Como um amigo meu já observou, eu sempre fui fascinado pela música de Wagner. Ainda jovem, tive a maravilhosa experiência de ouvir todas as óperas do ciclo do Anel do Nibelungo, na casa de um colega de trabalho de minha mãe.

Luís Almeida era desenhista técnico na Portobrás, e cultivava uma intensa paixão por música clássica. Fizera parte do coro do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Ele e sua esposa, dona Eugênia, sempre me receberam em sua casa com muita cortesia. Outro visitante frequente era Reinaldo, outro funcionário da Portobrás, também grande apreciador de música clássica.

Ouvir os muitos discos daquela coleção foi maravilhoso, e contribuiu grandemente para aumentar os meus conhecimentos sobre música clássica. Para além de ouvir, eu aproveitava as frequentes discussões sobre o que estávamos ouvindo.

Mas retorno a Wagner. Quando ouvimos as óperas do Anel, eu conseguia acompanhar a trama apenas pela sinopse; meu inglês ainda era incipiente, e meu alemão, como ainda hoje, não ia além de auf wiedersehen. Isto me permitia prestar atenção antes à melodia que à história – e especialmente porque estávamos apenas a ouvir, sem ver as cenas no palco.

Bem… o fascínio com as melodias de Wagner me acompanha até hoje. Nos anos e décadas que se seguiram, li muito sobre o compositor e sua obra, li os libretos das principais óperas, e consegui vê-las na tela da televisão – primeiro em vídeo-cassete, depois em DVDs, hoje em streaming.

Hoje cedo, coloquei Das Rheingold, a primeira ópera do ciclo, para ver durante o desjejum. É a montagem de Harry Kupfer em 1991/1992, sob direção musical de Daniel Barenboim.

O visual é magnífico; o tapete de luz que mostra as águas do Reno é particularmente notável. E, justamente, vendo a primeira cena, com as três filhas do Reno provocando e desprezando o nibelungo Alberich, mais uma vez me dei conta do profundo antissemitismo de Wagner.

Os nibelungos são a encarnação artística de todos os preconceitos antissemitas da Alemanha, que fervilhavam na Alemanha dos séculos XIX e XX. Isso transparece claramente nas palavras usadas pelos nibelungos – Alberich e Mime –, e nas palavras usadas sobre eles, ou dirigidas a eles. Mas também surge, com força, na sua caracterização física, conforme as descrições nos libretos; e, especialmente, nas suas motivações e ações.

Surpreendentemente, eu já lera muito sobre o antissemitismo de Wagner, especialmente em seus textos panfletários, e sobre a influência que exerceu na imagem cultural idealizada do nazismo. Mas não me recordava de ter lido algo sobre a representação dos nibelungos como caricaturas de judeus.

Fiquei curioso, e fiz uma rápida busca. Encontrei um artigo, de Peter Brach, aluno na Universidade do Texas: https://www.laits.utexas.edu/wagner/selectedessays/pdf/brach.pdf. Brach menciona diversos textos discutindo o antissemitismo de Wagner, mas menciona apenas um que trata dos nibelugos como caricatura de judeus: Versuch über Wagner, de Theodor Adorno.

Achei isso bastante notável. Como Brach menciona, não foram os escritos antissemitas de Wagner que contribuíram para a formação cultural antissemita de Hitler: foi a expressão do antissemitismo em suas óperas, como sabemos pelas palavras do próprio Hitler.

Quando eu primeiro tomei contato com o Anel, conheci apenas a música. Mesmo que eu tivesse tido contato com o texto e com as cenas, naquela altura, eu dificilmente teria percebido o antissemitismo, pois ainda sabia muito pouco sobre o assunto. De certo modo, isso me permitiu uma apreciação isolada da música.

O que leva, inevitavelmente, a uma questão crucial da Arte: pode o autor ser dissociado de sua obra?

Não pretendo ter respostas para esta pergunta, nem mesmo uma resposta pessoal. Mas espero que cada um possa ter a liberdade de buscar a sua resposta.


Autor

Luiz Cláudio Silveira Duarte

Luiz Cláudio Silveira Duarte

Jogador inveterado, pesquisador de jogos, leitor voraz, polímata. Seus interesses de pesquisa são as regras dos jogos e as relações dos jogadores com as regras. Há muito mais, mas assim está bom para começar.