Transgressões de regras

Publicado em 19/10/2020 | Category: minha-pesquisa, | regras, regras de jogo, jogos, poesia, linguagem, Comics Code,



Um dos episódios da série animada Batman, em 1992, mostrava uma relação pessoal ambígua entre o protagonista e a Mulher-Gato. Apesar de toda a ambiguidade, a cena final mostrava Batman algemando a mais famosa de suas antagonistas, ao mesmo tempo que declarava seus sentimentos por ela.

A mensagem é inequívoca: quaisquer que sejam os meus sentimentos pessoais, as regras devem ser cumpridas.

Claro que o contexto importa. A série foi criada para um público juvenil; fazia parte da programação do bloco Fox Kids. Havia uma preocupação constante com a transmissão de mensagens adequadas, e com a censura a mensagens inadequadas. As semelhanças com o Comics Code não eram coincidência: nos dois casos, há a clara intenção de transmitir, para crianças e jovens, um conjunto específico de valores morais.

Vinte anos depois, podemos supor que boa parte do público jovem de 1992 tenha assistido à cena final de The Dark Knight Rises, quando vimos Bruce Wayne e Selina Kyle juntos, após deixarem suas máscaras para trás.

Desta vez, o contexto era um filme para um público mais adulto, encerrando uma trilogia de filmes que tinha, como um de seus temas principais, justamente a transgressão das regras. Escolher quando transgredir, que regras transgredir, e especialmente explorar os motivos da transgressão.

O fato é que seguir regras é assunto sério, mas saber quando transgredi-las pode ser ainda mais sério.

Quem pode transgredir as regras? Temos um examplo clássico na literatura. Poetas frequentemente transgridem as regras gramaticais; mesmo na prosa, autores como Guimarães Rosa criam grandes desafios para o que Lobato chamou de “cocorocas” da linguagem. Mas é importante notar que, para poetas e autores iniciantes, as transgressões gramaticais oferecem um risco muito maior de rejeição.

De forma geral, é mais fácil tolerar transgressões de quem já demonstrou antes saber cumprir as regras. O trapaceiro se desvia deste percurso, e isso é parte da explicação para a intolerância para com ele – especialmente por parte dos que cumprem as regras.

Mas a motivação também importa. Quem transgride por transgredir, quem transgride por capricho ou para simples ganho pessoal, é mais desprezível do quem transgride em nome de uma outra norma, talvez mesmo uma norma moral.

Conflitos de regras e de lealdades não são novidade. As nossas narrativas se nutrem disso, e continuam mais relevantes do que nunca.

Lancelot violou seu dever de lealdade ao rei em nome de seu amor por Guinevere, em uma das narrativas-tipo destes conflitos. C. Julius Caesar violou as leis da República e invadiu a Itália. Para se preservar, fez questão de apregoar que seu motivo não era o poder, mas a defesa moral de sua dignitas e de sua auctoritas, afrontadas pelo Senado. Claro que seu sucesso dá a cor para a nossa percepção da passagem do Rubicão. Alguns anos antes destes acontecimentos, L. Sergius Catilina havia violado as leis da República, de forma bastante parecida com o que Caesar fez, mas seu fracassou o condenou à infâmia.

Por sua vez, Donald Trump considera que lealdade pessoal a ele é mais importante que o dever de cumprir qualquer lei, formal ou não.

Tão importante quanto avaliar se uma pessoa cumpre regras é verificar quais ela transgride – e porque o faz.


Autor

Luiz Cláudio Silveira Duarte

Luiz Cláudio Silveira Duarte

Jogador inveterado, pesquisador de jogos, leitor voraz, polímata. Seus interesses de pesquisa são as regras dos jogos e as relações dos jogadores com as regras. Há muito mais, mas assim está bom para começar.