Problemas e riscos do Pix

Publicado em 23/11/2020 | Category: dicas, | bancos, dinheiro, riscos, privacidade, profecia, bancos, CPF, crimes



Nos últimos dias, venho refletindo e conversando sobre o Pix, a nova forma de transferência de dinheiro pela Internet. A conveniência e a ausência de tarifas bancárias o tornam atraente, mas há riscos sérios com ele.

Uso de uma chave

A expressão “chave” é absolutamente imprópria aqui. Uma chave é algo privado – mas a “chave” do Pix precisa ser pública! Ela não é uma chave de segurança, e sim o seu endereço digital para receber dinheiro (não para enviar; volto a isso mais abaixo). Se você quer receber dinheiro, você tem que informar a sua “chave” Pix.

Portanto, usar o número do CPF como “chave” Pix é um erro sério. Infelizmente, o CPF se transformou em uma espécie de identificador geral do cidadão brasileiro. Saber o CPF de uma pessoa permite a um agente mal intencionado causar uma série de problemas a esta pessoa.

Melhor que usar o CPF é usar um endereço de e-mail ou um número de celular, já que estas informações são públicas por natureza.

Não pense na “chave” Pix como uma chave, ou um código. Ela é o seu endereço. Como sua chave, use uma informação que possa ser conhecida por pessoas que você não conhece.

Falta de limites

Uma das conveniências do Pix, insistentemente apontada e divulgada, é o fato de não ter limites de valores, de poder ser realizado em qualquer dia da semana, e a qualquer hora do dia. Imediatamente.

Vamos a um pouco de memória. Há alguns anos, havia muitas notícias de sequestros-relâmpago. A vítima era forçada a usar seu cartão de banco, para sacar uma quantia em um caixa eletrônico, e entregá-lo aos criminosos. Por conta do alto número de crimes desta natureza, o Banco Central estabeleceu limites reduzidos para saques em horários noturnos.

Agora, nem mesmo é necessário ir a um caixa eletrônico. A vítima pode ser forçada a transferir, imediatamente, de seu celular, a quantia exigida pelos criminosos. O risco é ainda aumentado por outra característica inerente ao Pix, como foi criado, e que exponho a seguir.

Adesão desnecessária

Por mais que os bancos e o governo federal falem em “aderir” ou “autorizar” o Pix, esta “adesão” é necessária apenas para receber valores. Mesmo quem não tem uma “chave” registrada pode enviar dinheiro pelo Pix: o que importa é que o destinatário lhe informe a sua “chave”.

Isso quer dizer que, no cenário criminoso imaginado acima, basta que o criminoso informe a sua “chave” de recebimento. A vítima pode nunca ter feito um Pix na vida. Não importa, fará o primeiro sob ameaça.

Anulação das operações

As transferências pelo Pix são imediatas. Em tese, conforme o que li nos jornais, transferências criminosas podem ser anuladas, e o dinheiro pode ser devolvido. Isso apenas quer dizer que os criminosos não vão deixar o dinheiro parado nas contas de recebimento, mas que vão transferi-lo imediatamente para outras – se necessário, fazendo um encadeamento de contas. Ou vão usar imediatamente o dinheiro.

É claro que há inúmeros outros crimes que podem usar o Pix como meio. Estelionato, por exemplo. Extorsão. Corrupção.

O Banco Central criou um sistema de transferência imediata e conveniente. Conveniente para as pessoas de bem, e muito mais conveniente para os criminosos.

O que fazer?

Por enquanto, há pouco a fazer. Algumas ideias: não usar aplicativos bancários no celular, mas apenas em um computador; ou ter dois celulares, e não levar o celular que tem estes aplicativos para saídas noturnas.

Em nosso país, apelar para nossos parlamentares e expor estas preocupações é perda de tempo. Infelizmente.

Especulação

O Pix não foi criado para a conveniência do público. Tudo indica que ele foi criado para aumentar a digitalização da economia, e portanto para facilitar o controle financeiro do governo E dos bancos. Paulo Guedes, sistematicamente, toma decisões que beneficiam os bancos em detrimento do público. Esta é só mais uma.

Profecias

Faço três profecias. A primeira: depois que pessoas o bastante passarem a usar o Pix, em algum momento os bancos serão autorizados a cobrar taxas pelo seu uso. Provavelmente, o motivo alegado será o de que pessoas demais passaram a usar o sistema, e que isso consome recursos computacionais dos pobres bancos. É o mesmo método de todo traficante: as primeiras doses são de graça, para as demais você tem que pagar.

A segunda: as modalidades de transferência atuais (DOC e TED) deixarão de existir, ou se tornarão de uso mais difícil, para “incentivar” ao uso do Pix.

Por fim: depois que muitos problemas acontecerem, e depois que houver muitas vítimas – mas, sempre, depois que o Pix estiver disseminado –, haverá limites para as transações, para a proteção das pessoas honestas.

Dramaturgia de encerramento

“O que é o roubo de um banco, comparado com a criação de um banco?”

– Bertolt Brecht, Macheath (ato 3, cena 3).


Autor

Luiz Cláudio Silveira Duarte

Luiz Cláudio Silveira Duarte

Jogador inveterado, pesquisador de jogos, leitor voraz, polímata. Seus interesses de pesquisa são as regras dos jogos e as relações dos jogadores com as regras. Há muito mais, mas assim está bom para começar.