Terra plana, conhecimento e adubo

Publicado em 03/10/2020 | Category: | conhecimento, ensino, terraplanismo, professores, fazendeiros



Nas universidades, há professores que são frequentemente chamados a ministrar as disciplinas introdutórias de seus cursos. Todos os anos, ou todos os semestres, precisam ensinar as mesmas lições fundamentais aos novos calouros. Matemática não é fazer contas. Letras não têm som. A História não é uma sequência de datas.

Sim, sempre as mesmas lições. Especialmente para professores, assim como para bons profissionais destas áreas, são conceitos básicos, verdadeiros pressupostos e alicerces do que será construído no curso e no exercício daquela profissão. Não é de surpreender que, muitas vezes, os experientes fiquem surpresos com a ignorância destes conceitos. Como é possível que não saibam isso?

Pensei nisso, ao ver mais um meme terraplanista. Não faz diferença se é fruto de real convicção terraplanista, ou se é mais uma das desinformações propiciadas pela Era da Informação. Lembrei-me de como os gregos, quatro séculos antes de Cristo, já haviam deduzido a forma redonda da Terra, a partir de evidências empíricas. Revigorei o choque, que tantas pessoas já manifestaram: como é possível que, em pleno século XXI, ainda haja quem acredite que a Terra é plana, ou que vacinas não funcionam?

Desta vez, dei-me conta de um erro fundamental neste raciocínio. É incorreto dizer que “os gregos sabiam que a terra era redonda”. Alguns gregos sabiam disso. Para a imensa maioria da população, a questão sequer era discutida. E este erro não acontece à toa: decorre de uma das limitações fundamentais do estudo da História.

Nós vemos o passado por uma lente distorcida. Muito do que sabemos sobre o passado vem de textos escritos por um grupo extremamente reduzido de pessoas: alfabetizadas, decerto, mas especialmente com tempo livre para escreverem. Mesmo em nossa sociedade, este é um luxo dos mais raros.

Para cada filósofo discorrendo sobre a esfericidade da Terra, havia milhares de pessoas que não pensavam no assunto, ou – se pensassem – chegavam a conclusões distintas, ou mesmo que concordavam com os filósofos. Mas estes pensamentos não foram registrados em documentos que tenham chegado até nós.

Poderíamos dizer: os gregos conheciam a escrita. Mas qual era a taxa de alfabetização em Atenas? Qual era a taxa de alfabetização em Atenas, contando toda a sua população – homens e mulheres livres, estrangeiros, escravos? Provavelmente baixa… e o número de anos que nos separa de Platão era menor que o número de anos entre ele e o desenvolvimento da escrita.

Mesmo hoje, quantos ainda são analfabetos – e quantos são analfabetos funcionais?

Ao fim e ao cabo, deter conhecimento é um privilégio, e transmiti-lo é uma necessidade perene. Como os professores de disciplinas introdutórias já sabem, sim, temos que todos os anos repetir as lições. Da mesma forma que, todos os anos, os fazendeiros lavram o solo, espargem o adubo, plantam as sementes, e colhem o que plantaram. Pode ser tedioso, pode até desesperar pela repetição. Mas, se não fizermos isso neste ano, no ano que vem passaremos fome.


Autor

Luiz Cláudio Silveira Duarte

Luiz Cláudio Silveira Duarte

Jogador inveterado, pesquisador de jogos, leitor voraz, polímata. Seus interesses de pesquisa são as regras dos jogos e as relações dos jogadores com as regras. Há muito mais, mas assim está bom para começar.