O presente dos Reis Magos

Publicado em 25/12/2020 | Category: | Natal, conto



O presente dos Reis Magos

por O. Henry, em 10 de dezembro de 1905

traduzido por Luiz Cláudio Silveira Duarte

Um dólar e oitenta e sete centavos. Era tudo. E contando sessenta moedas de um centavo. Centavos poupados, um ou dois de cada vez, importunando o merceeiro, o verdureiro e o açougueiro, até que as faces queimassem com a silenciosa implicação de parcimônia causada por este cuidado. Três vezes Della contou o dinheiro. Um dólar e oitenta e sete centavos. E o dia seguinte era Natal.

Claramente, tudo o que ela podia fazer era se jogar em seu sofazinho puído e chorar. Assim fez Della. O que provoca a reflexão moral de que a vida é feita de choros, soluços e sorrisos, com a predominância dos soluços.

Enquanto a senhora da casa passa gradualmente do primeiro estágio para o segundo, passe os olhos pela casa. Um apartamento mobiliado a $8 por semana. Não chega a mendigar uma descrição, mas certamente colocava esta palavra vigiando contra uma batida do esquadrão de mendicância da polícia.

No vestíbulo, embaixo, havia uma caixa de correspondência, na qual nenhuma correspondência entrava, e um botão elétrico do qual dedo mortal algum conseguiria soar a campainha. Também ali aparecia um cartão mostrando o nome “Sr. James Dillingham Young”.

O “Dillingham” tinha sido lançado às brisas, durante um período anterior de prosperidade, quando seu detentor recebia $30 por semana. Agora, com os proventos reduzidos a $20, eles estavam pensando seriamente em contraí-lo para um modesto, simples D. Mas, sempre que o Sr. James Dillingham Young chegava a casa, e subia ao apartamento do primeiro andar, era chamado de “Jim” e era muito abraçado pela Sra. James Dillingham Young, que já lhe foi apresentada como Della. Tudo isso é muito bom.

Della terminou de chorar e tratou de empoar sua face. Ela foi para a janela, olhando mecanicamente para um gato cinzento, caminhando sobre uma cerca cinzenta em um quintal cinzento. Amanhã era Natal, e ela tinha apenas $1.87 para comprar um presente para Jim. Ela estava poupando cada centavo havia meses, com este resultado. Vinte dólares por semana não chegam muito longe. As despesas tinham sido maiores do que ela calculara. Sempre são. Apenas $1.87 para comprar um presente para Jim. Seu Jim. Muitas horas felizes ela passara, planejando algo agradável para ele. Algo bom, raro, brilhante – algo pelo menos um pouco perto de ser digno da honra de pertencer a Jim.

Havia um espelho estreito, entre as janelas do cômodo. Talvez você já tenha visto um espelho assim, em um apartamento de $8. Uma pessoa bastante magra e ágil pode conseguir uma percepção razoavelmente acertada de sua aparência em um espelho estreito, observando uma rápida sequência de faixas longitudinais. Della era magra, e dominava esta arte.

Subitamente, ela se afastou da janela, parando ante o espelho. Seus olhos brilhavam, mas seu rosto havia perdido a cor em vinte segundos. Rapidamente, ela soltou seu cabelo e deixou que se estendesse por todo o seu comprimento.

O casal James Dillingham Young tinha duas coisas de que muito se orgulhavam. Uma era o relógio de ouro de Jim, que tinha sido de seu pai e de seu avô. A outra era o cabelo de Della. Se a Rainha de Sabá vivesse no apartamento do outro lado da janela, Della teria deixado seu cabelo pela janela algum dia, para secar, somente para depreciar as jóias e presentes de Sua Majestade. Se o Rei Salomão fosse o zelador, com todos os tesouros empilhados no porão, Jim consultaria seu relógio sempre que passasse, só para vê-lo puxar a barba de inveja.

Agora, o lindo cabelo de Della caía ao seu redor, ondulando e brilhando como uma cascata de águas castanhas. Ele chegava abaixo do seu joelho, fazendo quase um traje para ela. E então, ela o prendeu novamente, rápida e agitada. Por um minuto, ela hesitou, e ficou parada, enquanto uma ou duas lágrimas pingaram no tapete vermelho gasto.

Vestiu seu velho casaquinho castanho; colocou seu velho chapéu castanho. Com um sussurro das saias, e com o brilho ainda fulgindo em seus olhos, ela passou pela porta e desceu as escadas para a rua.

