Bolsonaro e a competência

Hoje, trocando ideias com meu pai, ocorreu-me usar a perspectiva da Administração para interpretar o facínora que é nosso presidente. Papai estudou e praticou a Administração por muitos anos, e um pouco do muito que ele sabe sobre o assunto respingou em mim…

Nos poucos estudos que fiz sobre o tema, sempre me interessaram os trabalhos que eu chamo de “escola gozadora” da Administração. Refiro-me a estudos como o Princípio de Peter ou a Lei de Parkinson, que usam a sátira para mostrar características muito reais das organizações. Uma sátira informal, mas muito conhecida, é a famosa máxima “O chefe mostra que é mais competente que seus subordinados, quando escolhe subordinados mais competentes do que ele”.

O paradoxo é apenas aparente. A forma completa da frase seria algo como: o chefe mostra que é mais competente – para exercer a chefia – do que os seus subordinados, quando escolhe subordinados mais competentes do que ele – para exercer as funções subordinadas. E isso não é nada de mais: ninguém consegue ser competente em tudo.

Esta frase me veio à mente quando li um comentário sobre Bolsonaro e alguns de seus ministros: “A grande verdade é que o Bolsonaro tem uma atração irresistível por auxiliares incompetentes.” Há verdade nisso, claro, mas apenas parcialmente.

Gente como Ernesto Araújo, Ricardo Salles, ou Abraham Weintraub são completos desastres para suas respectivas pastas e para o país. As imbecilidades que eles perpetram causam danos que vão se fazer sentir por décadas. Sob o ponto de vista da razoabilidade, do bom governo, do interesse do país, são todos manifestamente incompetentes.

Ah, mas aí é que entra a verdade parcial. Bolsonaro e seus asseclas não consideram que razoabilidade ou bom governo sejam critérios necessários, ou mesmo desejáveis, para a condução das atividades de seus cargos. Quanto ao interesse do país, ora, em sua visão distorcida será atendido pelos seus caprichos – afinal, como disse o presidente, ele acha ser a Constituição encarnada. Fica claro que não é: a Constituição pode ser emendada, mas ele não se emenda…

Voltando ao ponto: Bolsonaro escolheu subordinados mais competentes que ele, medindo esta competência por seus objetivos. Se ele próprio ocupasse estas pastas, por exemplo, nunca conseguiria ser tão descaradamente boçal quanto Weintraub, nem tão abertamente destruidor quanto Salles, nem tão reiteradamente imbecil quanto Araújo. Seus ministros demonstram grande competência, à luz dos objetivos de seu chefe, mais uma vez comprovando a máxima satírica que mencionei.

O Quartel-Mestre
O Quartel-Mestre
polímata
filomático
pesquisador
escritor

LUIZ CLÁUDIO, o Quartel-Mestre, the Rules Lawyer, conversa e escreve sobre jogadores e jogos de todos os tipos, sobre ludologia, narrativas, poesia, e mais.

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