Lorde Richard Attenborough foi um dos grandes atores e cineastas britânicos do século XX. Recentemente, eu tive oportunidade de rever o primeiro filme que dirigiu: Oh! What a Lovely War (“Oh Que Delícia de Guerra”, 1969), e ocorreram-me alguns paralelos com outro filme dele, mais famoso: A Bridge Too Far (“Uma Ponte Longe Demais”, 1977).

Oh! What a Lovely War é uma comédia musical sobre a Primeira Guerra Mundial. Melhor dizendo, é uma sátira, das mais mordazes. Foi baseado em um espetáculo teatral do mesmo nome, que estreou em Londres em 1963 – e que foi apresentado, no Brasil, em 1966, com o título Oh Que Delícia de Guerra.

Como acontece com as boas sátiras, ela pode ser interpretada em vários níveis. O que me interessa, aqui, é um deles: as críticas aos generais comandantes da Força Expedicionária Britânica.

É importante notar que, no filme, as falas dos generais e marechais são históricas, e não fictícias. Vemos, ali, o total desprezo pelo sofrimento e morte dos soldados, em paralelo com as intrigas palacianas pelos altos cargos de comando.

E foi isso que me lembrou de A Bridge Too Far. Parte essencial da leitura que Attenborough faz da Operação Market-Garden é a crítica feroz aos seus comandantes, mais interessados em assumirem o protagonismo do fim da guerra na Europa do que em como vão conseguir levar a cabo um plano, já fraco para começar. A representação negativa do general Frederick Browning, em particular, foi duramente criticada quando o filme foi lançado.

Mas ver os oficiais de Oh! What a Lovely War é ver os oficiais de A Bridge Too Far. A mesma crítica – talvez mais civilizada no filme posterior, e mais ácida no musical, mas sempre presente.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Attenborough foi sargento da RAF e voou em várias missões de bombardeio. Ignoro se estas experiências criaram a sua visão sobre estes comandantes, mas em nada me surpreenderia.

A Bridge Too Far é um filme de guerra inusitado, por tratar de uma derrota e não de uma vitória. Já Oh! What a Lovely War é uma comédia musical inusitada, por tratar de uma das guerras mais cruentas que o mundo já viu, e por fazer chorar ao invés de rir. Mas está justamente aí a sua força: no choque de expetativas, somos colocados face a face com o preço da guerra.


Autor

Luiz Cláudio Silveira Duarte

Luiz Cláudio Silveira Duarte

Jogador inveterado, pesquisador de jogos, leitor voraz, polímata. Seus interesses de pesquisa são as regras dos jogos e as relações dos jogadores com as regras. Há muito mais, mas assim está bom para começar.