Onde ela parou, o carta dizia “Mme. Sofronie. Produtos Capilares de Todos os Tipos.” Della correu um lance para cima, e parou para se compor, arfando. Madame, grande, branca demais, fria, não parecia uma “Sofronie”.

“A senhora compra o meu cabelo?”, perguntou Della.

“Eu compro cabelo”, disse Madame. “Tira esse chapéu e deixa eu dar uma olhada nele.”

Desce a cascata castanha.

“Vinte dólares”, disse Madame, erguendo a massa com uma mão experimentada.

“Dê-me depressa”, disse Della.

Ah, as duas horas seguintes viajaram em asas rosadas. Esqueça a metáfora forçada. Ela estava vasculhando as lojas, em busca do presente para Jim.

Ela o encontrou, afinal. Certamente tinha sido feito para Jim e para ninguém mais. Não havia nada como ele em qualquer outra loja, e ela tinha revirado todas. Era uma corrente de relógio, em platina, simples e casta – proclamando seu valor pela substância apenas, e não por ornamentação vadia, como deve ser com todas as boas coisas. Era mesmo digna dO Relógio. Assim que ela a viu, sabia que tinha que ser de Jim. Era como ele. Reserva e valor – a descrição se aplicava a ambos. Vinte e um dólares cobraram dela, e ela apressou-se para casa com os 87 centavos. Com aquela corrente em seu relógio, Jim poderia ficar apropriadamente ansioso com o horário em qualquer companhia. Magnífico como era o relógio, ele por vezes o consultava discretamente por causa da velha tira de couro que usava no lugar de uma corrente.

Quando Della chegou a casa, sua embriaguez cedeu um pouco à prudência e à razão. Ela pegou seus ferros de cachear, acendeu o gás e pôs-se a consertar os danos causados pela generosidade somada ao amor. O que é sempre uma tarefa tremenda, queridos amigos – um mamute de uma tarefa.

Depois de quarenta minutos, sua cabeça estava coberta por pequenos cachos, que a deixavam maravilhosamente parecida com um menino peralta de colégio. Ela olhou sua reflexão no espelho, com cuidado, demorada e criticamente.

Ela disse a si mesma “Se Jim não me matar antes de me olhar uma segunda vez, vai dizer que eu pareço uma corista de Coney Island. Mas o que eu podia fazer – ai! o que eu podia fazer com um dólar e oitenta e sete centavos?”

Às sete da noite, o café estaa pronto, e a panela estava ao fundo do fogão aceso, quente e pronto para cozinhar as costeletas.

Jim nunca se atrasava. Della dobrou a corrente em sua mão e sentou-se no canto da mesa, perto da porta por onde ele sempre entrava. Então ela ouviu seus passos na escada, no primeiro lance, e empalideceu por um momento. Ela tinha o hábito de fazer pequenas orações silenciosas sobre as coisas mais simples do dia-a-dia, e ela sussurrou “Por favor, Deus, faça ele achar que eu ainda sou bonita”.

A porta se abriu, Jim entrou e a fechou. Ele parecia magro e muito sério. Pobre rapaz, tinha apenas vinte e dois anos – e já precisava sustentar uma família! Ele precisava de um novo sobretudo, e estava sem luvas.

Jim parou dentro, imóvel como um setter farejando uma perdiz. Seus olhos estavam fixos em Della, e havia uma expressão neles que ela não conseguia ler, e isso a aterrorizou. Não era raiva, nem surpresa, nem desaprovação, nem horror, nem qualquer dos sentimentos para os quais ela se preparara. Ele simplesmente olhava fixamente para ela, com aquela expressão peculiar em seu rosto.

Della desceu da mesa e foi até ele.

“Jim, meu querido”, chorou ela, “não olhe para mim assim. Eu cortei e vendi o meu cabelo porque eu não poderia viver no Natal sem lhe dar um presente. Ele vai crescer de novo – você não se importa, não é? Eu tinha que fazer isso. Meu cabelo cresce bem depressa. Diga ‘Feliz Natal!’, Jim, e vamos nos alegrar! Você nem imagina a beleza de presente que eu tenho para você.”

“Você cortou seu cabelo?”, perguntou Jim, laboriosamente, como se ele não tivesse ainda alcançado este fato ostensivo, mesmo depois do mais duro trabalho mental.

