Fundamentos

Publicado em 05/04/2021

Recentemente, eu estava conversando com meu confrade Adriano, e ele demonstrou alguma curiosidade sobre as ferramentas de software que eu uso em minha pesquisa e em minha escrita. Adriano é professor e pesquisador na UFPR; como muitos de seus colegas, sua ferramenta de trabalho é o Microsoft Word.

Como o meu sistema é completamente diverso do sistema que ele costuma usar, resolvi escrever uma pequena série de textos apresentando as ferramentas que uso, bem como o papel de cada uma delas no meu fluxo de trabalho.

É importante esclarecer que as ferramentas que vou apresentar aqui podem ser usadas sob o Microsoft Windows, ou sob o Mac OS X. Eu mesmo uso Linux, mas não é de sistemas operacionais que eu trato aqui.

Além disso, aqui eu me refiro ao Microsoft Word, mas as mesmas considerações se aplicam a softwares semelhantes, como o LibreOffice Writer.

Ainda não sei quantas partes terá este texto. Mas começo pelos fundamentos do meu fluxo de trabalho, antes de poder começar a discutir as ferramentas que eu uso nele.

Unicidade e multiplicidade

Primeiro fundamento. O Word é uma ferramenta única para realizar diversas funções. Em meu fluxo de trabalho, eu uso ferramentas especializadas nas diversas funções.

Que funções são estas? A principal, claro, é a escrita do texto. Mas é importante notar que formatar o texto não é a mesma função. Formatar é cuidar da apresentação visual do texto – por exemplo, decidir quais são as fontes tipográficas, ou as margens da página, ou se o texto tem uma ou duas colunas, e assim por diante.

O Word é uma ferramenta WYSIWYG – what you see is what you get, “o que você vê é o que vai conseguir ao final”. É um programa que procura mostrar imediatamente a aparência final do texto, mesmo enquanto ele está sendo escrito.

Mas isso tem um preço: forçar o pesquisador a tomar decisões de conteúdo junto com as decisões de formatação. Por exemplo, escrevo uma frase que merece um destaque especial, e penso “será melhor destacar esta frase em vermelho?” Interrompi o meu raciocínio, que estava orientado para a criação do conteúdo, para me preocupar com a forma final do texto – e eu ainda nem tenho a versão final pronta!

Ou outra situação, ainda mais problemática. A escrita acadêmica precisa de referências bibliográficas, e prepará-las não é uma tarefa trivial. Digamos que eu estou escrevendo no Word, usando referências em notas de rodapé. Escrevo uma frase, insiro uma nota de rodapé. A tela muda para a parte de baixo da página, e eu já não vejo o texto que estou referindo. Escrevo a referência – “WITTGENSTEIN, Ludwig. Tractatus Logico-Philosophicus”. Penso se coloco ou não a informação de edição, confiro se escrevi corretamente, volto ao texto – o que eu estava mesmo escrevendo aqui? Recupero o fio da meada depois de alguns segundos, e volto a escrever.

Em outra ocasião, possivelmente semanas depois, estou reescrevendo o capítulo anterior, e novamente preciso referenciar a mesma obra. Nota de rodapé, e escrevo “WITTGENSTEIN, L. Tractatus” – ou mesmo “WITTGENSTEIN, L. op. cit.” Mas… embora eu esteja escrevendo depois, na verdade estou escrevendo um capítulo que vai antes do capítulo que eu escrevi há alguns dias, e agora estou repetindo uma citação que ainda não apareceu.

Multiplique este tipo de problema por várias referências, junte a ele as diferenças entre citações – um programa de computador muitas vezes vai achar que “WITTGENSTEIN, L.” e “WITTGENSTEIN, Ludwig” são pessoas diferentes –, e você ganha uma série de dores de cabeça, que precisarão ser resolvidas antes que seu texto possa ser publicado.

É útil notar que o Word tem um gerenciador de referências. Pouquíssimas pessoas o usam, ele é incrivelmente difícil de usar, e acaba mais atrapalhando que ajudando.

Em todos os exemplos que eu dei, há duas faces do mesmo problema. Como a mesma ferramenta é usada para todas as funções, o pesquisador também tem que tomar decisões sobre todas as funções ao mesmo tempo, ao invés de se concentrar em um tipo de atividade de cada vez. Por outro lado, como o mesmo software realiza todas as funções, o pesquisador fica na situação de um marceneiro que tem apenas uma chave de fendas para seu trabalho. É ótima para parafusos, tem um cabo que pode funcionar como um martelo improvisado, e consegue até fazer cortes na madeira… desde que você tenha muita paciência e não se incomode com um corte que vai ficar todo torto.

