

Voltei ao meu quarto, mergulhado nestes pensamentos. Usando ferramentas, quis verificar se eu identificara corretamente o luminar fulgurante da minha caminhada.

Não era Marte, nem qualquer dos outros planetas visíveis a olho nu.

Provavelmente era um satélite.


Autor

Luiz Cláudio Silveira Duarte

Luiz Cláudio Silveira Duarte

Jogador inveterado, pesquisador de jogos, leitor voraz, polímata. Seus interesses de pesquisa são as regras dos jogos e as relações dos jogadores com as regras. Há muito mais, mas assim está bom para começar.