“Cortei e vendi”, disse Della. “Você não gosta de mim do mesmo jeito? Ainda sou eu sem o meu cabelo, não sou?”

Jim olhou em volta, curiosamente.

“Você disse que o seu cabelo se foi?”, disse ele, com ar quase idiota.

“Você não precisa procurar por ele”, disse Della. “Vendido, eu lhe disse, já se foi. É noite de Natal, menino. Seja bom para mim, porque ele foi por você. Talvez os cabelos da minha cabeça pudessem ser contados”, ela continuou com súbita e séria doçura, “mas ninguém jamais conseguirá medir o meu amor por você. Devo preparar as costeletas, Jim?”

Jim pareceu acordar rapidamente de seu transe. Ele abraçou sua Della. Por dez segundos, vamos desviar o olhar para examinar, discretamente, algum objeto qualquer. Oito dólares por semana, ou um milhão por ano – qual é a diferença? Um matemático ou um esperto lhe darão a resposta errada. Os Reis Magos trouxeram presentes valiosos, mas ela não estava entre eles. Esta obscura assertiva será aclarada mais adiante.

Jim puxou um pacote de seu sobretudo e o jogou sobre a mesa.

“Não se engane sobre mim, Dell”, disse ele. “Acho que não existe corte de cabelo, raspagem ou xampu que me faça gostar menos da minha menina. Mas, se você abrir o seu presente, você vai entender porque fiquei meio perdido a princípio.”

Dedos brancos e ágeis atacaram o cordão e o papel. E então um grito estático de alegria; seguidos, ai!, de uma rápida mudança feminina para lágrimas e soluços histéricos, exigindo do senhor do apartamento o emprego imediato de todos os seus poderes de reconforto.

Pois ali estavam Os Pentes – o jogo de pentes que Della há muito namorava em uma vitrine da Broadway. Belos pentes, puro casco de tartaruga, com as beiradas cravejadas – exatamente o tom adequado para o belo cabelo desaparecido. Eram pentes caros, ela sabia, e seu coração havia ansiado por eles sem qualquer esperança de posse. E agora, eram dela, mas as madeixas que deveriam ornamentar os desejados adornos já não estavam ali.

Mas ela os segurou de encontro ao colo, e finalmente conseguiu olhar para ele com a vista marejada, e um sorriso, e dizer “Meu cabelo cresce tão depressa, Jim!”

E então Della saltou como um gatinho e gritou “Oh, oh!”

Jim ainda não tinha visto seu lindo presente. Ela o segurou para ele, ansiosa, sobre sua palma aberta. O metal precioso fosco parecia brilhar com o reflexo de seu espírito fulgurante e ardente.

“Não é lindo, Jim? Eu estive na cidade toda para encontrá-lo. Você agora vai ter que ver as horas cem vezes por dia. Dê-me seu relógio. Quero ver como fica nele.”

Ao invés de obedecer, Jim se jogou no sofá, colocou as mãos atrás da cabeça, e sorriu.

“Della”, disse ele, “vamos guardar os nossos presentes de Natal por algum tempo. Eles são bonitos demais para usar no momento. Eu vendi o relógio para poder comprar os pentes. Que tal você preparar as costeletas agora?”

Os Reis Magos, como você sabe, eram homens sábios – homens maravilhosamente sábios – que trouxeram presentes para o Bebê na manjedoura. Eles inventaram a arte de dar presentes de Natal. Como eram sábios, seus presentes certamente eram presentes sábios, possivelmente com o privilégio de troca em caso de duplicidade. E aqui eu lhe contei, de forma pouco adequada, a singela crônica de duas crianças tolas em um apartamento, que de forma muito pouco sábia sacrificaram, um pelo outro, os maiores tesouros de sua casa. Mas, como uma última palavra para os sábios destes dias, que se diga que, de todos os que dão presentes, estes foram os mais sábios. Dentre todos os que dão e recebem presentes, os como eles são os mais sábios. Em toda parte são os mais sábios. Eles são os Magos.


Autor

Luiz Cláudio Silveira Duarte

Luiz Cláudio Silveira Duarte

Jogador inveterado, pesquisador de jogos, leitor voraz, polímata. Seus interesses de pesquisa são as regras dos jogos e as relações dos jogadores com as regras. Há muito mais, mas assim está bom para começar.