Em meu fluxo de trabalho, há todo um conjunto de diferentes ferramentas, ao invés de uma ferramenta única que tenta suprir todas as necessidades do pesquisador.

Filosofia e pragmatismo

Uma parte essencial do meu fluxo de trabalho é a decisão de usar formatos livres, padronizados, para os arquivos. No caso dos arquivos de texto, isso significa usar arquivos em “formato texto”.

Os arquivos do Word – sejam o formato .DOC ou o formato .DOCX – são gravados em chamados “formatos proprietários”. A Microsoft é a proprietária do formato. Já aconteceu, mais de uma vez, que uma nova versão do Word usava formatos de arquivo que versões anteriores não conseguiam ler. É claro que isso cria problemas para os pesquisadores.

Para além disso, de forma geral formatos proprietários prendem o arquivo àquele software. No caso do Word, isso significa que apenas os programas da Microsoft podem abrir o arquivo. Mesmo a capacidade de leitura de arquivos .DOCX pelo LibreOffice não é 100% garantida, porque ela foi criada a partir de “engenharia reversa” – há características importantes do formato que a Microsoft trata como segredo de indústria e não divulga.

Há poucos dias, eu peguei arquivos de um texto que escrevi em 2011. Estavam em formato aberto, e não tive qualquer dificuldade em abri-los. Para poder abrir outros arquivos conexos, em formatos proprietários, precisei fazer alguns malabarismos de software – e aproveitei para convertê-los para formatos abertos.

Por outro lado, é trivial converter formatos abertos em formatos proprietários – por exemplo, se eu precisar submeter um texto a uma editora que só aceita arquivos .DOC.

Há, então, uma razão pragmática muito forte para usar formatos abertos, ou padronizados.

Importante: o formato .DOCX não é um “padrão”. Um padrão é um formato que qualquer pessoa ou empresa consegue usar. O fato de muita gente usar o formato .DOCX não o transforma em um padrão.

Mas há, também, uma razão filosófica. Eu dou preferência, sempre que possível, ao uso de software livre. Os últimos trinta anos mostram, cabalmente, que software livre é significativamente melhor que software proprietário – e não é à toa que praticamente todas as grandes empresas de informática incentivam desenvolvedores de software livre. Mesmo a Microsoft.

Visão geral do fluxo

O meu fluxo de produção de documentos não é linear. Eu leio, faço anotações sobre as leituras, escrevo, anoto ideias que me ocorrem durante a leitura, anoto referências, escrevo, formato, volto ao texto e faço correções, mudo para outro texto e volto depois de semanas ou meses…

A organização do meu trabalho tem que levar isso em conta. Eu preciso poder recuperar anotações e ideias. Isso quer dizer que escrever uma ideia pouco ajuda, se eu depois não conseguir encontrá-la. Nem as fases do processo podem ser estanques, já que muitas vezes uma fase cria ideias para outras.

Em que pese esta flexibilidade, eu me concentro em uma função de cada vez. Quando escrevo, não quero interromper o meu pensamento para me preocupar com versões ou tamanhos de fontes, assim como quero citar uma obra sem ter que me preocupar – naquele momento! – se escrevi corretamente o nome do autor.

Estas são as funções principais do meu fluxo de trabalho:

  • escrita de ideias, de anotações, e do texto principal
  • interligação entre diferentes textos
  • sistematização do trabalho
  • controle de versões
  • controle de acervo digital
  • organização de referências
  • conversão de formatos
  • formatação final

Outras pessoas terão necessidades diversas – por exemplo, poderiam incluir a função de análise estatística. No meu caso em especial, a função mais importante é, de longe, a de interligação entre textos. Isso me permite estabelecer relações entre conceitos, parte essencial de como eu estudo um tema qualquer.

Para a função de controle de versões, eu uso o git, de que já tratei antes, então não me repito.

Para as demais funções, uso outras ferramentas, de que tratarei nas partes seguintes.

Partes publicadas

Ficarei feliz em ouvir suas considerações e sugestões; para isso, use os meios indicados na página de contato. Para saber quando outras partes forem publicadas aqui, veja o que recomendo na página siga-me.

  1. Fundamentos
  2. Organização
  3. Acervo
  4. Escrevendo
  5. Notas

Publicação anterior sobre o git: parte 1 e parte 2.