2019-04-27

Nossa sociedade não tem prática ou interesse em debates. Não se debatem ideias, propostas, ou conceitos. Mesmo nos períodos menos autoritários de nossa curta história, a prática do livre debate não era buscada, ou sequer considerada como algo desejável.

Pais, professores, sacerdotes, chefes, empresas, e especialmente a nebulosa entidade a que chamamos governo e que consideramos como distinta de nós mesmos: todos estes potentados ditam atos e palavras, ensinam conceitos. São imunes a propostas, são surdos a discordâncias, abominam ideias novas. Manda quem pode, obedece quem tem juízo poderia perfeitamente estar em nossa bandeira.

Não vemos debate de ideias em campanhas políticas ou em nossos órgãos parlamentares. Alguns lamentam que seja assim, mas não vemos debate de ideias sequer nas universidades!

Se o debate nunca é fomentado ou aprendido, não é de surpreender que o que passa por debate por aqui seja um conjunto mal-ajambrado de ataques a pessoas e não a ideias, e de falácias as mais gritantes disfarçadas de argumentos sólidos.

Profissionalmente, muitas vezes testemunhei a total ausência de debate. Escrevi inúmeras minutas de pareceres e votos a projetos de lei, apresentando argumentos a favor ou contra alguma proposta, para que os argumentos fossem depois completamente ignorados: o que importava era saber quem havia apresentado o projeto, o que importava era saber se havia algum interesse relevante a ser atendido com a sua aprovação ou rejeição.

A belíssima e etérea teoria dos processos judiciais afirma que estes são debates informados por silogismos de perfeita lógica. As partes apresentam seus argumentos, o juiz os pesa e realiza um verdadeiro exercício lógico para determinar sua sentença. Na prática, os argumentos – quando os há! – são fracos ou completamente falaciosos, mas estendem-se por páginas e páginas de mau português e latim ainda pior. Mas a inadequação destas peças, em conteúdo e em forma, é irrelevante, porque o juiz frequentemente decide o processo sem ler as peças! Mas, ao menos, a consistência é mantida, e as sentenças são também vazadas em mau português e pior latim…

Nossos periódicos acadêmicos também são rasos de debates. Um artigo é publicado; mas, mesmo que se discorde dele, mesmo que apresente erros grosseiros, é simplesmente ignorado, e novos artigos se sucederão.

É necessário debater. O debate é uma das melhores maneiras de incentivar novas ideias, e mesmo novos usos para velhas ideias. E estamos precisando muito de umas e outros.

O Quartel-Mestre
O Quartel-Mestre
polímata
filomático
pesquisador
escritor

LUIZ CLÁUDIO, o Quartel-Mestre, the Rules Lawyer, conversa e escreve sobre jogadores e jogos de todos os tipos, sobre ludologia, narrativas, poesia, e mais.

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