2017-04-03

Leio a entrevista de José Mário Pereira, colaborador de Roberto Campos na preparação de suas memórias. Chama-me a atenção o relato que faz de conversa com Darcy Ribeiro:

Quando finalizava as suas memórias, já doente, Darcy me chamou várias vezes ao seu apartamento para conversar, e ajudá-lo a rever ‘Confissões’, que afinal teve edição póstuma. Uma vez, assim que entrei na sala, ele me olhou e disse: ‘Você está com uma cara boa. Soube também que ficou rico!’ Eu ri, e perguntei que história era aquela. Ele então disparou: ‘Ora, você deve ter recebido muito dinheiro do Departamento de Estado americano, ou de algum outro órgão pretensamente cultural deles, para editar o enorme volume de memórias do Roberto Campos! Eles também devem ter ajudado na pesquisa, não?’ Eu caí na gargalhada, e passei a contar as dificuldades que tive para levantar o dinheiro necessário para editar ‘A lanterna na popa’. ‘Mas o Roberto Campos é muito rico, Zé Mario! Ganhou muita comissão servindo aos interesses americanos no Brasil! Ele então pagou a edição?’ Eu tornei a dizer que não, que até pegara dinheiro emprestado para editar o ‘Lanterna’, e que Roberto Campos não me parecia tão rico assim, pois testemunhara as dificuldades dele para quitar dívidas de campanhas eleitorais, chegando até a vender quadros que tinha ganho de amigos, como Di Cavalcanti. Mas Darcy continuou incrédulo, sugerindo que isso era teatro, e mudei de assunto.

Darcy Ribeiro foi um dos luminares do pensamento esquerdista no Brasil.

A sua recusa em enxergar fatos, lamentavelmente, é profundamente emblemática do que nos oferecem nossos intelectuais engajados.

Darcy, aparentemente, dava crédito aos rumores que os EUA financiavam a atuação de Roberto Campos, e por isso o condenava. Outros esquerdistas o acompanhavam nesta posição.

Houve, igualmente, rumores perenes de que o governo cubano financiou a atuação de movimentos e líderes da esquerda.

Por que condenar Roberto Campos, com base em rumores, mas não condenar os líderes da esquerda?

A resposta torna o caso ainda mais triste, e remete de volta à recusa em aceitar fatos e evidências, que mencionei acima.

Esta recusa fundamenta-se em um pressuposto muito simples: qualquer informação que contradiga a visão de mundo do esquerdista é uma mentira, ou foi manipulada — e portanto é falsa. Mesmo evidências que contradizem este pressuposto, evidentemente, também o são.

E chegamos ao ponto ainda mais triste, ainda mais lamentável. Substitua-se a palavra esquerdista , em meu parágrafo anterior, por evangélico . Ou fascista . Ou fundamentalista . Ou qualquer outro rótulo do pensamento extremado.

Quando as ideias têm precedência sobre os fatos, escancara-se o caminho para o desastre.

O Quartel-Mestre
O Quartel-Mestre
polímata
filomático
pesquisador
escritor

LUIZ CLÁUDIO, o Quartel-Mestre, the Rules Lawyer, conversa e escreve sobre jogadores e jogos de todos os tipos, sobre ludologia, narrativas, poesia, e mais.

Próximo
Anterior