Transformando plebeus em nobres

Publicado em 28/10/2020 | Category: jogos, | erros, debate, ideias, dama, SPIEL.digital, Internet, desafio, misoginia, nobreza, plebeus



Para mim, uma das atividades mais interessantes da SPIEL.digital, na semana passada, acontecia todos os dias, às 17:00 h, no Pavilhão Brasil. Era o “Chá das Cinco”, um bate-papo descontraído, coordenado pelo Arnaldo Carvalho, que incluía os palestrantes do dia e os demais interessados. Vários temas foram abordados nestas conversas.

Uma das vantagens de participar de eventos online é ter à mão toda a riqueza de informações da Internet. Ao longo de todas as palestras e conversas, eu estava frequentemente fazendo anotações e catando referências.

No Chá das Cinco da sexta, dia 23 de outubro, um comentário feito pelo Carlos Seabra me chamou a atenção. Ele disse que a regra de promoção dos peões, no Xadrez, tinha surgido durante a Revolução Francesa, por motivos políticos, para mostrar a possibilidade de um plebeu se tornar um nobre.

Não sei muito sobre a história do Xadrez, mas esta afirmação me soou estranha. Resolvi ir à cata de mais informações. Em uma pesquisa inicial, encontrei referência a um texto de 1618, Famous Game of Chesse-play (de Arthur Saul), que mencionava a promoção do peão. Mais ainda, o editor do livro, Jo. Barbier, deixava claro que interpretava isso como a recompensa de um rei a um de seus súditos.

Chess: the history of a game. Richard Eales, 1985. London: B. T. Batsford.

No sábado, dia 24 de outubro, troquei mensagens com o Carlos Seabra sobre o assunto. Ele me respondeu:

Pois é… Há várias informações desencontradas, o fato é que a promoção já ocorria mas havia um impedimento que o peão fosse promovido a Dama, podia ser cavalo, torre etc. mas Dama não. Isso parece-me que era uma restrição inclusive imposta pela Igreja Católica. Com a Revolução Francesa é que a promoção do peão deixou de ter qualquer restrição… Mas isso é algo a ser pesquisado, de qualquer forma!

Um desafio, sem dúvida. Fui procurar novas referências. Como mostro adiante, há pontos corretos e incorretos na história lembrada pelo Carlos.

Em Davidson (1949), encontrei a descrição de um dos antepassados do Xadrez, o Chaturanga, e confirma que a promoção vem desde antes do próprio Xadrez.

From the beginning, the pawn always captured diagonally. On reaching the last square, he was promoted to mantri, an advancement to the weakest of the major pieces. The mantri, though the ancestor of our queen, was then the least powerful of the officer-pieces. It was analogous to a battlefield promotion in a modern army, where an enlisted man commissioned in battle becomes a second lieutenant, most junior of the officer ranks. When in modern chess the mantri became the queen, strongest instead of the weakest officer on the board, the whole face of the game was changed.

A short history of Chess. Henry A. Davidson, 1949. New York: David McKay.

Havia, então a promoção, e o peão era justamente promovido à segunda peça singular do jogo… mas, que na época, era uma das peças mais fracas! A história continua.

Em seu cap. 7, Davidson traz uma série de considerações sobre a complicada história das regras da promoção dos peões – mas nenhuma delas fundamentava-se em política, ou em religião. Algumas das críticas eram de ordem moral. Segundo ele, quando a peça hoje chamada Dama (ou Rainha) era um conselheiro – o mantri ou o fers –, não havia objeção a haver mais de um no tabuleiro. Mas muitos britânicos do século XVIII não aceitavam que houvesse duas rainhas no tabuleiro! Para os jogadores que contestavam esta situação, a regra habitual era a promoção apenas para peças que já houvessem sido perdidas. Outra regra era a de que o peão era promovido apenas à peça correspondente à sua coluna original. Davidson refere que a regra mais difundida era a da promoção irrestrita, mas que havia toda uma defesa da promoção restrita – por exemplo, por André Philidor, um dos mais famosos e influentes jogadores de Xadrez no século XVIII. Em meados do século XIX, a promoção irrestrita terminou por se tornar dominante.

Nenhuma referência a proibições religiosas, católicas ou de outra natureza; e tampouco a considerações políticas sobre plebeus recompensados, que já eram moeda corrente no pensamento dos enxadristas muito antes da Revolução Francesa – ou mesmo da Revolução Gloriosa.

Vale a pena registrar que as religiões já tiverem seus embates com o Xadrez. Isso não é de espantar, considerando que as religiões mosaicas frequentemente pretendem determinar a totalidade da experiência humana. Para um resumo das proibições religiosas ao Xadrez, consulte a página https://www.chess.com/article/view/religion-and-chess. Não posso deixar de notar que Teresa de Ávila foi proclamada a santa padroeira dos enxadristas, e a página não registra condenações católicas posteriores a esta proclamação.

Em todo caso, há certamente um erro na data atribuída a Teresa de Ávila. Ela viveu no século XVI, mas foi canonizada apenas em 1622, e somente depois disso terá sido proclamada padroeira dos enxadristas. Mais detalhes sobre a visão de Teresa sobre o Xadrez podem ser encontrados em http://www.chessmaniac.com/saint-teresa-of-avila-patron-saint-of-chess/.

Finalmente, a história da Dama, ou da rainha, é de fato uma história bastante complexa, com muita misoginia – por vezes disfarçada como moralidade. Como meu foco, aqui, é a regra da promoção do peão, não vou tratar do assunto. Se você quer ler sobre o assunto, leia o cap. 3 de Davidson, ou o livro Birth of the Chess Queen.

Birth of the Chess Queen. Marilyn Yalom, 2004. New York: Harper Collins.


Autor

Luiz Cláudio Silveira Duarte

Luiz Cláudio Silveira Duarte

Jogador inveterado, pesquisador de jogos, leitor voraz, polímata. Seus interesses de pesquisa são as regras dos jogos e as relações dos jogadores com as regras. Há muito mais, mas assim está bom para começar.