Heinlein e os políticos reformistas

Robert Heinlein foi um dos grandes autores de ficção científica do século XX. Muito do que ele escreveu vive sempre em meu coração. Li as palavras a seguir, do livro Time Enough for Love (lançado no Brasil como Amor sem Limites), quando eu tinha uns 15 ou 16 anos. Nunca as esqueci. A tradução aqui é minha:


– Políticos reformistas não apenas tendem a ser desonestos: eles são estupidamente desonestos. Mas o político profissional é honesto.

– Não vejo isso desta forma, Lazarus. A história parece mostrar que…

– Use a cabeça, Ira. Eu não estou dizendo que um político profissional não rouba: roubar é o negócio dele. Mas todos os políticos são não-produtivos. O único produto que um político tem a oferecer é a sua palavra. Sua integridade pessoal… ou seja, se ele dá a sua palavra, você pode confiar nele? Um político profissional bem-sucedido sabe disso e preserva sua reputação, mantendo a sua palavra… porque ele quer continuar sendo um político – e roubar – não apenas nesta semana, mas no ano que vem e por anos a fio. Assim, se ele é esperto o bastante para ter sucesso neste exigente ramo de negócios, ele pode até mesmo ter a moral de um porco velho rabugento, mas ele vai tomar cuidado para não estragar a única coisa que tem para vender: a sua reputação de manter promessas.

Mas um político reformista não tem este norte. A sua devoção é para o bem do povo – uma abstração de alta ordem, o que quer dizer que tem definições infindáveis. Se é que pode ser definida de forma que faça sentido. Assim, o seu político reformista, absolutamente sincero e incorruptível, é perfeitamente capaz de quebrar a sua palavra três vezes antes de tomar o café da manhã. E ele não faz isso por desonestidade pessoal: ele lamenta ter que agir assim, e vai lhe dizer isso; mas ele o faz por devoção inabalável ao seu ideal.

Tudo que é necessário para ele quebrar sua palavra é que alguém chegue ao seu ouvido e o convença que isso é necessário para o bem maior de todo o povo. Ele vai aceitar.

Depois de umas tantas vezes, ele vai trapacear até jogando paciência. Felizmente, ele raramente vai ficar tempo bastante em seu cargo – exceto durante a decadência e queda de uma cultura.


Notem que Heinlein não se deu ao trabalho de associar qualquer tipo de viés ideológico ao político reformista. Pelo contrário: ele menciona expressamente que há definições infindáveis sobre o que seja o bem do povo .

Exercício para reflexão: à luz das palavras de Heinlein, procurem identificar a qual das duas categorias pertencem alguns dos políticos mais falados dos últimos anos – estejam ou não presos, estejam ou não ocupando cargos.

Encerro com mais palavras de Heinlein, do mesmo livro:

Rótulos políticos – tais como monarquista, comunista, democrata, populista, liberal, conservador, e assim por diante – nunca são critérios básicos. A raça humana se divide politicamente entre os que querem que as pessoas sejam controladas e os que não têm este desejo. Aqueles são idealistas, agindo pelos melhores motivos, para o bem maior do maior número. Estes últimos são rabugentos e invocados, gente desconfiada, sem qualquer altruísmo. Mas são melhores vizinhos que os outros.

O Quartel-Mestre
O Quartel-Mestre
polímata
filomático
pesquisador
escritor

LUIZ CLÁUDIO, o Quartel-Mestre, the Rules Lawyer, conversa e escreve sobre jogadores e jogos de todos os tipos, sobre ludologia, narrativas, poesia, e mais.

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