Quem é a Joy?

Publicado em 27/05/2017 | Category: animais | abandono, resgate



Joy em nossa casa, após as cirurgias

Joy foi encontrada em uma chácara, na região rural de Colombo (PR), no dia 23 de abril de 2017.

Quando a vimos, notamos duas coisas: primeiro, que estava com uma prenhez bem adiantada e, segundo, que estava com um ferimento muito sério em sua pata traseira esquerda. Parecia uma fratura exposta; a cachorrinha trazia a pata encolhida, junto ao corpo, e mancava com grande dificuldade.

Depois de vê-la, fomos pedir informações aos moradores, que nos disseram que ela já perambulava pela região há algum tempo. Alguns tinham notado que ela estava machucada, mas não tinham tentado socorrê-la.

Voltamos a procurá-la, e a encontramos sob uma folhagem, lambendo a pata ferida. A ferida estava recoberta de moscas e vermes, e tinha um cheiro horrível.

A cachorrinha mostrou-se bastante dócil e deixou-se recolher sem problemas. Conseguimos uma caixa de papelão onde acomodá-la, e voltamos com ela a Curitiba, direto para a clínica veterinária.

Tínhamos que lhe dar um nome, para os registros da clínica, e escolhemos Joy — alegria, em inglês — porque ela parecia alegre em estar sendo cuidada, e em ter uma chance de ter seus filhotes e vê-los crescer.

Joy foi atendida rapidamente; a primeira tarefa, urgente, era providenciar a limpeza do ferimento. Somente lá pudemos ter a verdadeira dimensão do caso.

Joy ao chegar à clínica

A parte traseira da pata tinha um corte fundo, bastante regular. Provavelmente foi realizado por uma foice, ou um facão. O tendão foi cortado, e o osso foi danificado.

Foi uma ferida realizada deliberadamente, com o intuito de fazer a pequena cachorrinha ter uma morte lenta e dolorosa.

A ferida estava cheia com larvas e ovos de parasitas; Joy também estava infestada por grandes carrapatos. A ponta de sua cauda estava ferida, com uma vértebra quebrada. Suas orelhas também tinham cortes, e estavam infestadas por parasitas.

O tratamento começou imediatamente; Joy ficou internada. O exame de sangue inicial mostrou que ela estava com uma forte infecção, e que estava anêmica.

Um dos filhotes de Joy

Um dos filhotes de Joy

No dia seguinte, ela deu à luz a cinco filhotes. Três estavam mortos ao nascer.

Dois nasceram vivos; um pequeno casal.

Mas Joy não conseguia produzir leite, muito menos colostro. Os filhotes foram colocados em uma incubadora, e procuramos uma mãe de leite para amamentá-los. Conseguimos encontrar uma cachorrinha, que os acolheu — mas os pequenos não sobreviveram.

Os exames de imagem mostraram que o sistema digestório de Joy não aparenta ter problemas… mas também mostraram que a alimentação dela, provavelmente há muito tempo, era apenas de ossos e suas lascas.

Joy continuou na clínica, cercada de cuidados e sempre muito carinhosa.

Mas a internação sempre oferece riscos; como Joy estava bastante fragilizada, havia o temor que pudesse contrair uma infecção de outro animal internado. Assim, nós a trouxemos para nossa casa.

Continuamos o tratamento, com duas trocas diárias dos curativos em sua pata e em sua cauda, e com limpeza e medicação dos ouvidos.

Joy dá mostras de ter sido uma cachorrinha criada em apartamento. Sai ao quintal, para defecar, apenas uma vez por dia, e sempre em um cantinho afastado. Sempre se mostra muito carinhosa, e gosta de ficar perto de pessoas.

Nossa suspeita é de que ela tenha sido abandonada, na região rural onde a encontramos. Os moradores nos contaram que é muito comum verem, à noite, caminhoneiros abandonarem animais na estrada; parece que os trazem, mediante pagamento, de suas cidades, para abandoná-los longe.

Ela não é uma cachorrinha jovem, e suas mamas estão bastante curtidas. Ela provavelmente teve várias ninhadas. Sua pelagem também mostra alguma idade, pois já tem um toque grisalho. Quanto a seus dentes, mostram tanto a sua idade quanto as dificuldades para encontrar comida, pois estão desgastados e quebrados.

No dia 8 de maio, Joy foi submetida a uma cirurgia em sua pata ferida e em sua cauda. O cirurgião precisou reconstruir o osso calcanhar, com enxertos ósseos; ele disse que ainda encontrou larvas e ovos dentro da ferida. A última vértebra da cauda foi amputada.


Autor

Luiz Cláudio Silveira Duarte

Luiz Cláudio Silveira Duarte

Jogador inveterado, pesquisador de jogos, leitor voraz, polímata. Seus interesses de pesquisa são as regras dos jogos e as relações dos jogadores com as regras. Há muito mais, mas assim está bom para começar.